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'Por que foi bom negócio dar aumento para todos e reduzir meu salário em US$ 1 milhão por ano'

Stephanie Hegarty - BBC
Empresário aumentou salário mínimo anual de todos os funcionários para R$ 315 mil

Em 2015, o chefe de uma empresa de pagamentos com cartão localizada em Seattle implementou um salário mínimo anual de US$ 70 mil (R$ 315 mil) para todos os seus 120 funcionários — e cortou US$ 1 milhão (R$ 4,5 milhões) do próprio pagamento. Cinco anos depois, ele mantém o mesmo patamar de salário mínimo e diz que a aposta valeu a pena.

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Dan Price estava caminhando com a amiga Valerie nas montanhas Cascade, perto de Seattle, quando ouviu uma revelação desagradável.

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Enquanto caminhavam, Valerie lhe confidenciou que sua vida estava um caos, que o dono do imóvel onde morava tinha aumentado o valor mensal do aluguel em US$ 200 (R$ 900) e que ela estava sofrendo para pagar as contas.

Price ficou irritado. A ex-namorada Valerie serviu 11 anos nas Forças Armadas, com duas passagens pelo Iraque e agora é obrigada a trabalhar 50 horas por semana em dois empregos para sobreviver.

"As palavras trabalho, honra e dedicação definem a pessoa que ela é", diz ele.

Mesmo ganhando cerca de US$ 40 mil (R$ 180 mil) por ano em Seattle, não era suficiente para comprar uma casa adequada. Ele estava irritada por viver em um mundo tão desigual. E, de repente, ele se deu conta de que fazia parte do problema.

Aos 31 anos, Price já era milionário. Sua empresa, a Gravity Payments, que ele fundou na adolescência, tinha cerca de 2 mil clientes e um valor estimado em milhões de dólares. Na época, ele ganhava US$ 1,1 milhão (R$ 4,95 milhões) por ano, e Valerie revelou para ele o drama de muitos de seus funcionários. Foi quando ele decidiu iniciar uma cruzada contra a desigualdade nos EUA.

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Criado na zona rural de Idaho, Dan Price é um otimista, generoso com seus elogios e impecavelmente educado.

"As pessoas estão passando fome, sendo demitidas ou exploradas para que alguém possa comprar uma cobertura no topo de uma torre em Nova York com cadeiras douradas."

"Estamos glorificando a ganância o tempo todo como sociedade em nossa cultura. E, você sabe, a lista da Forbes é o pior exemplo: 'Bill Gates passou Jeff Bezos como o homem mais rico.' E daí!?"

Antes de 1995, a metade mais pobre da população dos Estados Unidos ganhava uma parcela maior da riqueza nacional do que o 1% mais rico, ressalta. Mas, naquele ano, o jogo virou — o 1% de cima passou a ganhar mais do que os 50% mais pobres. E essa diferença continua crescendo.

Dan Price reduziu o próprio salário em mais de US$ 1 milhão por ano

Em 1965, CEOs americanos ganhavam 20 vezes mais do que a média dos trabalhadores, mas em 2015 a proporção saltou para 300 vezes (no Reino Unido, os chefes das empresas FTSE 100 — as principais companhias listadas na bolsa de valores da Grã-Bretanha — ganham hoje 117 vezes mais que a média de seus funcionários).

Respirando o ar fresco da montanha enquanto caminhava com Valerie, Price teve uma ideia. Ele havia lido um estudo dos economistas Daniel Kahneman e Angus Deaton, vencedores do prêmio Nobel, analisando quanto dinheiro um americano precisa para ser feliz. Ele prometeu imediatamente a Valerie que aumentaria significativamente o salário mínimo na Gravity.

Depois de analisar os números, ele chegou a US$ 70 mil (R$ 315 mil) por ano. Ele percebeu que não apenas teria que cortar seu próprio salário para chegar a esse número, mas também hipotecar suas duas casas e abrir mão de suas ações e economias. Ele reuniu sua equipe e deu-lhes a notícia.

A expectativa dele era de que fossem comemorar, mas a princípio o anúncio gerou uma espécie de anti-clímax, diz Price. Ele teve que repetir a notícia até que a dimensão do que dizia fosse entendida por todos.

