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Por que Nosferatu é o filme ilegal mais famoso da história do cinema?

Claudio Yuge
·4 minuto de leitura

Não precisa ser cinéfilo ou fã número um de vampiros para reconhecer a figura corcunda e careca, com orelhas pontudas, unhas enormes e dentes afiados. Nosferatu, ícone do expressionismo alemão do diretor Friedrich Wilhelm Murnau, inspirou diversas outras caracterizações de chupadores de sangues e o Conde Orlock se tornou uma referência no cinema de terror — veja bem, ele até mesmo aparece em um dos episódios da animação Bob Esponja.

E você sabia que Nosferatu é, até hoje, o mais famoso filme ilegal da história da Sétima Arte? Sim, embora o longa tenha sido fundamental para inspirar tanto o expressionismo com o cinema de terror a partir de seu lançamento, no início dos anos 1920, tecnicamente ele não deveria nem ter sido distribuído. E mais: continua um “fora da lei” até os dias atuais. Mas por quê?

Bem, toda a questão legal gira em torno dos direitos autorais de Drácula, de Bram Stoker, lendário romance o qual Nosferatu foi inspirado. O livro de Stoker chegou ao público em 1897 e, quando o filme foi exibido pela primeira vez, em 1922, a publicação já fazia parte do espólio da família do autor, que morreu em 1912.

Como o filme saiu do papel?

O produtor e designer do filme, o alemão Albin Grau, foi soldado na Primeira Guerra Mundial e, enquanto esteve na Sérvia, apaixonou-se pela tradição de histórias de vampiros. Ao retornar para a Alemanha, ele criou uma empresa chamada Prana Film. Logo contratou o roteirista Henrik Green e o diretor Murnau para adaptar Drácula, de Bram Stoker.

<em>Imagem: Reprodução/The Literary Edit</em>
Imagem: Reprodução/The Literary Edit

Como dito, Stoker morreu em 1912, mas sua viúva, Florence, herdou seus bens e se recusou em vender os direitos do romance. Embora o livro já tivesse chegado ao domínio público nos Estados Unidos, onde podia ser reproduzido gratuitamente devido a um erro em seu cadastro de propriedade intelectual em solo ianque, na Alemanha era preciso pagar para utilizá-lo em uma adaptação. Drácula só entraria oficialmente em domínio público 50 anos após a morte de Stoker, em 1962.

Apesar dessas restrições, Grau, Green e Murnau insistiram na adaptação. Eles mudaram o nome para Nosferatu, e o vampiro titular se tornou o Conde Orlock. Jonathan Harker foi rebatizado para Thomas Hutter, Mina Harker tornou-se Ellen Hutter e Abraham Van Helsing virou Professor Bulwer. O enredo básico de Drácula e Nosferatu é semelhante: um homem faz uma viagem de negócios para um atmosférico e vampírico castelo, onde o chupador de sangue quer seduzir sua noiva. Os cineastas ainda acrescentaram alguns elementos para mudar um pouco a obra original e, claro, disfarçar a inspiração, como a ideia de que a luz do sol mata os vampiros.

<em>Imagem: Reprodução/Prana Film</em>
Imagem: Reprodução/Prana Film

Mas esses esforços para diferenciar o filme do material original não foram suficientes para evitar um processo judicial. Florence Stoker descobriu Nosferatu durante a estreia no Jardim Zoológico de Berlim, em 1922. Nas primeiras versões do longa, o nome "Drácula" era usado em sua divulgação, tornando o plágio ainda mais óbvio. A viúva entrou prontamente com uma ação sobre violação de direitos autorais, com exigências de que a propriedade fosse compensada pelos responsáveis e todas as cópias do título destruídas.

E, claro, sabemos que Nosferatu continua “vivo” por aí até hoje.

O que aconteceu desde então?

Logo durante o início do processo, a produtora Prana Film declarou falência e fechou as portas. Em 1925, Florence Stoker ganhou o caso e o juiz responsável pela sentença ordenou que todos os negativos e impressões de Nosferatu fossem enviados a ela e destruídos. Entretanto, algumas cópias sobreviveram a esse processo e chegaram aos Estados Unidos no final dos anos 1920.

<em>Imagem: Reprodução/Prana Film</em>
Imagem: Reprodução/Prana Film

Como Drácula era de domínio público nos Estados Unidos, esse material não precisou ser destruído; e não somente foi reproduzido como pôde ser exibido sem restrições. Ao longo do tempo, conforme o culto em torno de vampiros, do expressionismo alemão e do próprio filme, aumentou, mais cópias apareciam no mercado.

E, assim, Nosferatu foi se “reproduzindo” ao longo das décadas. E, sem uma resolução sobre o erro no cadastro inicial nos Estados Unidos e a falta de cumprimento da ordem completa da condenação na Alemanha, o título deve chegar aos 100 anos, em 2022, ainda como o mais famoso filme ilegal da história do cinema.

Fonte: Canaltech

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