Mercado abrirá em 1 h 3 min

Em meio à quarentena, restaurantes procuram formas de não falir

Foto: Getty Images

Por Matheus Mans

Hélio de Souza é dono do restaurante self-service Cozinha Mineira, na zona sul de São Paulo, há cerca de 16 anos. Até mês passado, os resultados nunca tinham sido tão positivos: mais de 400 clientes diários no salão, refeições sendo preparadas para escolas da região e ganhos no delivery. Agora, Hélio implementou uma operação de guerra.

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Dentro do restaurante, cadeiras viradas para o alto. Na mesa onde serve o bufê, apenas o metal do suporte. Metade da equipe em férias coletivas, outra metade atendendo os pedidos que chegam por WhatsApp. Mas não é o bastante. “Entregamos para 50 clientes no máximo”, diz o empresário. “Se continuarmos nessa, em um mês fecho as portas”.

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A situação de Hélio se repete em todo o país. A quarentena exigida por governos estaduais e municipais exige que restaurantes, lanchonetes e bares sirvam apenas por delivery ou para retirada no local. Afinal, não há condições sanitárias de usar o salão pelo avanço da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Com isso, o desespero surge no setor. 

“O setor de alimentação, no geral, tem margens pequenas de lucro. Ou seja: qualquer redução nos ganhos já afeta o desempenho daquele estabelecimento”, explica o professor em economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, André Fernandes. “Além disso, é um setor que precisa comprar produtos no dia. Acaba refém da volatilidade do mercado”.

Efeitos de mercado

As previsões de economistas e especialistas do setor alimentício não são boas. Segundo Paulo Solmucci, da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), cerca de 30 mil bares e restaurantes correm o risco de fechar, na visão mais otimista, caso a crise se prolongue — e isso com ajudas financeiras e governamentais. Seriam 300 mil demissões, no total.

O impacto pode ser ainda maior, caso a crise do coronavírus se prolongue. Hoje, o setor emprega cerca de 6 milhões de pessoas.

Em carta enviada às instituições financeiras, a Abrasel pediu socorro. “Estão vendo alguém levantar brinde e mandar porção de fritas de cortesia à mesa? Não. Estamos levando nossos chapéus até vocês. Estendendo o pires. A canequinha surrada. Não temos nada a comemorar. Estamos em terra arrasada”, diz o documento enviado na quinta (26).

“Nossa expectativa é que o setor perca R$ 50 bilhões de faturamento ao longo dos próximos três meses. Em alguns lugares, o faturamento é zero. Muitas empresas vão quebrar”, diz Solmucci, da Abrasel. “Já tínhamos nos preparado pra crise há três semanas. Mas os governos acharam que não seria uma crise de colapso e que logo se resolveria”.

Para Jorge Matogrosso, pesquisador do setor alimentício, alguns serão mais afetados do que outros. Mas, no final, a cadeia toda irá sofrer. “Aquele negócio de bairro, menor, vai ser o primeiro a fechar as portas”, lamenta. “Mas restaurantes de luxo e franquias também vão sofrer. Os gastos desses dois são pesados. É um cenário de guerra, de destruição total”.

Seguindo essa linha dita por Matogrosso, efeitos em grandes redes também começaram a ser sentidos. Nos últimos dias, a IMC, dona das redes KFC, Pizza Hut, Frango Assado e Viena, demitiu cerca de 30% do seu quadro de funcionários no Brasil. Enquanto isso, parte dos outros 70% dos empregados receberam férias adiantadas ou contratos suspensos.

Além disso, vale dizer que isso gera um efeito dominó. Com menos restaurantes funcionando, cai demanda de produtores do agronegócio e há queda de faturamento imobiliário e financeiro. “O comércio da alimentação que faz a fama de São Paulo [...] deixará de colaborar com os balanços exuberantes de vocês”, finaliza a carta aos bancos.

Medidas tomadas

Por enquanto, os principais pedidos de donos de bares e restaurantes é crédito para capital de giro com taxas baixas, mais próximas da Selic — cerca de 3,75% ao ano. Além de carência de um ano para início do pagamento e longos prazos de pagamento, garantia pelo Fundo Garantidor de Crédito pelo governo e renegociação de operações já contratadas.

Por enquanto, as principais medidas que atingem o setor são linhas de crédito, disponibilizadas pelo governo federal e pelo BNDES, para pequenas e médias empresas. No entanto, especialistas apontam que não é o bastante. “É pouco. Restaurantes contam com particularidades. Precisamos de uma medida específica pra eles”, afirma Matogrosso.

Uma solução, que já está circulando no judiciário, é o governo arcar com boa parte dos pagamentos de funcionários para evitar completa ruptura entre empregador e empregado.

Hélio de Souza, do Cozinha Mineira, disse que a “situação está confusa”. Segundo ele, foi em dois bancos e não souberam informá-lo sobre linhas específicas de crédito. E no site do BNDES, há poucas informações e um sistema lento. “Estou me sentindo desamparado”, diz. “Ninguém sabe como ajudar, mesmo com o governo anunciando medidas. Vai ser difícil”.

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