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Psicólogos brasileiros estão usando realidade virtual para tratar fobias

Nathan Vieira

Em um espaço seguro, controlado, com o acompanhamento de um profissional ao lado e sem riscos físicos, quem sofre com determinadas fobias pode se beneficiar de um tratamento proveniente de uma experiência desenvolvida inicialmente para o entretenimento: a realidade virtual. A primeira utilização da tecnologia para esses fins foi em 1997, quando pesquisadores do Instituto de Tecnologia do estado da Geórgia, nos Estados Unidos realizaram um estudo com 10 veteranos de guerra traumatizados que não haviam sido beneficiados pelas terapias convencionais.

O programa, chamado Vietnã Virtual, expunha os ex-soldados a situações realistas que eles haviam vivenciado décadas antes, na guerra contra o país asiático. Com o headset de RV na cabeça, eles voltavam às selvas vietnamitas ou à cabine de um Huey, o helicóptero dos marines utilizado nesse conflito. Enquanto o terapeuta manipulava o software, intensificando, por exemplo, os sons de batalha, os pacientes narravam seus traumas.

Para quem nunca passou por essa experiência real, a sensação é de estar em um jogo, mas, para eles, ia muito além do virtual. O tratamento durou um mês, ao fim do qual os 10 voluntários demonstraram melhora no quadro. A partir daí, foram iniciados mais testes, com número maior de participantes, tratados nos mais diversos cenários, simulando situações distintas.

Com a evolução contínua da tecnologia, muitos tratamentos de várias áreas diferentes da saúde foram ganhando mais e mais possibilidades. No caso da psicologia, não é diferente, e a Realidade Virtual foi conquistando o seu espaço a passos sutis. O Canaltech conversou com a pioneira no tratamento de fobias com RV no Rio de Janeiro, a psicóloga Marihá Lopes, que utiliza a tecnologia há um ano e meio com os seus pacientes, tanto em seu consultório, localizado no bairro da Tijuca, como em outros estados.

Mas antes de entender como a Realidade Virtual pode ajudar com o tratamento de fobias, primeiro é preciso entender o que pode ser definido como fobia. De acordo com a psicóloga, a fobia faz parte dos transtornos de ansiedade. Basicamente, sabemos que a ansiedade e o medo andam de mãos dadas e nas fobias esse medo ou ansiedade é acentuado em relação a um objeto ou situação, pode ser avião, altura, aranha, tomar injeção, elevador, etc.  Assim, Marihá diz que o medo ou ansiedade é desproporcional em relação ao perigo real imposto pelo objeto ou situação específica. Além de causar sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

“É classificado com fobia quando interfere em algum âmbito da vida da pessoa (social, familiar, profissional, etc.) e se faz necessário a busca de profissionais da área da saúde como o psiquiatra e o psicólogo. Geralmente a pessoa busca ajuda quando a situação já tomou uma proporção muito grande, quando percebe que o medo está sendo generalizado para outras áreas da vida”, diz a psicóloga. Ela conta que é muito comum que a pessoa possua medo de mais de um item, e que geralmente recebe pessoas com medo de elevador e avião; altura e avião; lugares fechados e avião, por exemplo.

Marihá ressalta a importância de buscar ajuda o mais rápido possível. “Quanto mais precocemente é feito o tratamento, mais rápido virá o resultado.  Quanto mais tempo a pessoa leva para procurar ajuda, mais enraizadas estão as crenças sobre aquele medo, e com isso será necessário mais tempo de tratamento”, continua.

O tratamento tradicional para as fobias

A psicóloga explica o seguinte: “Somos seres biopsicossociais, algumas pessoas possuem mais predisposição biológica para o medo e ansiedade, outras tiveram o medo de forma aprendida socialmente. É muito comum observarmos crianças que não têm medo de barata, mas de tanto ver um familiar correr ou gritar ao se deparar com uma, elas começam a entender que aquele animal pode ser perigoso e, como forma de proteção, passarão a fugir também”.

