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Por que perder o posto de 2ª maior para a Xiaomi não preocupa (muito) a Apple

·7 minuto de leitura

E lá vamos nós de novo...na última sexta-feira (16), a consultoria de mercado Canalys anunciou que a Xiaomi ultrapassou a Apple no cenário global, tornando-se a segunda maior fabricante de smartphones do mundo. Em outubro do ano passado, a empresa chinesa já havia tirado a Maçã da terceira colocação, quando a Huawei ainda estava na vice-liderança.

Agora, com a Huawei fora do pódio - muito por causa das restrições dos EUA - a Xiaomi se consolida como a segunda maior globalmente, atrás apenas da Samsung. Vale lembrar que os números apresentados pela Canalys são referentes ao segundo trimestre deste ano e as posições podem mudar nos próximos meses.

De qualquer forma, os dados da consultoria indicam que a Xiaomi cresceu consideravelmente nos últimos três meses, mais precisamente 83%, contra apenas 1% da Apple. Com isso, a participação de mercado da fabricante chinesa saltou para 17%, contra 14% da Maçã. A Samsung continua na liderança com 19%, enquanto OPPO e Vivo, ambas com 10%, completam o Top 5.

Xiaomi é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, ultrapassando a Apple (Imagem: Canalys)
Xiaomi é a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, ultrapassando a Apple (Imagem: Canalys)

De acordo com Ben Stanton, gerente de pesquisa da Canalys, as remessas de smartphones da Xiaomi aumentaram mais de 300% na América Latina, 150% na África e 50% na Europa Ocidental. Além disso, os modelos da marca ainda estão bastante voltados para o mercado de massa. Em comparação com a Samsung e a Apple, seu preço médio de venda é cerca de 40% e 75% mais barato, respectivamente.

Tal notícia fez com que os fanáticos fãs da Xiaomi ganhassem o dia. Afinal, junto com a Samsung, os "Xiaominions" fomentam uma rivalidade pesada contra a Apple e seus - igualmente fervorosos - "fanboys". No entanto, tirando esse "Fla x Flu" bizarro entre os usuários das marcas, é importante olhar os números de forma mais fria. E nesse quesito, que é o que realmente importa para executivos e acionistas, a Apple não tem muito com o que se preocupar em relação ao crescimento da Xiaomi. Pelo menos por enquanto.

E nas próximas linhas nós explicamos o porquê.

Domínio absoluto na margem de lucro

Ainda que o crescimento de apenas 1% da Apple no último trimestre signifique menos aparelhos vendidos, a empresa continua nadando de braçada quando falamos em um dos dados mais importantes em um balanço financeiro: a margem de lucro. E nesse quesito, a dona do iPhone nada de braçada no mercado de smartphones há muitos anos.

Para você ter uma ideia do domínio da empresa, uma pesquisa da consultoria Strategy Analytics, divulgada em novembro do ano passado, apontou que a Apple ficou com mais de 60,5% da margem de lucro gerada pelos smartphones em todo mundo. Sim, é isso mesmo: a linha de celulares da companhia abocanha mais metade de todo o lucro do setor. E a coisa já foi pior: em 2018, ela abocanhou 77,9% dos lucros mundiais e 75% em 2019. A Samsung vem em um distante segundo lugar, com 32,6% dos lucros - ainda que ela tenha registrado o maior crescimento nesse quesito em seis anos.

Os iPhones garantem a Apple mais da metade dos lucros do mercado de smartphones no mundo (Imagem: Counterpoint Research)
Os iPhones garantem a Apple mais da metade dos lucros do mercado de smartphones no mundo (Imagem: Counterpoint Research)


Resumindo: Apple e Samsung tem 93,1% do lucro mundial de todo mercado de smartphones. As demais fabricantes precisam brigar para dividir os 6,9% restantes.

Estratégia simples e eficiente — e um desafio para a Xiaomi

O domínio da Apple nesse setor vem de uma receita muito simples: ela aplica uma estratégia de produtos Premium para todos os seus iPhones, com poucos modelos lançados por ano e todos custando mais que os seus rivais por nicho, mesmo aparelhos lançados dois, três anos atrás.

Mesmo o iPhone mais básico, por exemplo, custa muito mais do que um celular da categoria intermediário Premium de outras marcas - e isso inclui até mesmo iPhones de anos anteriores. Com isso, a empresa garante uma margem de lucro generosa por unidade vendida. Sem contar que ela conta com mercados bastante fieis na América do Norte (EUA e Canadá), Europa, Japão e até uma parte da China. Ou seja, seus usuários dificilmente migram para o Android e não hesitam em comprar os modelos mais recentes.

