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Produção de veículos está sob risco de interrupções, montadoras cancelam salão do automóvel

Por Marcelo Rochabrun

Por Marcelo Rochabrun

SÃO PAULO (Reuters) - As montadoras de veículos no Brasil podem ter de interromper a produção de alguns modelos em abril por falta de peças importadas da China, origem da epidemia de coronavírus que já infectou mais de 100 mil pessoas no mundo, afirmou a associação que representa o setor, Anfavea, nesta sexta-feira.

"Existe um risco de parar a produção em abril? Existe", disse o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, acrescentando que as montadoras estão monitorando as cadeias de suprimentos. A China é o principal fornecedor de autopeças importadas pelo Brasil, com participação de 32% no total vindo do exterior, disse o executivo.

"No pior cenário se parar a produção, também vai recuperar no outro mês. Dá para trabalhar. Não estou colocando como um grande problema, é um problema administrável", disse Moraes

Além do problema de suprimentos, as montadoras no Brasil estão enfrentando outro problema: o câmbio. O real acumula desvalorização de cerca de 16% até agora neste ano, tornando as importações significativamente mais caras.

"Se (o real) continuar fraco, isso significará um custo adicional de 8 bilhões de reais" em 2020, disse Moraes. Ele acrescentou esta cifra representaria um acréscimo de 2.600 reais no custo por carro produzido.

O presidente da Anfavea tinha afirmado em fevereiro que as montadoras brasileiras tinham estoques de peças, com algumas sendo de três a quatro meses. Mas nesta sexta-feira ele fez clara indicação de que pelo menos algumas montadoras vão enfrentar dificuldades em abril.

Moraes, executivo da Mercedes-Benz, afirmou que as montadoras do Brasil estão avaliando alternativas para a cadeia de suprimentos, como trazer peças da China por via aérea em vez de marítima. Outras opções incluem concentrar a produção em modelos com menor dependência de componentes chineses.


SALÃO CANCELADO

Enquanto incorrem em dificuldades na cadeia de suprimentos e aumentos de custos com o câmbio, as montadoras de veículos decidiram cancelar o salão do automóvel de São Paulo, previsto para novembro deste ano.

O presidente da Anfavea afirmou que o evento foi adiado para o próximo ano, podendo até mesmo ser realizado em outra cidade do país, e não em São Paulo. "Está tudo sobre a mesa", disse o executivo ao ser questionado se o evento, realizado há 60 anos na capital paulista, poderia ser realizado fora de São Paulo pela primeira vez.

Segundo Moraes, o custo da organização do salão deste ano é de cerca de 300 milhões de reais. Ele também lembrou que outros salões do automóvel pelo mundo foram cancelados neste ano.


MERCADO

A produção de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus no Brasil em fevereiro subiu 6,5% em relação ao mês anterior, para 204,2 mil unidades, informou a Anfavea mais cedo. Na comparação com fevereiro de 2019, por sua vez, houve declínio de 20,8%, queda justificada pela Anfavea ao efeito calendário do carnaval, que em 2019 aconteceu em março.

Já as vendas de veículos tiveram alta mensal de 3,9%, para 201 mil unidades, mas ante fevereiro do ano passado, o acréscimo foi de apenas 1,2%.

Ainda de acordo com os dados da Anfavea, as exportações de veículos no mês passado somaram 37,7 mil unidades, salto de 83,4% ante janeiro, mas queda de 7% ano a ano.