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Escolas de SP levam empreendedorismo a crianças a partir de 3 meses

Foto: Getty

Projetos diferentes em diversas escolas privadas de São Paulo tentam levar conceitos do empreendedorismo para crianças de todas as idades, começando com bebês de apenas três meses.

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É o que mostram reportagens da Folha de S.Paulo publicadas no último fim de semana. No Colégio Elvira Brandão, por exemplo, crianças no berçário (que custa R$ 2.165 por mês) já têm aceso ao que a escola chama de “cultura maker”.

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A ideia é estimular a criatividade, permitindo que os bebês manuseiem diferentes materiais e texturas, entre eles argila, areia, tinta e massinha. A partir dos três anos, as crianças começam a fazer suas próprias “construções” com os materiais.

“A possibilidade de concretizar a sua ideia mostra para a criança a potência e a capacidade que ela tem, o que favorece a parte emocional e a autoestima, além de trabalhar o empreendedorismo”, disse Luciana Gama, articuladora pedagógica do Colégio Elvira Brandão, à Folha.

Já no colégio Primetime Child Development, que cobra R$ 6.500 de mensalidade, bebês a partir de três meses e crianças de até quatro anos podem fazer uma “imersão” em mandarim, de olho no crescimento da economia chinesa nos últimos anos.

A rede Maple Bear aplica uma metodologia de ensino canadense que inclui uma imersão em inglês para crianças acima de um ano. Na escola, o contato com o português só vem depois, aos quatro anos.

“Existe hoje uma demanda muito grande por pessoas que sejam críticas e que tenham habilidades como liderança e criatividade. Isso se constrói desde pequeno”, diz Cintia Sant’Anna, diretora acadêmica da Maple Bear.

Em outros colégios, as crianças são levadas a criar as próprias startups. É o que acontece no Centro Educacional Pioneiro, por exemplo, onde um grupo de 96 alunos cuida de todos os aspectos de uma empresa recém-nascida.

A startup dos alunos, focada em sustentabilidade, vende chorume em garrafas e embalagens próprias, produzido a partir de composteiras montadas pela “empresa”. Em dois anos, o grupo formado por crianças de 11 anos arrecadou R$ 1.796 no empreendimento.

O projeto de iniciação ao empreendedorismo do colégio Pioneiro começa no quarto ano do ensino fundamental. Para fazer parte da startup, os alunos passaram até por entrevistas de emprego com a equipe de recursos humanos da escola. As vagas são para presidente, diretores e outros cargos de liderança.

Aulas de empreendedorismo também são oferecidas em diversas escolas privadas da capital paulista, segundo a apuração da Folha. Carolina Peres, da Escola Internacional de Alphaville, uma das pioneiras no campo, diz que o objetivo é preparar os alunos para as constantes mudanças no mercado de trabalho.

“Ser resiliente e criativo faz com que, apesar do futuro ser incerto, o aluno tenha como se garantir para trabalhar em projetos, estudar na faculdade e tomar decisões”, disse a docente à Folha.

Especialistas ouvidos pelo jornal afirmam que é preciso ter cuidado com todo esse investimento em empreendedorismo para crianças jovens demais. É o que afirma Anete Abramowicz, professora titular da área de infância da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

“Precisamos lembrar que uma criança não é só um futuro, ela é o presente e precisa ter aquilo que é mais precioso, e que temos cada vez menos, que é a possibilidade do exercício da infância —uma forma singular e específica na qual a criança aprende a pensar, a viver, a se socializar”, diz.