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Projeto social de Zé Maria na Fundação Casa já teve jogadores famosos e até fuga

Renan Nievola
·8 minuto de leitura
Zé Maria presenteia jovem em ação do projeto social (Arquivo Pessoal)
Zé Maria presenteia jovem em ação do projeto social (Arquivo Pessoal)

Craque dentro das quatro linhas, o ex-lateral direito da seleção brasileira e do Corinthians, Zé Maria, também atua na criação de oportunidades fora de campo. Desde 1999, o ex-jogador é um dos trabalhadores de um projeto social na atual Fundação Casa (antiga Febem), que possibilita que menores infratores reclusos nas unidades tenham a oportunidade de vislumbrar uma nova realidade por meio do futebol.

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O projeto do qual Zé Maria participa permite que jovens que, de alguma forma, infringiram a lei tenham contato com palestras de ídolos do futebol e realizem uma série de atividades esportivas e culturais.

No bate-papo exclusivo com o Yahoo Esportes, Zé Maria conta como começou a participar da iniciativa, como é seu relacionamento com os jovens, quais são alguns dos clubes e entidades parceiras, as últimas novidades relacionadas à ação social, momentos de dificuldade que passou com a tentativa de fuga de adolescentes, e até revela o envolvimento de nomes conhecidos do futebol no projeto e na Fundação Casa.

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Você acredita que a realidade de muitos jovens que vivem em regiões periféricas no Brasil, que muitas vezes têm poucas oportunidades de acesso a condições de estudo, contribui para que eles possam ir para o caminho do crime?

Zé Maria: Sem dúvida nenhuma. Em outras épocas, nós tínhamos espaço para que os jovens fizessem várias atividades, que eram frequentes. Não existia esse problema de drogas. Hoje, infelizmente, com a redução desse espaço, os jovens perderam a liberdade da criatividade pessoal. Eles acabam sendo levados para outros caminhos: das drogas, que geram problemas maiores, eles podem chegar a uma fundação casa para tentar uma recuperação. Eles não tiveram acompanhamento familiar, que é algo muito importante. A maioria deles já vem com vícios e não teve oportunidades para práticas de atividades esportivas de um modo geral.

De onde veio a ideia de você fazer um projeto social com esse tema de reinserção de jovens infratores na sociedade por meio do futebol? Por que esse tema especificamente?

Era uma missão que eu tinha que ter. Aconteceu por acaso. Eu vinha de um projeto do estado, o Escola de Esportes para Jovens Adolescentes, e fui convidado para uma premiação no Tatuapé (bairro da Zona Leste de São Paulo), de um final de ano. Aí, surgiu o convite para que eu visitasse uma unidade e conhecesse as atividades que eles faziam dentro da unidade. Eu fui a uma unidade para fazer um trabalho de bola com os moleques e eles adoraram. Aí, começamos a fazer um trabalho diário. Passou a haver horário específico para fazer atividades esportivas. Começamos a fazer seleções dos jovens dentro do Tatuapé para competições externas. A primeira competição foi no Rio de Janeiro, uma apresentação no Maracanã. Fomos campeões. Depois fizemos a primeira Copa Casa, veio a parceria da Federação e começamos a progredir.

Quantos jovens você ajuda atualmente e quantos ajudou ao longo de todo o projeto?

Só no futebol, nós lidamos, durante todo ano, com aproximadamente mil adolescentes, nas atividades de três a quatro meses até a final do campeonato. Começa em meados de janeiro e vai até maio ou junho. Desde o começo do projeto, se formos levar em consideração todos os esportes (basquete, vôlei, futebol de salão, seguramente mais de 10 mil adolescentes. Alguns viraram jogadores, outros a gente até encontra na rua. Às vezes, você está passando e ouve: “Senhor, não lembra de mim? Eu joguei basquete lá em Limeira”.

Quais as atividades que o projeto social realiza na Fundação Casa com os jovens?

Os jovens podem fazer atividades de todos os segmentos: teatro, dança, apresentações na Fundação, além das atividades esportivas, que são as que concentram um número maior de jovens. Têm várias modalidades: basquete, vôlei, futebol de salão (este último é o carro chefe, ele que puxa as outras atividades). Nos eventos que a gente realiza, sempre há uma expectativa e uma cobrança por parte dos jovens, eles querem saber o que vai ter, se será basquete, vôlei, futebol de salão... Nos eventos, geralmente a gente faz quatro ou cinco atividades durante o ano, e o aproveitamento é muito grande. Eles se divertem muito. Há a possibilidade de eles se envolverem com clubes. A gente os leva para que eles possam ter experiências. Os presidentes dos clubes geralmente nos procuram para saber informações dos atletas da Fundação, se é possível trazer alguns deles para fazer uma experiência nos clubes.

Quais são os temas tratados nas conversas com os jovens? Principalmente com aqueles que se encontram mais resistentes e irritados com a situação de estarem na Fundação Casa.

