Mercado fechado

Psicólogos explicam 'compra por pânico' durante pandemia

Foto: AP/Denis Farrell

As pessoas estão esvaziando as prateleiras de alimentos não perecíveis e papel higiênico dos supermercados em um aparente pânico pela propagação do coronavírus.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Finanças no Google News

Na manhã do último sábado, 206 pessoas já haviam testado positivo para coronavírus no Reino Unido. À noite, no mesmo dia, mais três casos foram confirmados na Irlanda do Norte, levando o total a 209 casos no Reino Unido.

Empresas e governos do mundo todo estão instruindo os funcionários a trabalharem de casa ou deslocando-os para escritórios afastados das áreas mais populosas. O governo da Itália acabou de anunciar que vai colocar 16 milhões de pessoas em quarentena no norte do país, uma das regiões mais afetadas pelo vírus.

Com todo esse clima de medo, os britânicos começaram a comprar para estocar, e o governo pediu para que as compras excessivas parassem.

Leia também

Buscando tranquilizar o público em relação à disponibilidade de produtos básicos, Matt Hancock, ministro da saúde, disse na quinta-feira que o país estava abastecido de "produtos essenciais". Ele afirmou no BBC Question Time que "não há necessidade alguma" de comprar mais que o normal.

Enquanto isso, segundo o jornal The Telegraph, os supermercados de todo o Reino Unido começarão a racionar alimentos. O Tesco, por exemplo, limitará a quantidade de alimentos básicos que cada cliente pode comprar para garantir que o estoque não acabe.

Mas será que esse comportamento de compra é realmente motivado pelo pânico ou é apenas uma reação racional? Com todas essas "compras emocionais", surgem muitas dúvidas, por exemplo: a situação vai piorar? Os supermercados conseguirão atender a todos? E o que tudo isso nos diz sobre o comportamento humano?

Os consumidores estão estocando demais?

Há evidências de que cada vez mais consumidores, da Inglaterra à Alemanha, e também em Hong Kong, estão estocando produtos, temendo pela própria saúde e por problemas na cadeia de abastecimento.

O supermercado britânico Ocado afirmou que os consumidores do Reino Unido estão fazendo "pedidos enormes" online. Um grande supermercado do Reino Unido contou à BBC que as vendas de massas secas e produtos enlatados "disparou". As redes de farmácia da região divulgaram que a procura por álcool em gel é cada vez maior, e os fabricantes de papel higiênico notaram um "pico" de demanda.

Os consumidores britânicos e de outros países estão compartilhando fotos nas redes sociais, mostrando prateleiras dos itens mais procurados vazias nos supermercados. Na última sexta-feira, a hashtag #toiletpaperpanic (pânico do papel higiênico) foi um dos assuntos mais comentados no Twitter. Os bens de maior demanda são os de saúde e limpeza, papel higiênico e alimentos e bebidas duráveis.

No sábado, um executivo do setor de varejo do Reino Unido contou ao Financial Times que, no caso dos produtos não perecíveis, os lojistas costumam ter estoque para três a quatro semanas na cadeia de abastecimento, e que "as prateleiras vão ficar vazias por um ou dois dias enquanto o sistema se ajusta".

Uma pesquisa com 2 mil famílias do Reino Unido, realizada no mês passado pela Retail Economics, trouxe mais dados: aproximadamente uma em cada 10 famílias entrevistadas afirmou estar estocando produtos.

No entanto, ainda não há dados públicos concretos.

Os números das vendas no varejo são publicados com semanas ou até meses de atraso. Além disso, os números de vendas por país não revelam muito sobre o comportamento do consumidor, explica ao Yahoo Finanças do Reino Unido o professor de economia comportamental da Newcastle University, na Austrália, David Savage.

Será que o "comportamento de manada" está fazendo os clientes comprarem demais?

A corrida para garantir produtos costuma ser descrita como "compra por pânico", mas Savage afirma que esse termo não é preciso.

"Compra por pânico" sugere que os consumidores estão "fora de si", com um comportamento ilógico e sem sentido. No entanto, segundo ele, esse comportamento é, na verdade, uma reação "muito racional" à propagação do vírus, aos problemas na cadeia de abastecimento chinesa e às reações de outros consumidores no mundo todo.

Ainda de acordo com David, os consumidores estão se concentrando em comprar produtos específicos, que consideram que podem ser necessários ou se tornar de difícil acesso, especialmente se tiverem que se manter em algum tipo de isolamento. No entanto, ele acredita que a situação também expõe três vieses comportamentais básicos do ser humano: comportamento de manada, aversão à perda e medo do arrependimento.