E aí a psicóloga acrescenta que a ideia é enfrentar, lutar em relação ao que nos causa medo. Cada vez que fugimos, ao nos depararmos posteriormente, estaremos com mais medo e ansiedade em relação aquele objeto ou situação temida. Cada vez que enfrentamos, nosso cérebro vai entendendo que aquilo não é tão perigoso como imaginávamos, com isso a ansiedade e o medo vão diminuindo. O foco de tratamento é a exposição.

Agora, falando de tratamento: Marihá esclarece que, atualmente, utilizando a terapia cognitivo comportamental, existe um protocolo de atendimento para fobia, em que se trabalha as cognições a respeito do objeto/situação temido, com o intuito de flexibilizar seu pensamento disfuncional e a parte comportamental que envolve as exposições.

“Nós temos a exposição in vivo, que a pessoa fica de frente para o objeto/situação temida (por exemplo: ficar de frente para o elevador, entrar no elevador; ir para lugares altos, etc.); a exposição imaginária, na qual o indivíduo imagina estar de frente à  situação ou ao objeto (a pessoa imagina que está entrando no elevador, que está dentro do avião, etc.); e, por último, temos hoje a possibilidade de utilizar a realidade virtual como forma de exposição imaginária (a pessoa visualiza uma cena já pré montada, como se ela estivesse de frente para o objeto/situação que lhe cause fobia)”, explica.

Tratamento por meio de Realidade Virtual

A tecnologia utilizada pela psicóloga é de fabricação espanhola e consiste numa plataforma online que disponibiliza mais de 30 situações que despertam a fobia e a ansiedade e um headset, por onde passam os casos. A plataforma possui cenas relacionadas a claustrofobia (elevador e ressonância magnética), avião, altura, animais (aranha, barata, cão), agorafobia (praça e metrô), TOC de limpeza (banheiro sujo), transtornos alimentares, fobia social, ansiedade antes de fazer prova, medo de agulha, medo de falar em público, medo de dirigir, medo de escuro, relaxamento e mindfulness.

A psicóloga explica que a RV facilita o processo de exposição principalmente para aquelas situações mais difíceis de termos contato, como o avião. O tratamento possui efetividade comprovada, produzindo o mesmo efeito caso o indivíduo fóbico se exponha ao estímulo temido no mundo real, resultando na diminuição da ansiedade e evitação. Assim, as pessoas se sentem mais seguras, já que sabem que é artificial e não estarão “em perigo”.

Ela ressalta, ainda, que o ambiente virtual pode ser facilmente controlado e intensificado, não requer a capacidade imaginativa da pessoa, e que o aprendizado se generaliza às situações reais. Além disso, tem a questão do valor: o preço é acessível, menos oneroso que a exposição in vivo, e isso abrange um atendimento individualizado, controlado, gradativo, com disponibilidade imediata da cena, podendo repetir a exposição inúmeras vezes.

“O trabalho feito com a realidade virtual amplia a atuação da técnica chamada dessensibilização sistemática. Esta possui o propósito de criar uma hierarquia de exposição junto com o cliente e ir avançando conforme for havendo melhoras e diminuição da ansiedade”, explica.

Dentro do medo

A tecnologia possibilita inserir a pessoa nas situações que mais causem medo e que ativem sua ansiedade, como, por exemplo, viajar de avião, caso mais recorrente entre as pessoas que a procuram. Com a RV, o paciente passa por todas as etapas que faria ao realizar uma viagem de verdade: desde o momento em que, de casa, aguarda o táxi, fazendo o trajeto ao aeroporto, chegando ao portão de embarque e, finalmente, sentando-se dentro da aeronave. “Em cada uma dessas etapas é possível adicionar agravantes, como a turbulência durante o voo. O diferencial é a possibilidade de colocar a pessoa em uma situação preexistente de forma segura e prática”, conta.

