Mercado fechado

Privatizar ou não? Eleição determina futuro da Petrobras

(Bloomberg) -- A eleição presidencial na próxima semana impõe um desafio aos investidores em Petrobras. À frente nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva tem prometido usar a maior produtora de petróleo da América Latina como um veículo para o desenvolvimento nacional. Já o presidente Jair Bolsonaro diz o exato oposto, com planos de privatizar a estatal.

Os discursos representam um dos raros contrastes neste ciclo eleitoral, em que os candidatos líderes têm dado poucos detalhes sobre as políticas econômicas que serão perseguidas. Também faz com que Petrobras seja um caso binário para os gestores: a empresa tem pago dividendos e já negocia a um desconto para as grandes petroleiras, mas o dinheiro pode secar e a alavancagem pode aumentar se Lula ganhar e cumprir suas promessas.

“A ação é talvez uma das teses mais complexas no Brasil neste momento”, disse Flavio Kac, que gere o fundo Asa Long Biased na ASA Investments. “Uma vitória de Bolsonaro abriria espaço para uma potencial privatização, enquanto um novo governo poderia levar a pressão de margens e lucros menores.”

A Petrobras, que produz 2,7 milhões de barris de óleo e gás por dia, tornou-se uma fonte de discórdia no primeiro debate presidencial. Bolsonaro acusou Lula de má administração da empresa, que foi envolvida em um escândalo épico de corrupção durante a gestão do petista. Já Lula criticou Bolsonaro por “fatiar” a estatal por meio da venda de ativos, bem como pela decisão de privatizar a Eletrobras.

Lula tem um passado conturbado com a Petrobras e a indústria petroleira como um todo. Durante a gestão do petista, entre 2003 e 2010, houve crescimento da produção e a descoberta do pré-sal, que se tornou um centro de lucros para a estatal.

Ao mesmo tempo, ele suspendeu novos contratos no pré-sal para rever impostos e regulações, estrangulando o crescimento na produção. Sem o atraso nos licenciamentos, o Brasil poderia estar bombeando o dobro do que produz hoje, de acordo com analistas. Lula também implementou uma política de conteúdo local que desencorajou investimentos. Se o petista vencer, a indústria local ficará de olho em quem ele recrutará para o Ministério de Minas e Energia para entender quão grande será a mudança de política.

“Lula confiou bastante em pessoas que eram seu braço direito, então quem é essa nova turma?”, diz Schreiner Parker, chefe para América Latina da consultoria Rystad Energy.

Um novo mandato de Lula poderia expandir as refinarias no Brasil e reconstruir as operações internacionais da empresa, disse o senador Jean Paul Prates, pessoa-chave do petista para o setor de óleo e gás, em entrevista. A companhia também se tornaria um player global na transição energética - mesmo que isso signifique menos lucros e dividendos. O foco limitado ao pré-sal tem impulsionado os lucros no curto prazo, mas deixa a empresa exposta às mudanças na indústria nas próximas décadas, diz ele.

“Se tornou uma grande vaca leiteira, mas não vai durar”, disse Prates. “É caminhar vendado num penhasco”.

Enquanto Lula viveu um rali massivo em seus oito anos de mandato, alimentado por um superciclo de commodities, seu legado foi manchado por políticas equivocadas feitas por sua sucessora e pela operação Lava-Jato. A investigação, centrada na Petrobras, o colocou na cadeia por um ano e meio. Ainda que as condenações tenham sido rejeitadas pelo Supremo Tribunal Federal, há resistências em relação ao petista. No primeiro debate presidencial, Bolsonaro classificou o governo de Lula como “o mais corrupto da história”.

Exploração

Certamente o Brasil não irá parar de produzir óleo independentemente do resultado das urnas. Ambos os candidatos são favoráveis à extração de petróleo, diferentemente do recém-eleito presidente colombiano Gustavo Petro, que planeja banir a exploração por preocupações ambientais. Além disso, a descoberta de óleo pela estatais neste século foi tão grande que a produção continuará a crescer quem quer que vença.

“A Petrobras continuará a ser uma gigante”, disse Luiz Felipe Coutinho, CEO da Origem Energia, que comprou campos de gás natural onshore da Petrobras e considera a empresa sua maior parceira comercial.

Outro ponto que não sairá do radar é o risco de a Petrobras subsidiar combustíveis. Lula atacou Bolsonaro pelo preço alto da gasolina, uma grande reclamação dos brasileiros neste ano. Bolsonaro respondeu atacando a liderança da Petrobras e, depois, cortando impostos.

“No fim do dia, não é realmente uma empresa privada. Tem um quadro diferente de investidores que entendem o aspecto quase-soberano”, disse Wilbur Matthews, fundador da Vaquero Global Investment LP, que chegou a ter títulos da Petrobras no passado mas avalia que os preços estão muito altos no momento. “Você não compra ações da Petrobras ou títulos porque você ama a dinâmica corporativa da empresa.”

More stories like this are available on bloomberg.com

©2022 Bloomberg L.P.