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Procura-se batedores de falta - A raridade dos gols de falta no Brasil atualmente

Victor Rocha
·7 minuto de leitura

O Brasil vive sua maior escassez de gols de falta da história. O fato se comprova com o número de gols feitos dessa maneira no Campeonato Brasileiro em sua última edição - apenas 17. Junto com a edição de 2016, nunca o principal torneio nacional teve tão poucos gols neste quesito. Engana-se quem pensa que o gol de bola parada é apenas luxo estético. Grêmio, São Paulo e Santos foram os times com mais gols de falta no Brasileirão 2020, com três cada, e todos eles terminaram o campeonato na parte de cima da tabela (6°, 4° e 8º, respectivamente). O motivo da seca atual é simples e até um pouco óbvio: a falta de treinamento.

Na década de 70, quando o futebol passou a ser mais estudado, um jogador percorria de 4 a 7 quilômetros por jogo. Na Copa do Mundo de 2018, jogadores chegaram a correr 15km em um único jogo. De fato, o futebol se tornou um esporte muito mais físico e intenso. Tal mudança no jogo é apontada como o principal motivo da ausência de treinamentos individuais de faltas diretas para o gol. Mas será que os especialistas da função enxergam dessa forma?

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Marcos Assunção fez muitos gols de falta na carreira. Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images
Marcos Assunção fez muitos gols de falta na carreira. Foto: Buda Mendes/LatinContent via Getty Images

Marcos Assunção, que possui mais de 100 gols de falta na carreira e já chegou a marcar três vezes dessa maneira em uma única partida, considera que os jogadores têm a sua parcela de culpa.

“Eu conhecia bem o meu corpo e não cometia excessos nos treinamentos. Quando sentia que estava um pouco mais cansado, eu não treinava. Alguns treinadores já pediram para eu “segurar” um pouco no treinamento das faltas, mas eu explicava que podia treinar mais e pedia para praticar. Isso pode ser uma arma e decidir jogos, e foi assim durante toda minha carreira. Nunca me lesionei por treinar faltas. Não cheguei a perder um jogo por conta disso. Os jogadores de hoje em dia não buscam esse treinamento. Falta um pouco dos atletas quererem esse rótulo de grande cobrador de falta, de especialista. Hoje, não temos.”, comenta o ex-jogador de Palmeiras e Santos.

Outro autêntico especialista, Zenon, meio-campo histórico do Corinthians nos anos 80 que fez gols de falta em todos os times que atuou na carreira, compartilha de visão parecida com a de Assunção, com o adendo de que também é necessário ter talento para ser um exímio cobrador.

"É a combinação do dom, da aptidão natural, ao treinamento. Tem que ter muita dedicação. Não são todos que têm essa facilidade de bater na bola. Em um elenco, geralmente são dois no máximo que possuem essa facilidade. Os times deveriam pegar esses poucos e estimulá-los a treinar mais para virar mais uma vantagem para a equipe. Mas o temor de lesões por parte dos preparadores físicos atrapalha um pouco para isso acontecer. O jogador que se interessar, por outro lado, precisa ter mais voz ativa. Em quase 20 anos de carreira, me lesionei três ou quatro vezes, treinando faltas praticamente em todos os treinos que participei”, ressalta o ex-camisa 10 corintiano.

De fato, no auge de Zenon, nos anos 80, quando defendeu o Corinthians de 1981 a 1986, sendo bicampeão paulista em 82-83, um clube protagonista do cenário nacional disputava entre 40 e 50 partidas. Atualmente, os times que disputam muitas competições chegam a jogar mais de 80 jogos em uma única temporada. O desgaste físico aumentou e o cuidado dos preparadores físicos não é à toa. No entanto, como em tudo na vida, o equilíbrio é a melhor alternativa. Um ou dois jogadores podem "correr esse risco" e treinar com mais frequência. Assim, as chances de suas equipes fazerem mais gols aumenta consideravelmente.

"Antigamente, os preparadores não interferiam tanto no treino extra que o jogador optava por fazer. O jogador que gostasse de treinar faltas, teria liberdade para isso. Atualmente, o fisiologista tem uma participação muito maior e pede para o jogador evitar ao máximo as lesões e se preservar após o treino em grupo", diz Anderson Lima, ex-lateral-direito que marcou época no Grêmio com mais de 50 gols de falta na carreira.

Anderson Lima pelo Grêmio em 2003. Foto: Jefferson Bernardes/AFP via Getty Images
Anderson Lima pelo Grêmio em 2003. Foto: Jefferson Bernardes/AFP via Getty Images

De acordo com o campeão da Copa do Brasil pelo clube gaúcho em 2001, é fundamental que o atleta busque o aprimoramento por conta própria.

