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Programas de crédito e renda podem recompor parte da demanda agregada perdida, diz Copom

Estevão Taiar e Alex Ribeiro

Comitê vê potencial para recuperação "mais rápida" da economia do que a sugerida no cenário base O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central avalia que os programas de crédito e de transferência emergencial de renda do governo têm potencial de recompor “parte significativa” da demanda agregada perdida devido à pandemia do novo coronavírus, provocando uma recuperação "mais rápida" da economia do que a sugerida no cenário base.

“O comitê também ponderou sobre o impacto dos programas de estímulo creditício e de recomposição de renda sobre a demanda agregada”, diz a ata da reunião da semana passada do Copom, divulgada nesta terça-feira.

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“Na avaliação do Comitê, esses programas têm potencial de recompor parte significativa da demanda agregada que seria perdida devido aos efeitos da pandemia”, segue o documento. “Com isso, a recuperação da economia pode ser mais rápida que a sugerida no cenário base.”

Riscos para inflação

Os programas de crédito e renda implantados pelo governo federal para combater os efeitos econômicos da pandemia colocam uma assimetria altista no balanço de riscos para a inflação, reiterou o Copom. Ou seja: as medidas fazem com que as chances de a trajetória da inflação ficar acima do projetado sejam maiores do que as chances de ela ficar abaixo.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil

"Por um lado, o nível de ociosidade pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado", disse o colegiado na ata. "Esse risco se intensifica caso a pandemia se prolongue e provoque aumentos de incerteza e de poupança precaucional e, consequentemente, uma redução da demanda agregada com magnitude ou duração ainda maiores do que as estimadas."

Em sentido oposto, "políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do país de forma prolongada, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco".

Além disso, o colegiado do Banco Central (BC) destaca que os programa de estímulo ao crédito e de recomposição da renda lançados durante a pandemia "podem fazer com que a redução da demanda agregada seja menor do que a estimada, adicionando uma assimetria no balanço de riscos".

"Esse conjunto de fatores implica, potencialmente, uma trajetória para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária", disse o Copom.

Em outro trecho da ata, o comitê reafirma seu compromisso com a meta de inflação, no contexto de queda das expectativas provocada por choque desinflacionário de demanda.

Atividade econômica no ponto mais baixo em abril

Na avaliação do Copom, a atividade econômica atingiu o seu patamar mais baixo em abril, com recuperação parcial nos dois meses seguintes.

"Dados relativos ao segundo trimestre corroboram a perspectiva de forte contração do PIB (Produto Interno Bruto) no período e sugerem que a atividade atingiu o seu menor patamar em abril, havendo recuperação apenas parcial em maio e junho", diz a ata.

O cenário básico do colegiado é de uma "forte queda" do PIB no primeiro semestre, com "recuperação gradual" a partir do terceiro trimestre.

Na ata, os membros também reafirmaram a sua opinião "de que o impacto da pandemia sobre a economia brasileira será desinflacionário e associado a forte aumento do nível de ociosidade dos fatores de produção".

"A elevação abrupta da incerteza sobre a economia deve resultar em aumento da poupança precaucional e consequente redução significativa da demanda agregada", disse.

Ambiente internacional "desafiador"

O Copom afirmou nesta terça-feira que o ambiente internacional segue "desafiador" para a economia brasileira.

"Embora tenha havido alguma moderação na volatilidade dos preços dos ativos, o ambiente internacional segue sendo desafiador para a economia brasileira", afirmou na ata.

Na avaliação do comitê, "a reação dos governos e bancos centrais das principais economias mundiais tem apresentado coordenação e dimensão inéditas, o que tem mitigado parcialmente os impactos econômicos da crise".

Entretanto, ao contrário das outras crises, a atual se espalha para todos os países, acompanhando a pandemia.

"Melhor monitoramento e informação, assim como maior disponibilidade de recursos, permitem que os países desenvolvidos combatam a pandemia com mais intensidade e eficiência que países emergentes", disse. "Com isso, os efeitos sanitários e econômicos da pandemia tornam-se desproporcionalmente maiores nos emergentes, em particular naqueles com menor espaço fiscal, o que tende a ser refletido na aversão ao risco e no fluxo de capital para esses países." Nesse grupo, segundo o Copom, está o Brasil.