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Por que os discursos de Camila e Lurdes em 'Amor de Mãe' são tão necessários?

Camila e Lurdes na cena de Amor De Mãe que foi ao ar na segunda (13) (Foto: Reprodução)

A novela "Amor de Mãe", da Globo, segue emocionando - e muito - o público. Isso porque o episódio que foi ao ar na noite de segunda-feira (13), contou com um diálogo entre Lurdes (interpretada por Jessica Ellen) e Camila (papel de Regina Casé) que deixou os espectadores aos prantos. 

Na cena, que durou quase cinco minutos, a professora desabafou sobre os problemas que enfrenta diariamente para a mãe e questionou a ideia de "mulher guerreira". "Eu vou sempre ter que ser forte?", começa ela, deitada na cama de hospital depois de levar um tiro. 

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"Eu tenho que ser forte porque a gente é pobre e eu quero estudar", continua. "Eu tenho que ser forte porque eu sou mulher e pra mulher tudo é mais difícil. Tem que aguentar sempre um babaca olhando pro meu peito ao invés de prestar atenção no que eu tenho a dizer. Eu tenho que ser forte porque eu sou preta e a gente vive num país racista. Eu tenho que ser forte porque eu sou professora, porque eu tentei ajudar meus alunos e levei um tiro. Eu estou cansada, mãe! Eu estou cansada de ser forte, mãe. Eu não vou poder ser fraca nenhum dia?”

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O que emocionou, claro, é a realidade do discurso de Lurdes. No Brasil, vale lembrar que mais de 50% da população é negra e, também, mais de 50% é composta por mulheres. Infelizmente, já tivemos mais de um exemplo de como a disparidade de gênero e raça funciona por aqui - isso significa que vivemos em um lugar onde ser mulher e negra é uma dificuldade ainda maior e cria um imaginário de que mulheres que se sobressaem a essa realidade são dignas de admiração. 

Não que isso não seja verdade, mas nesse caso, vale sempre lembrar de alguns números: em 2017, foram registrados no Brasil pelo Ministério da Saúde 4.936 assassinatos de mulheres (os dados são do Atlas da Violência daquele ano). Dessas, 66% eram mulheres negras. Aliás, esse número representa um aumento de 20% no número de mortes de mulheres por aqui entre 2007 e 2017. 

Outro ponto: na pesquisa feita pelo IBGE no ano passado, ficou registrado que a desigualdade social aumentou no país. Em média, 40% de toda renda gerada no Brasil fica nas mãos de 10% da população. As mulheres recebem salários 20% menores do que os homens, e aqueles que não completaram o Ensino Fundamental por algum motivo - muitas vezes, é para trabalhar e ajudar a família -, ganham pouco mais de R$ 1.200 reais por mês. Ah, e essa é a realidade de metade dos brasileiros. 

A cena seguiu emocionando, não só pela atuação de Jessica, mas também pela resposta de Camila: 

"Tu vai ter que ser forte", disse ela. "Tu não pode fraquejar. Ainda não dá pra ser fraca. Nesse mundo que a gente vive, não dá. Eu não aguento isso: tudo você tem que ser a melhor, passar em primeiro lugar. Isso me dá raiva. Por que tem quer ser assim? Mas é assim. A gente tem que continuar assim, aproveitando cada chance da vida. Por que tem que estar o tempo todo assim? Porque a gente não é gente, não; a gente é sobrevivente. Ainda mais pra nós, pra mulher, é muito mais difícil. Ainda mais tu, da tua cor. Como eu queria que ninguém te julgasse pela cor da tua pele. Mas ainda não dá. A gente tem que continuar empurrando o mundo, mesmo ele sendo muito pesado... Empurrando para ele mudar. Tu virou uma professora. Tá educando um monte de menino. Pra mudar o mundo. E se a gente for bem forte, a filha desse aí que tá na sua barriga vai poder fraquejar. Por enquanto não dá, não, filha."

Impossível não levar para si os questionamentos levantados pelas duas e fazer um paralelo com a realidade em que vivemos hoje. Em pleno 2020, ainda vemos um Oscar sem representatividade, pessoas sendo julgadas pela sua orientação sexual e as menos favorecidas sendo marginalizadas e mantidas à margem para o sucesso de poucos. 

De fato, impossível não se emocionar com uma conversa que retrata tão bem a forma que a maioria dos brasileiros vive - e que vai continuar vivendo se, enfim, não buscarmos executar mudanças sérias na maneira como nos relacionamos e como lidamos com questões como o machismo e o racismo, tão intrincado na nossa cultura.