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Nas cruzes de Copacabana, um retrato de um país racista e doente

Cruzes e covas rasas no protesto da ONG Rio da Paz, em Copacabana. Foto: Facebook


O Brasil registrou, na quinta-feira (11), 1.261 novas mortes por coronavírus. Em três meses, 41.058 pessoas perderam a vida na pandemia.

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Ainda que subestimado, o número supera as 40.721 mortes registradas no trânsito em todo o ano de 2019 no país, segundo dados da Líder-DPVAT levantados pela Folha de S.Paulo. Supera também o total de vítimas de homicídios dolosos naquele ano (39.776).

Com riscos de contaminação, muitos amigos e familiares não puderam se despedir dos mortos na pandemia. 

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Mas uma multidão pôde voltar aos shoppings no Rio e em São Paulo naquele mesmo dia. 

Como protesto às medidas do poder público no combate à pandemia, cem covas rasas foram abertas na areia da Praia de Copacabana. Ao lado delas voluntários da ONG Rio da Paz montaram cruzes, algumas com a bandeira do Brasil, para lembrar das vítimas da Covid-19.

O ato pareceu ofensivo a um homem branco que caminhava pelo calçadão e derrubou cerca de 20 cruzes do manifesto.

Irritado, ele chamou os manifestantes de “merdas”, disse que o Brasil estava unido, e repetiu, quase ipsis litteris, o que Jair Bolsonaro disse a uma mulher que o criticou na véspera: eles deveriam reclamar com os governadores. Para o revoltoso, aquele era um espaço público e a intervenção apenas criava “pânico”.

Revoltado, um homem negro que acompanhava o protesto recolocou as cruzes em seus lugares. Aos gritos, contava que perdera o filho de filho de 25 anos, saudável até então, por conta da doença. 

“Vocês têm que respeitar a dor das pessoas. O mesmo direito que ele tem de tirar eu tenho de botar”, disse.

Na pandemia da Covid-19, muitos morrem, mas uns morrem mais que outros.

Em São Paulo, segundo a prefeitura local, o risco de morte de pessoas negras por coronavírus era 62% maior em relação a brancos. Questões socioeconômicas, como saneamento básico precário, insegurança alimentar e dificuldade de acesso à assistência médica, são apontadas como itens que aumentam os riscos para essa parcela da população.

Nos bolsões de abandono, as vítimas preferenciais da doença, as que já foram convocadas a pegar transporte público e reassumirem os trabalhos em postos cada vez mais precários, começam a se mobilizar e dar as caras em manifestações, como a de Copacabana, mas sobretudo nos atos da Paulista, nos dois últimos domingos. Esses atos são agora liderados pelo movimento negro. Não por acaso.

Estimulados pelo presidente, que agora ordena invasão a hospitais, muitos querem transformar o direito ao protesto em atos criminosos, literalmente condenáveis.

Ao homem que recolheu as cruzes para homenagear o filho morto, até o direito de chorar a perda foi negado.

Neste país onde o racismo grassa na esteira da pandemia, o luto também é luxo.