E ao olhar o gráfico abaixo dá para entender melhor o cenário. O levantamento feito pela Counterpoint Research mostra que os iPhones dominaram a lista de modelos mais vendidos no primeiro trimestre de 2021, tanto em volume, quanto em valor - no período, as receitas ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões. Com isso, a Apple deve continuar dominando a margem de lucro mundial do setor, mesmo com o crescimento acelerado da Xiaomi no segundo tri deste ano.

Os iPhones continuaram a dominar as vendas no começo do ano (Gráfico: Counterpoint Research)
Os iPhones continuaram a dominar as vendas no começo do ano (Gráfico: Counterpoint Research)


Por isso, mesmo com o crescimento acelerado em 2021, a Xiaomi tem um desafio dos mais urgentes: ela precisa aumentar as vendas de seus dispositivos topo de linha, como o Mi 11 Ultra. Isso porque é nessa categoria que residem as maiores margens de lucro para as fabricantes, sendo que modelos intermediários e de entrada têm uma margem bastante apertada tanto para quem produz, quanto para quem revende (no caso, as varejistas). Menos mal é que, no primeiro trimestre deste ano, a fabricante anunciou que comercializou quatro milhões de dispositivos considerados Premium mundo afora.

Mas, de qualquer forma, vale a máxima: não adianta vender milhões de smartphones 3B (Bons, Bonitos e Baratos), se eles pouco impactam aquela coluna da planilha que mostra quanto dinheiro entrou, de fato, no caixa da empresa - e que resulta em dividendos para os seus acionistas.

Apps e serviços online são a nova fonte de lucro da — já hiperlucrativa — Apple

Por fim, além da margem de lucro obscena com os seus smartphones, a Apple vem conseguindo cumprir com sucesso uma missão espinhosa: diminuir a sua dependência de um único produto, no caso, o iPhone, que já chegou a ser responsável por 62% das receitas da empresa.

Para isso, a empresa vem apostando forte na sua chamada área de serviços - o ecossistema que engloba o iCloud (armazenamento na nuvem), Apple TV+ (filmes e séries), Apple Music (músicas), Apple Arcade (games), além da venda de apps e softwares dentro da Apple. E a estratégia vem dando certo, já que o setor vem apresentando números cada vez melhores.

No último trimestre deste ano, a Maçã reportou que o segmento de serviços teve receita de US$ 16,9 bilhões, mais de US$ 1 bilhão acima do previsto pelo mercado - que esperava US$ 15,65 bilhões. Esse valor equivale a 18,8% do faturamento total da companhia no período.

Para completar, a categoria vem crescendo gradualmente e de forma sólida. No terceiro trimestre de 2020, a receita da área de serviços foi de US$ 14,5 bilhões; já no quarto trimestre o faturamento aumentou 8,27%, pulando para US$ 15,7 bilhões. E nos primeiros três meses desse ano, o crescimento foi de 7,64%. Ou seja, entre as Big Techs, a Apple, aos poucos, vem conseguindo diversificar as suas receitas, até esperando uma diminuição nas vendas de iPhones nos próximos anos. A empresa ainda não conseguiu atingir um equilíbrio, como a Microsoft, mas também não está mais como o Google, que é excessivamente dependente do setor de publicidade online.

Mas a Xiaomi também tem seus caminhos

A Xiaomi, por sua vez, não pode contar tanto com o setor de serviços, que é de domínio do Google e sua Play Store. Mas a empresa consegue ser mais diversificada em outras linhas de produtos. Ela é, por exemplo, a marca de smart TVs mais vendida na China por nove trimestres seguidos, além de ser a quinta maior vendedora do mundo.

A fabricante tem também uma forte linha de dispositivos inteligentes, com mais de 350 milhões itens do gênero comercializados e conectados a sua plataforma de AIoT. Isso sem contar outros produtos como bicicletas elétricas, notebooks, purificadores de ar, Mi Box, scooters elétricas e outros itens que tem sua popularidade em território chinês e outras partes do mundo.

Loja da Xiaomi em São Paulo: vasta linha de produtos (Imagem: divulgação)
Loja da Xiaomi em São Paulo: vasta linha de produtos (Imagem: divulgação)

Em resumo, a Xiaomi tem pela frente o mesmo desafio que muitas startups, fintechs e empresas de varejo, que apostaram no crescimento acelerado, estão enfrentando: elas já garantiam uma base maciça de usuários. Agora é descobrir como lucrar em cima desses consumidores conquistados e continuar crescendo em um mercado cada vez mais disputado.

A Apple já aprendeu como se faz. A Xiaomi conseguirá?

Fontes: Canalys, Counterpoint Researcch (1), (2), Pulse, Xiaomi

Fonte: Canaltech

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