Cinco anos depois, Dan ri do fato de ter ignorado um ponto-chave na pesquisa dos professores de Princeton. A quantia que estimavam que as pessoas precisavam para ser felizes era, na verdade, de US$ 75 mil (R$ 337,5 mil).

Ainda assim, um terço dos que trabalhavam na empresa tiveram seus salários dobrados imediatamente.

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Desde então, a Gravity se transformou.

O número de funcionários dobrou e o valor dos pagamentos que a empresa realiza anualmente saltou de US$ 3,8 bilhões (R$ 17,1 bilhões) para US$ 10,2 bilhões (R$ 45,9 bilhões).

Mas existem outras métricas das quais Price se orgulha mais.

"Antes do salário anual de US$ 70 mil, tínhamos entre zero e dois bebês por ano na equipe", diz ele.

"Desde o anúncio — e passaram-se apenas quatro anos e meio — tivemos mais de 40 bebês".

Dan Price com a mãe dele na frente da sede da Gravity

Mais de 10% da empresa conseguiu comprar sua própria casa, em uma das cidades com aluguéis mais caross dos EUA. Antes, esse número era inferior a 1%.

"Havia um pouco de preocupação em quem enxergava de fora de que as pessoas desperdiçariam quaisquer ganhos extras que teriam. E realmente vimos o contrário", diz Price.

A quantidade de dinheiro que os funcionários voluntariamente investem em seus próprios fundos de pensão mais do que dobrou e 70% dos funcionários dizem ter quitado dívidas.

Mas Price recebeu muitas críticas, ao lado de centenas de cartas de apoio e capas de revistas com o rótulo de "o melhor chefe da América". Muitos dos clientes da Gravity escreveram cartas de próprio punho dizendo que consideravam uma ação política.

Na época, a cidade de Seattle debatia um aumento de US$ 15 (R$ 67,5) para o salário mínimo, o que já o tornaria o mais alto dos EUA na época. Os proprietários de pequenas empresas lutavam contra isso, alegando que iriam fechar o negócio.

O radialista de direita, Rush Limbaugh, a quem Price ouvia todos os dias em sua infância, o chamou de comunista.

"Espero que esta empresa seja um estudo de caso em programas de MBA sobre como o socialismo não funciona, porque vai falhar", disse ele.

Dois altos funcionários da Gravity pediram demissão, em protesto. Eles não concordavam com o aumento dos salários dos funcionários em início de carreira da noite para o dia e argumentaram que isso os tornaria preguiçosos e a empresa não competitiva.

Nada disso aconteceu.

Rosita Barlow , diretora de vendas da Gravity, diz que funcionários iniciantes ganharam mais experiência com a mudança

Rosita Barlow, diretora de vendas da Gravity, diz que, desde que os salários subiram, os colegas mais jovens ganharam mais bagagem.

"Quando o dinheiro não é a principal preocupação na sua cabeça de quem trabalha, é mais fácil ser apaixonado pelo que te motiva", diz ela.

A chefia da equipe percebeu uma redução na carga de trabalho. Sob menos pressão, podem até tirar todas as férias a que têm direito.

Price conta a história de um funcionário que trabalha no call center da Gravity.

"Ele levava mais de uma hora e meia por dia para ir trabalhar", diz ele. "Tinha medo de que durante a viagem, um pneu estourasse, e ele não teria dinheiro suficiente para consertá-lo. Vivia estressado com isso todos os dias."

Quando o salário dele subiu para US$ 70 mil, o homem se mudou para mais perto do escritório e agora investe mais dinheiro em sua saúde, faz exercícios todos os dias e come de forma mais saudável.

"Tínhamos outro rapaz na equipe que perdeu mais de 22 kg", diz ele. Outros relatam passar mais tempo com suas famílias ou ajudar os pais a pagar dívidas."

"Vimos todos os dias os efeitos de dar liberdade a alguém", diz Price.

Ele acha que é por isso que a Gravity está ganhando mais dinheiro do que nunca.

Aumentar os salários não mudou a motivação das pessoas — ele diz que os funcionários já estavam motivados a trabalhar duro —, mas aumentou o que ele chama de capacidade.

"A pessoa não pensa mais que tem que ir trabalhar para ganhar dinheiro", concorda Rosita Barlow. "Agora, a questão passa ser: 'como posso fazer um bom trabalho?'"

