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Indústria do Brasil tem queda inesperada em fevereiro e interrompe 9 meses de ganhos

Camila Moreira e Rodrigo Viga Gaier
·3 minuto de leitura
Carros novos em estacionamento de fábrica em São Bernardo, SP

Por Camila Moreira e Rodrigo Viga Gaier

SÃO PAULO/RIO DE JANEIRO (Reuters) - A indústria brasileira registrou queda inesperada em fevereiro e interrompeu nove meses de resultados positivos, sob o peso das perdas na produção de veículos automotores e indústrias extrativas, em meio à piora da pandemia de Covid-19 e restrições cada vez mais rigorosas.

A produção da indústria registrou em fevereiro queda de 0,7% na comparação com o mês anterior, contra ganho de 0,4% esperado em pesquisa da Reuters.

O resultado divulgado nesta quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) interrompe nove meses de ganhos, período em que a produção acumulou alta de 41,9%.

O setor está agora 13,6% abaixo do patamar recorde alcançado em maio de 2011 e 2,8% acima do nível pré-pandemia, de fevereiro de 2020.

Na comparação com fevereiro de 2020, a produção teve alta de 0,4%, sexta taxa positiva consecutiva, mas bem abaixo da expectativa de um ganho de 1,5%.

"Nos últimos meses nós já vínhamos observando uma mudança de comportamento nos índices da indústria, que, embora ainda estivessem positivos, já apresentavam uma curva decrescente, demonstrando um arrefecimento", disse o gerente da pesquisa, André Macedo.

"Temos um conjunto de fatores para explicar: recrudescimento da pandemia que traz restrições de mobilidade, de produção e turnos de trabalho. E tem desabastecimento ou encarecimento da produção com custos maiores", completou.

Depois das fortes perdas registradas entre março e abril do ano passado devido às medidas de contenção ao coronavírus, a indústria brasileira entrou em ritmo de recuperação.

Entretanto, esse cenário está agora ameaçado devido ao recrudescimento da pandemia no país, com recordes seguidos de mortes e medidas mais duras de isolamentos adotadas em muitas localidades.

Em fevereiro, o IBGE indicou que as perdas foram disseminadas. As maiores influência negativa no mês foram as atividades de veículos automotores, reboques e carrocerias (-7,2%) e de indústrias extrativas (-4,7%).

"O ramo de veículos vem sendo muito afetado pelo desabastecimento de insumos e matérias-primas. Mesmo assim, a produção de caminhões vem tendo resultados positivos. Porém, a de automóveis e autopeças vem puxando o índice geral para o campo negativo", explicou Macedo.

Entre as grandes categorias econômicas, a maior perda foi registrada por Bens de Consumo Duráveis, de 4,6%. A produção de Bens de Capital caiu 1,5% e a de Bens de Consumo Semiduráveis e não Duráveis recuou 0,3%.

O único sinal positivo foi apresentado por Bens Intermediários, com ganho de 0,6% na produção.

O setor industrial depende agora, também, da melhora do mercado de trabalho, bem como do cenário inflacionário e da retomada do auxílio emergencial, que ajudou na recuperação do setor no ano passado.

"Muitos desempregados e uma inflação mais alta são itens que fazem parte desse cenário que impacta o desempenho da indústria e da economia em geral", André Macedo.

"O cenário para a frente é de restrições e perdas para o ritmo da produção, só não sabemos quanto isso vai alcançar", completou.

A pesquisa Focus mais recente do BC realizada com uma centena de economistas mostra que a expectativa é de uma alta de 5,24% da produção industrial em 2021, com a economia crescendo 3,18%.