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Quarentena produtiva: veja 5 descobertas científicas feitas durante a pandemia

Natalie Rosa

A pandemia da COVID-19 foi declarada em março, passando a transformar o mundo e adiar todos os planos de 2020 para os próximos. No mês seguinte, em abril, já eram cerca de quatro bilhões de pessoas vivendo em quarentena, o que representa metade da população mundial, e poucas respostas positivamente promissoras.

Os períodos de isolamento social, seja vertical ou horizontal, deixaram cientistas e pesquisadores do mundo inteiro desorientados, precisando se adaptar às possibilidades existentes no momento. Na Colômbia, por exemplo, herpetólogos da Universidade de Antioquia que estavam trabalhando com espécies ameaçadas, precisaram levar para suas casas ovos ainda não chocados e sensíveis à temperatura. Arqueólogos ingleses, da Universidade de Exeter, estão analisando imagens que são geradas por sensores LiDAR trabalhando em casa, com a colaboração de voluntários. A iniciativa já descobriu mais de 20 assentamentos romanos enterrados entre os condados Devond e Cornwall, em seus próprios notebooks.

São diversas as consequências provocadas pela pandemia, que podem ser falta de motivação e criatividade, ou criatividade e produtividade extrema. Aqueles que se encaixam na segunda opção estão inventando coisas em suas próprias casas, trazendo até mesmo grandes avanços científicos, e cinco descobertas feitas durante este período, no mundo todo, merecem aplausos. Conheça as histórias:

Analisando o solo

Foto: Acervo pessoal/Jagath Ekanayake

Jagath Ekanayake, inventor, cientista e engenheiro do instituto de pesquisa Manaaki Whenua - Landcare Research, na Nova Zelândia, estava prestes a embarcar em um estudo ecológico de dois anos para analisar a saúde do solo de diversas fazendas pelo país, e com o decreto de isolamento o experimento precisou ser colocado em pausa. Mas o pesquisador teve a ideia de ir e voltar durante uma tarde toda do seu laboratório para a garagem de casa, transportando tudo o que precisava para trabalhar em um lugar só. Entre os itens estavam estação de solda, multímetro, cabos, fios, placas, entre outras coisas.

Com tudo o que precisava em casa, Ekanayake percebeu que a sua garagem era muito fria para trabalhar, então ele decidiu criar uma rede de sensores sem fio em uma mesa na sua sala de estar. O seu trabalho é capaz de identificar terrenos que podem oferecer um alto cultivo com o mínimo possível de fertilizantes, preservando a biodiversidade da Nova Zelândia, que é única.

Ekanayake precisou de mais espaço na mesa da sala, então passou para o chão e, logo depois para os balcões da cozinha. Foram 12 horas de trabalho por dia, com dezenas de buracos sendo cavados diariamente em seu quintal, enterrando e testando cada sensor que havia construído.

Conquistando a física quântica

Foto: Acervo pessoal/Amruta Gadge

Além de Ekanayake, Amruta Gadge, profissional da física quântica na Universidade de Sussex, na Inglaterra, também não quis ficar parada na quarentena, mesmo que o seu laboratório tenha sido fechado por tempo indeterminado. A sua inquietação trouxe ótimos resultados: ela se tornou a primeira cientista da história a criar um Condensado de Bose-Einstein, o quinto estado da matéria, remotamente.

O Condensado de Bose-Einstein é composto por uma nuvem de átomos de rubídio resfriada por temperaturas de nanokelvin, em um procedimento que envolve diversas rodadas de resfriamento por rádio e laser. Em sua sala de estar, localizada a 3,2 quilômetros do seu laboratório, Gadge controla as condições do condensado a partir do seu computador.

A relação da cientista com a física quântica aconteceu por acaso, quando a sua universidade acabou a colocando no módulo errado de estudo. Porém, assim que ela entrou no laboratório se sentiu atraída pelo campo e não conseguiu mais sair. Hoje, com a conquista resultada pela sua quarentena, o seu próximo objetivo é usar o Condensado de Bose-Einstein como um sensor ultraeficiente para fazer a medição dos campos magnéticos que os mantêm no lugar, com foco no avanço de novas tecnologias de neuroimagem.

Estudos de insetos

Foto: Acervo pessoal/Brian Brown

Brian Brown, principal curador de entomologia do Museu de História Natural de Los Angeles há 28 anos, não hesitou em comemorar o lockdown na Califórnia. "Parecia um sonho se tornando realidade", disse. Então, o cientista aproveitou os meses de isolamento para focar no trabalho sem distrações.

