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Por que Alemanha não é mais o 'bom aluno' da Europa no combate à covid-19?

Mathieu FOULKES
·2 minuto de leitura
(15 dez) Multidão enche principal rua comercial de Frankfurt

Alemanha, que foi o "bom aluno" da Europa no início da pandemia de covid-19, vive agora uma situação preocupante por não conseguir impor medidas drásticas nos últimos meses.

A Alemanha bateu seu recorde de infecções diárias na quinta-feira (17), com mais de 30.000 novos casos. No dia anterior, registrou 950 mortes, outro número sem precedentes.

Nos hospitais, 83% dos leitos de UTI estão ocupados, segundo o Instituto Robert Koch (RKI). 

. Merkel enfrenta estados federados

Elogiado antes do verão por sua flexibilidade, o sistema federal alemão agora enfrenta questionamentos.

Defensora da linha dura contra o vírus, Angela Merkel não tem poder de impor medidas aos 16 estados e regiões em suas negociações regulares.

Segundo as próprias autoridades políticas, a situação atual começou em outubro, quando as regiões enfrentaram o governo federal, que queria endurecer as medidas contra o vírus. 

A chanceler, cuja popularidade continua no auge, disse estar "insatisfeita", mas que não poderia impor nada.  

Apesar do fechamento de bares, restaurantes e locais de cultura, apenas seis estados federados reduziram o impacto desde 2 de novembro. 

. Relaxamento da conduta

Frequentemente vistos como disciplinados, os alemães não souberam desta vez reproduzir os esforços da primavera boreal (outono no Brasil) contra o vírus.

É o caso das barracas de vinho quente, uma tradição antes das festas de Natal, que atrai multidões.

"Durante o confinamento da primavera, reduzimos os contatos em 63%. Até agora, fomos capazes de reduzir os contatos em apenas 43%, o que simplesmente não é suficiente", disse o virologista Christian Drosten. 

O RKI estima que a redução eficaz dos contatos deveria ser de 60%.

O aplicativo anticovid também mostrou suas limitações. Apesar de baixado por 23,5 milhões de pessoas, menos da metade dos usuários positivos declararam seu contágio.  

. Ex-RDA, a mais afetada

A situação é particularmente dramática em algumas partes da antiga Alemanha oriental, especialmente Saxônia e Turíngia, onde as taxas de infecção alcançaram na quinta-feira 407 e 255, respectivamente, acima da média federal (179,2).

Depois de criticar a "histeria" do governo, o líder conservador de Saxônia, Michael Kretschmer, admitiu que a pandemia foi "subestimada" e impôs restrições de emergência.

Coincidência, ou não, nesta região é muito ativo o movimento antimáscaras, e a extrema direita está muito enraizada. 

. Drama das casas de repouso

"Infelizmente, estamos vendo mais e mais surtos nas casas de repouso", disse o presidente do RKI, Lothar Wieler. 

Somente em Berlim, o número de residentes que deram positivo dobrou desde meados de novembro para mais de 2.000, segundo o Senado da capital. 

Essa situação afeta o número de mortes, que na Alemanha supera as 24.000. De acordo com o instituto Statista, 87,2% das pessoas que morreram por covid-19 tinham mais de 69 anos.

mat/ahe/pc/me/aa/tt