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Barlow está na Gravity desde os primeiros dias e sabe que Price nem sempre foi tão generoso.

Ela reconhece que houve um período após a crise financeira de 2008 em que ele estava obcecado em economizar.

A desaceleração da economia americana derrubou clientes da Gravity e sua receita caiu 20%. Pela lógica de negócios do setor, Price deveria manter cerca de 12 dos 35 funcionários da empresa, mas ele se concentrou em cortar custos.

Depois de cinco meses, a empresa voltou a lucrar, mas Price estava marcado pela crise e manteve os salários baixos.

Na época, Rosita Barlow enfrentava seus próprios problemas financeiros e fazia bicos secretamente no McDonalds para complementar a renda. Quando o McDonalds lhe ofereceu uma promoção, ela acidentalmente deixou cair um manual de treinamento na mesa dela na Gravity e alguém percebeu.

Os chefes a chamaram para uma reunião.

"Eles pediram para eu me sentar e minha reação imediata foi chorar", diz Barlow. Ela pensou que seria demitida.

Em vez disso, pediram para descobrir quanto dinheiro precisava para permanecer na empresa e aumentaram o salário em US$ 40 mil (R$ 180 mil).

"Fiquei muito impressionado, orgulhoso dela e com raiva de mim", diz Price.

Levou mais alguns anos até ele entender a escala dos problemas na equipe dele.

"A maioria ficou intimidada demais para vir até mim e me dizer o quanto os problemas salariais os afetavam", diz ele.

Antes de 2015, ele já havia começado a dar aos funcionários 20% de aumento de salário anual. Mas foi sua conversa com Valerie que o convenceu a ir mais longe.

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Price esperava que o exemplo da Gravity causasse mudanças de longo alcance nos negócios nos Estados Unidos. Hoje, está profundamente decepcionado e triste por isso não ter acontecido.

Algumas empresas seguiram o seu exemplo, como a PharmaLogics, em Boston, que aumentou o salário mínimo para US$ 50 mil (R$ 225 mil) e o site Rented.com, em Atlanta. Ele acredita que, por meio de um lobby online, também tenha influenciado decisões como a da Amazon de aumentar o salário mínimo de seus empregados.

Mas ele esperava uma mudança estrutural generalizada.

"Rapaz, eu estava errado", diz. "Realmente fracassei nesse sentido. E isso mudou minha perspectiva sobre as coisas, porque eu realmente acredito que, através das ações que eu fiz e que outras pessoas podem fazer, poderíamos mudar a maré dessa desigualdade de renda descontrolada".

A mudança teve um efeito profundo sobre Price e seu estilo de vida.

Antes de fazer um corte nos custos, Price era o clichê de um jovem milionário branco de tecnologia. Ele morava em uma bela casa com vista para Puget Sound de Seattle, bebendo champanhe em restaurantes caros.

Depois, ele passou a alugar aquela casa dele no Airbnb para ajudar a se manter.

Um grupo de funcionários. cansado de vê-lo chegar no trabalho com um Audi de 12 anos, fez uma vaquinha e comprou um Tesla para ele de surpresa.

Dan Price com Alyssa O'Neal, que entregou o Tesla para ele

Um filme que a empresa publicou no YouTube acompanha uma pessoa da equipe de funcionários, Alyssa O'Neal, enquanto ela planeja com seus colegas surpreendê-lo com o carro.

"Sinto que essa é a melhor maneira de dizer obrigado por todos os sacrifícios que ele fez e por todas as coisas negativas com as quais ele teve que lidar", diz ela.

Price então sai do escritório em direção à vaga no estacionamento, vê o carro e começa a chorar.

Cinco anos depois, Price ainda mantém o salário mínimo da Gravity. Ele diz que está mais satisfeito do que nunca, inclusive de quando ganhava milhões, embora nem tudo seja fácil.

"Há testes todos os dias", diz ele.

"Tenho a mesma idade de Mark Zuckerberg e tenho momentos sombrios em que penso: 'Quero ser tão rico quanto Mark Zuckerberg e quero competir com ele para estar na lista da Forbes. E quero estar na capa da revista Time, ganhando muito dinheiro. Todas essas coisas gananciosas são tentadoras. "

"Não é fácil recusar. Mas minha vida é muito melhor."

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