"O jogador tem que querer treinar as faltas. No Santos, eu e o Marcos Assunção chegávamos uma hora antes do treino para treinar faltas. Hoje, é difícil ver isso acontecer em algum clube", aponta.

A fundamental consistência nos treinamentos

“Treinava duas vezes por semana. Nas vésperas de jogos, treinava apenas de 20 a 40 faltas. Se não houvesse jogo no dia seguinte e eu estivesse descansado, chegava a treinar de 70 a 80 faltas no dia. Se o treinador pedir para ir embora descansar, o jogador também pode mostrar um pouco mais de vontade e pedir para treinar faltas. Dizer que está se sentindo bem para isso. Precisa ter mais imposição. Jogadores como Neto, Petkovic, Ronaldinho, Marcelinho, Rogério Ceni e Juninho Pernambucano foram autênticos especialistas. Para chegarem a esse status, eles quiseram muito e se dedicaram. Não sinto os jogadores com essa vontade atualmente”, diz Assunção.

“Eu me dedicava muito. Depois de quase todo treino em minha carreira, eu cobrava cerca de 50 faltas. De várias posições do campo. E olha que tudo melhorou para o atleta. O campo, a bola e a chuteira. A bola de couro, por exemplo, era difícil de fazer uma curva”, salienta Zenon. Ele comenta que a figura do especialista sumiu do cenário do futebol e fala até sobre a falta de concentração para as cobranças de falta atualmente.

"Não existe mais o especialista. Antigamente, cada time tinha um e todos sabiam qual era o de cada clube. Hoje, surge uma falta e chegam 4 ou 5 candidatos para bater. Ficam conversando e decidindo quem vai cobrar. Isso atrapalha brutalmente a concentração. Quando eu chegava para bater uma falta nos times que passei, ninguém se aproximava. Eu tinha como me concentrar e esperar até uns segundos a mais para deixar o goleiro nervoso."

Times de maior torcida no Brasil, Corinthians e Flamengo, que já tiveram especialistas como Marcelinho, Zenon, Zico e Petkovic, amargaram longos jejuns sem um gol de falta. No caso dos cariocas, a ausência ainda persiste, e já são mais de mil dias sem um gol no quesito. O último foi de Diego, em junho de 2018, contra o Paraná. Com o gol de Otero contra o Retrô pela Copa do Brasil deste ano, o alvinegro quebrou a marca negativa de 954 dias sem gols em cobranças de falta.

Para efeito comparativo, o Campeonato Inglês da temporada 2019/20 teve 26 gols de falta, nove a mais que a última edição do Brasileirão. O nacional de 2013 foi o que mais teve gols de tiros livres diretos nos últimos dez anos, quando 46 tentos foram marcados dessa forma.

Gylfi Sigurdsson é um dos grandes batedores de falta da Premier League. Foto: Emma Simpson - Everton FC/Everton FC via Getty Images
Gylfi Sigurdsson é um dos grandes batedores de falta da Premier League. Foto: Emma Simpson - Everton FC/Everton FC via Getty Images

Desenvolvimento técnico na base

“Quando comecei, nas categorias de base, não havia muitos especialistas em cobrar falta. Os primeiros foram eu, o Zico e o Dicá. Antes de mim, por exemplo, tinha o Rivellino, Pelé e Pepe, que cobravam mais na pancada. Se não tem o treinamento desde a base, fica difícil desenvolver essa aptidão depois”, indica Zenon

“O jogador tem que treinar de várias zonas do campo e também procurar variar o estilo nos treinamentos. Tem ocasiões que se pede uma batida mais forte. Em outras, colocada. Eu sabia que poderiam aparecer oportunidades em locais distintos do campo, e eu teria que aproveitar. Hoje, tem a bola de microfibra, sintética, facilita muito a batida e dificulta para o goleiro. Os jogadores poderiam aproveitar melhor isso”, completa o ex-meio-campista.

De acordo com Anderson Lima, que foi assistente técnico de Jorginho Cantinflas (ex-Palmeiras) de times como Athletico Paranaense, Bahia e Portuguesa, as categorias de base atualmente não priorizam a parte técnica.

“Os treinos físicos e táticos dominam a maior parte dos treinamentos da garotada. Alguns fundamentos básicos precisam ser desenvolvidos, como passe longo e curto, chutes a gol, lançamentos e bola parada. Para um futebol de qualidade ser jogado, estes quesitos técnicos precisam ser trabalhados”, conclui.