Brown levou para casa seus microscópios e muitas amostras de espécies, principalmente de moscas da família Phoridae. A paixão por moscas o levou a conduzir muitos estudos importantes, analisando ainda espécies preservadas em peças antigas de âmbar, datadas em 100 milhões de anos.

Até quando está de folga Brown se dedica aos insetos, comandando o blog flyobsession.net, "obsessão por moscas" em português. "Eles podem ser parasitas, predadores, carniceiros, alimentadores de fungos. Eles são aqueles que polinizam plantas de cacau, que são a fonte do chocolate", diz o pesquisador.

Agora, em período de distanciamento social, Brown vem trabalhando remotamente e, até o momento, já descobriu nove novas espécias de moscas Phoridae em menos de dois meses, conquistando em seu currículo um total de 600 novas espécies de insetos descobertas.

Experimento espacial

Foto: Acervo pessoal/Stéphanie Lizy-Destrez

Stéphanie Lizy-Destrez, professora de sistemas espaciais, foi uma criança que teve a cientista Marie Curie como inspiração desde muito pequena. Neste ano, em março, a especialista em espaço estava coordenando uma missão a Marte com uma equipe internacional composta por representantes da NASA, do MDRS (DescriçãoMars Desert Research Station) e da agência espacial russa Roscosmos.

Em seu trabalho como pesquisadora espacial do ISAE-SUPAERO, uma universidade de aeronáutica em Toulouse, na França, Lizy-Destrez estava prestes a começar seus estudos, até que foi preciso entrar em lockdown. O seu trabalho envolvia investigar o impacto psicológico do isolamento e confinamento de uma tripulação durante missões longas.

Os participantes da pesquisa eram três homens e três mulheres, que foram selecionados para serem trancados em uma instalação em Moscou, na Rússia, por cerca de oito meses. A ideia original, então, foi modificada. Stéphanie Lizy-Destrez pediu para que 60 de seus alunos realizassem tarefas e completassem testes psicológicos diariamente, fazendo anotações em diários virtuais.

Confinados em seus dormitórios, a ideia de realizar o estudo dessa forma foi crucial para os resultados. Depois de o projeto ser divulgado na mídia, várias outras pessoas entraram em contato com ela se voluntariando para participar, então foi feito um processo de seleção bastante criterioso e o estudo foi expandido.

Em uma simulação de missão espacial, o experimento teria entre quatro a seis participantes. Na quarentena, mais de 100 pessoas participaram, com idades entre 13 e 50 anos, tornando-se então o maior estudo de missão espacial da história. Neste momento, o estudo de Lizy-Destrez está sendo analisar as suas descobertas, também remotamente.

Dados oceânicos

Foto: Acervo pessoal/Ann-Sofi Rönnskog e John Palmesino

No início deste ano, os finlandeses Ann-Sofi Rönnskog e John Palmesino estavam na Itália dando os retoques finais no projeto Oceans in Transformation, após três anos de trabalho constante. A iniciativa consiste em uma instalação de vídeo com 30 telas de dados oceanográficos brutos antigos e atuais, que foram convertidos em imagens posicionadas uma em cima da outra.

O projeto é tão grande que exigiu a colaboração de cientistas do mundo todo, desde pequenos laboratórios até grandes instituições de pesquisa. Mas com o início da pandemia, os cientistas precisaram retornar à Finlândia por não serem cidadãos italianos. Isso aconteceu apenas algumas semanas antes da abertura da exposição.

A distância, no entanto, não impediu a análise obtida na região de Veneza, nos arredores da Basílica de São Lourenço. Como a atividade humana foi reduzida pelo isolamento social, pequenos peixes começaram a retornar aos canais desertos ao redor da igreja, por exemplo, assim como houve mudanças nos níveis de carbono e nitrogênio.

Isso fez com que os dados obtidos pelo projeto começassem a alterar consideravelmente, com tudo sendo compartilhado em seus computadores. Eles contaram com a ajuda de dados atmosféricos adquiridos a partir de um satélite da Agência Espacial Europeia durante o mês de março.

Com alguns de volta ao laboratório e outros ainda em isolamento social, esses cientistas mostraram que, com os recursos disponíveis em mãos, é possível se adaptar ao cenário atual e continuar trazendo boas conquistas científicas para o mundo.

Fonte: Canaltech

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