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A primeira foto do lado afastado da Lua foi tirada pelos soviéticos há 60 anos

Felipe Junqueira

A primeira fotografia feita pela humanidade registrando o lado afastado da Lua completou 60 anos recentemente, em outubro deste ano. Isso mesmo: em 1959 a União Soviética conseguiu fazer o primeiro registro do hemisfério do satélite natural que nunca podemos ver daqui da Terra — e que, ao contrário do que muita gente acredita, não é escuro.

A foto foi tirada pela espaçonave Luna 3, que saiu da superfície terrestre apenas um mês depois de a Luna 2 ser a primeira construção da humanidade a ir para a Lua. Por sua vez, esta seguiu a Luna 1, primeiro objeto artificial a escapar da órbita terrestre. Sim, os soviéticos estavam vencendo a corrida espacial naquela época.

Luna 3 tirou a foto, revelou e enviou para a Terra por ondas de rádio (Foto: Luna 3)

Nos tempos atuais, em que temos smartphones que cabem no bolso capazes de tirar fotos da Lua sem esforço, pode não parecer algo tão surpreendente ver a imagem de baixíssima qualidade acima, registrada pelos soviéticos. Contudo, vale lembrar que isso foi feito em 1959, antes mesmo de a NASA levar astronautas à superfície lunar, e com uma tecnologia bastante rudimentar.

Dificultades técnicas

Primeiro, temos que lembrar que, 60 anos atrás, não era tão simples assim tirar uma foto até mesmo aqui na Terra — imagina no espaço. O astrônomo Kevin Hainline fez uma série de postagens em seu Twitter (em inglês) para contar a história.


Para além dos desafios de mandar uma espaçonave até o outro lado da Lua, havia obstáculos para registrar a foto e mandá-la de volta. Lembrando que, com o equipamento daquela época, a estabilização em três eixos era mais complicada, ainda mais em pleno voo espacial. Os soviéticos ainda precisaram dar um jeito de fazer a captura remotamente.

“Primeiro, Luna 3 foi a primeira espaçonave com estabilização em três eixos, precisou chegar até a Lua para tirar as fotos, e teve que usar uma pequena célula fotoelétrica para se orientar em direção à Lua para que, aí, enquanto estivesse estabilizada, pudesse tirar as fotos. E conseguiu. Em papel fotográfico”, resumiu Hainline.

A Luna 3 ainda tinha uma espécie de laboratório fotográfico em seu interior, que revelou a imagem e, com outro mecanismo, “tipo uma TV antiga”, captou o brilho da imagem e o transformou em ondas elétricas. Essas foram as informações que voltaram para a Terra. “Mas não tinha potência suficiente, então Luna 3 teve que voltar para a órbita terrestre, sendo a primeira espaçonave a fazer o caminho de volta”, contou o astrônomo.

Informações via rádio

E aí é Alan Bellows, no projeto Damn Interesting, quem explica melhor esse processo de recuperação das imagens. Segundo ele, a Luna 3 enviou uma espécie de “fax por meio de rádio”. “Isso permitiu que os cientistas soviéticos recuperassem um quadro fotográfico a cada 30 minutos, mais ou menos. Devido à distância e o sinal fraco, as primeiras imagens recebidas não continham nada além de estática”, descreveu Bellows, que segue.

“Nos dias seguintes, um disco branco indistinto e manchado começou a aparecer no papel térmico impresso nas estações soviéticas”. Mas foi apenas onze dias depois de as fotos terem sido tiradas que alguma coisa realmente aproveitável apareceu, revelando “alguns detalhes e contornos do lado oculto da Lua”.

Há relatos que contam 12 e outros que falam em 17 o número de fotografias recuperadas com sucesso. A sonda parou de responder seis dias depois das primeiras impressões que realmente mostraram alguma coisa, mas conseguiu ótimas imagens tanto do satélite natural por inteiro, como em closes para detectar mais detalhes.

Em 1964, os americanos conseguiram registros próprios do lado afastado da Lua, e aí já aproveitando equipamentos tecnicamente melhores. Recentemente, a sonda chinesa Chang’e-4 pousou nessa região lunar que não enxergamos aqui da Terra, e já enviou fotos da superfície. A missão continua em andamento e, graças a ela, a ciência vem aprendendo muito mais coisas sobre o hemisfério lunar mais misterioso.

Fonte: Canaltech

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