O tempo de tratamento varia de pessoa para pessoa, além das exposições com realidade virtual é pedido que a pessoa enfrente os medos ao longo da semana, fique de frente para os objetos temidos ou imagine as cenas que foram vivenciadas nas sessões como forma de complementar o tratamento caso não consiga imaginar uma cena real. A RV é, na maioria dos casos, o pontapé inicial para enfrentar os medos de forma real. Se o paciente se compromete em colaborar no atendimento psicoterapêutico, o resultado vem mais rápido, trabalhamos suas crenças e cognições frente às exposições, tanto com realidade virtual, como imaginária e in vivo (real). 

Há um porém: a restrição é para quem sofre de labirintite. As pessoas costumam ficar nauseadas com o uso dos óculos de realidade virtual... crianças muito pequenas também não podem usufruir da RV. Marihá utiliza os headsets em pessoas acima dos 10 anos. O cenário virtual é 360 graus, e para onde quer que a pessoa olhe, verá detalhes a serem observados. É por isso que o paciente que possui labirintite costuma se sentir tonto e nauseado. Nesses casos, o atendimento é preferível que seja feito de maneira imaginativa ou no mundo real.

No atendimento com RV, há também o headset e um sensor de biofeedback que monitora os picos de ansiedade. A psicóloga conta que o uso do headset é importante para ajudar a pessoa a se perceber na cena. Todas possuem sons e o uso do fone de ouvido ajuda a pessoa se inserir no ambiente que está sendo visualizado. 

Marihá acrescenta que alguns truques também são utilizados, por exemplo, quando trabalha o medo de agulha: nas cenas que a enfermeira passa o algodão no braço da pessoa, ela também passa, ao mesmo tempo, para dar uma dose extra de realismo. E quando vai ocorrer a extração ou injeção, encosta a ponta fina de uma caneta no mesmo lugar mostrado na simulação, assim aumenta a sensação de realidade da cena vivenciada.

“É importante deixar a pessoa na mesma posição que seu avatar está. Se o avatar está de pé em frente ao elevador, o indivíduo precisa também estar de pé, desta maneira, consegue gerar mais realismo para a situação”.

Psicologia e tecnologia

Na visão da especialista, a aceitação da tecnologia na psicologia só cresce entre pacientes e comunidade científica, necessitando apenas de maior divulgação e esclarecimento. “A tecnologia já presta contribuições inestimáveis em diversas áreas. Chegou a hora e a vez da psicologia explorar suas possibilidades”.

Quanto ao impacto que a tecnologia tem exercido sobre a psicologia, Marihá aponta que a inovação está cada vez mais inserida, atualmente sendo possível realizar atendimento online, e destaca a mudança não apenas com a realidade virtual, mas na própria dinâmica atual de tratamento, estando compatível com a atual realidade da sociedade.

A psicóloga conta que o atendimento online possibilitou uma maior democracia de acesso, já que algumas cidades não possuem profissionais da área ou, quando possuem, é um número muito limitado, o que impossibilita o atendimento. “Percebo um aumento significativo de busca de atendimento específico para fobias após o uso da realidade virtual, os pacientes entendem como uma maneira de dar um ponta pé inicial no tratamento que seja de forma segura. Muitos relatam um desconforto em relação ao olhar do outro ao tentar enfrentar a situação temida, e com a realidade virtual esse primeiro contato é controlado, sem que se sintam vulneráveis em relação ao julgamento de terceiros. Isso os fortalece, proporcionando um enfrentamento em relação à situação de forma real”, conta.

No último mês, a Oxford VR, empresa britânica de realidade virtual, acumulou mais de 13 milhões de euros para investir na terapia com a tecnologia no futuro. A companhia surgiu a partir do departamento de psiquiatria da Universidade de Oxford, em 2017, sob a premissa de colocar em prática grande parte das soluções propostas para o benefício da saúde, graças à tecnologia da realidade virtual. A aplicação começou a ser estudada também para o tratamento de outras áreas psicológicas, como a ansiedade social e o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

A plataforma desenvolvida pela empresa britânica oferece tratamento automatizado, com direito a eventos simulados que podem desencadear esses problemas, ajudando quem sofre com eles a confrontá-los em um ambiente controlado e seguro.

Fonte: Canaltech

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