Quando eu vou conversar com esses jovens, eu aplico a minha vida. Na minha época os pais eram muito mais severos, a gente só tinha a opção de ir para a roça ou de estudar. Eu conto a minha história para eles. Falo que jogava bola na fazenda, alguém me viu e me levou para fazer um teste na Ferroviária, o time da cidade. Falo para eles que é questão de oportunidade, que é a mesma coisa com eles. Eles estão treinando, têm os jogos, as preliminares (onde há muita gente olhando para os jovens).

Você já enfrentou algum caso de um jovem que era mais resistente ao que você falava nas conversas? Já foi enfrentado ou desrespeitado por algum deles? Se isso aconteceu, como lidou com esse fato?

Muito difícil, mas teve uma vez, que foi um episódio não de desrespeito a mim, em que nós fazíamos uma apresentação no Centro Olímpico, e era futebol. Nós estávamos com 18 adolescentes, e três tentaram fuga. Dois deles nós conseguimos segurar e um outro foi embora. Isso foi logo no começo, quando não tínhamos experiência ainda, achávamos que eles seriam bonzinhos sempre. A partir daí, mudamos a postura em relação ao comportamento deles, passamos a estar sempre atentos. Não pode dar moleza. Hoje, saímos de olhos abertos sempre, nos estádios principalmente, que são onde eles se envolvem com torcedores.

Zé Maria conversa com jovens em ação do projeto social (Arquivo Pessoal)
Zé Maria conversa com jovens em ação do projeto social (Arquivo Pessoal)

É verdade que você já citou os casos de Casagrande e Sócrates, jogadores com muita história no Corinthians e que tiveram problemas com drogas lícitas e ilícitas, nas conversas com os jovens?

Deles e de muitos outros, alguns jogadores, inclusive, que foram profissionais e de alto escalão. Têm jogadores que ainda estão em atividade, que se tornaram grandes jogadores, que tiveram passagens pela Fundação. É bom não citar nomes, mas posso falar do Dario, que esteve mais ou menos envolvido, e o esporte o tirou. A gente tem que aproveitar tudo que possa mexer com o brio dele. O Casagrande foi a uma das palestras que aconteceu na Fundação. Ele foi falar sobre drogas e é bem aberto. Eu vivi o momento do começo do problema do Casagrande. Ele expôs abertamente para os adolescentes o que passou, e disse a eles que se eles pudessem não fazer mais isso, seria a melhor coisa que eles poderiam fazer. O Tite também já foi lá dar palestra.

O que você conseguiu de 2017, data em que realizamos a última entrevista, para o Grupo Globo, para cá, com este trabalho de reinserção do menor? Houve algum avanço?

Nós tivemos mudança de direção. Tivemos que refazer calendários. Estamos mais coordenados. Temos uma direção praticamente anual formada antes das competições. Em novembro ou dezembro a gente se reúne, traz professores, eles dão opiniões, criam alguma coisa diferente, propõem coisas que a gente possa fazer. E isso não era feito antes. Anteriormente, sentavam a gerência e os comandados próximos e era feito o direcionamento do calendário. Hoje, nós fazemos contato com todas as unidades e pegamos as melhores direções que eles passam para nós.

O Corinthians tinha uma parceria com o seu projeto. Ainda tem? Se sim, se ainda tiver, como o time alvinegro ajuda o projeto?

Buscamos parcerias a todo momento. Fazemos a confecção do calendário e colocamos algumas unidades e clubes à disposição. O futebol de salão acontece num espaço próximo do Corinthians, um parque olímpico maravilhoso para atividades de salão e basquete, que nós utilizamos. O Corinthians nos cede o ginásio para atividades de futebol de salão, o minicampo para que possamos fazer atividades com as meninas. O Esperia nos proporciona o minicampo e o campo deles para que possamos fazer atividades. E os outros clubes nos cedem os centros de treinamento: Portuguesa, Corinthians e Palmeiras. Nós usamos também os ginásios do Ibirapuera e do Pacaembu. No interior, buscamos clubes que também sempre nos cedem alguma coisa (o Guarani, a Ponte Preta, a Inter de Limeira, o Penapolense, o Botafogo de Ribeirão Preto, o Comercial...).

Existe algum exemplo de jovem que participou do projeto que tenha tido sucesso em algum clube de futebol?

Têm nomes de prestígio que passaram pela Fundação, mas é bom não citar porque é meio complicado para eles. Para nós não, para nós seria até interessante se pudéssemos falar. Mas existem alguns jovens que passaram por Juventus, meninas que participaram por campeonatos internos e depois foram reaproveitadas na Prefeitura, viraram funcionárias.

De uma forma geral, qual você considera que é o papel do esporte na formação educacional e de valores do jovem?

O esporte acrescenta principalmente a disciplina. Acho que, na vida, a disciplina tem que estar em todo lugar. Para o jovem participar dos eventos, ele tem que mudar a postura dentro da unidade, o relacionamento com os funcionários tem que ser bom. Tem muitos caras dentro da Fundação que chegam achando que são os bambambãs e acabam se perdendo. E o esporte muda essa condição. Ele passa a ter que respeitar o preparador físico, o técnico, a funcionária que vai dar água para ele nos treinamentos. Eles mudam o comportamento, ficam mais maleáveis e passam a ouvir mais. O esporte cria disciplina, expectativa e oportunidade para esses jovens.

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