Todo o efeito em cascata pode começar com uma imagem de falta de papel higiênico circulando nas redes sociais, que levaria os consumidores mais avessos ao risco do Reino Unido a comprarem em excesso, "por via das dúvidas".

Com isso, os menos avessos ao risco seguiriam esse comportamento, e assim por diante. "Quando esses eventos começam, são como uma bola de neve que se retroalimenta, como foi no caso das corridas aos bancos", explica ele.

"Quando vemos alguém fazendo algo, pensamos que talvez deveríamos fazer também, mesmo sem entender muito bem a situação. Esse é o comportamento de manada, que está presente em todo o reino animal."

David também afirma que os humanos são programados para "detestar perder" e têm medo de se arrepender. Algumas pesquisas sugerem que as pessoas sentem as perdas com duas vezes mais intensidade que os ganhos. Sendo assim, um dos principais motivos dessas compras para estocar pode ser o desejo irresistível de evitar não apenas as perdas, mas também os futuros arrependimentos.

Quão grave é a situação para varejistas e produtores?

Para as empresas, normalmente é bom que o consumo aumente, no entanto, esses picos repentinos podem trazer muitas dificuldades.

Savage comenta que muitos varejistas e produtores do Reino Unido trabalham com cadeias de abastecimento sob demanda, e isso significa que formam estoques muito pequenos. Os sistemas de abastecimento usam como base as médias mensais de consumo, "então, para os varejistas, não é fácil reabastecer o estoque nem lidar com picos repentinos".

Também há dúvidas quanto à capacidade dos supermercados de atender ao aumento das compras on-line, já que as pessoas estão evitando sair de casa cada vez mais. O Ocado, por exemplo, já exibe um aviso sobre os prazos de entrega.

Bruno Monteyne, analista de varejo da Bernstein e ex-executivo da Tesco, conta que o plano de contingenciamento dos supermercados inclui a diminuição da variedade de produtos e foco no que é essencial. Jan Godsell, especialista em cadeias de abastecimento da Warwick University, acredita que as empresas também podem colaborar nas entregas de pedidos feitos pela internet.

De acordo com Bruno, é pouco provável que as empresas aumentem os preços, pois é preferível ter menos lucro do que arriscar ser considerado oportunista em "momentos de crise".

Esse fenômeno pode afetar muito a receita dos supermercados; Monteyne estima prejuízos de £ 1,2 bilhões (US$ 1,5 bilhões). Os supermercados reconhecem os problemas ligados ao vírus na cadeia de abastecimento, mas poucos divulgaram alertas mais contundentes sobre o impacto que as compras para estocar podem ter sobre a disponibilidade de produtos e os lucros.

Helen Dickinson, diretora do British Retail Consortium (BRC), afirmou que os varejistas estão confiantes de que as dificuldades serão limitadas. Os ministros afirmam que o governo formou estoque dos produtos "essenciais" e que "não haverá problemas" no abastecimento de alimentos.

Muitas empresas afetadas informam que estão aumentando a produção. Algumas delas, como as de álcool em gel, por exemplo, estão trabalhando 24 horas por dia. Os executivos da Waitrose estão conversando com fornecedores "de hora em hora" e dizem estar lidando com essas situações com muita "agilidade". Um supermercado supostamente até desengavetou as medidas de contingenciamento criadas para manter as prateleiras cheias caso não se chegasse a um acordo em relação ao Brexit.

Se a situação piorar, talvez seja preciso tomar medidas mais radicais.

Algumas farmácias já estão limitando as vendas de álcool em gel por cliente. Um fiscal do Reino Unido já avisou às empresas que o governo vai tomar medidas contra "falsificações" com o aumento da demanda. Savage diz que as autoridades deveriam regulamentar os preços ou nacionalizar os estoques de produtos, como as máscaras utilizadas pelos profissionais de saúde.

Já Monteyne enviou um aviso aos clientes, esclarecendo que pode haver tumultos caso a epidemia se torne mais "grave", mas que, nesse caso, o Exército intervirá para garantir a disponibilidade de alimentos. O primeiro-ministro Boris Johnson já afirmou que o Exército está "preparado para ajudar a polícia" caso seja necessário.

No entanto, segundo ele, isso aconteceria apenas "na pior das hipóteses". Por enquanto, a prioridade é impedir que as pessoas aumentem ainda mais o problema que a falta de produtos traria.

Tom Belger

Siga o Yahoo Finanças no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.