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'Piracicaba Valley': interior de São Paulo se consolida como capital das agrotechs

Foto: Getty Images

por Matheus Mans

A cidade de Piracicaba, no interior do estado de São Paulo, sempre foi conhecida por suas vastas plantações de cana-de-açúcar, que cobrem grande parte de seus 1,3 mil km². No entanto, nos últimos anos, uma nova economia está brigando para tomar a dianteira na região: são as agrotechs, startups de agropecuária que querem levar tecnologia de ponta para o campo por meio de drones, inteligência artificial, sensores e interpretação de dados.

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Atualmente, só em Piracicaba, estão 120 das 300 agrotechs registradas no Brasil. Não há informações precisas sobre o quanto elas movimentam de economia na cidade, mas os efeitos são claros na região. Grandes empresas, como Raízen e Coplacana, participam ativamente das discussões sobre inovação em hubs espalhados por toda a cidade, que hoje já é conhecida como Vale de Piracicaba, numa alusão direta ao Vale do Silício americano.

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Assim, três anos após o surgimento dos primeiros cases de startups de sucesso em Piracicaba, especialistas acreditam que a região está com o ecossistema maduro, vencendo as adversidades. “O ecossistema de startups é algo vivo, que precisa ser criado e alimentado ao longo do tempo. Felizmente, isso é algo que acontece na cidade”, afirma o gerente de inovação digital da Raízen, Pedro Leal Noce. “Piracicaba se tornou referência”.

História da região ajudou cenário

Para compreender a predisposição da cidade aos novos negócios, é preciso entender melhor a história de Piracicaba e região. A cidade surgiu como um dos principais polos de produção da cana-de-açúcar — que, de alguma maneira, ainda movimenta a economia local. Na primeira metade do século 20, a exportação da matéria-prima acabou diminuindo, obrigando uma reinvenção. Foi aí que surgiu a ESALQ.

A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), da Universidade de São Paulo (USP), é um motor de transformação na região. Ajudou, nessa crise do século passado, a fazer com que a cidade passasse a ser o quartel-general de diversas grandes empresas do agronegócio e incrementou o número de pesquisadores da região. Agora, é o principal pilar por trás desse expressivo crescimento das startups do agronegócio por toda a cidade.

“O conceito do Vale de Piracicaba surgiu dentro da ESALQ, ainda em 2015”, contextualiza Sérgio Barbosa, gerente executivo da ESALQTec, incubadora tecnológica da universidade e que reúne mais de 100 startups associadas. “Hoje, nós servimos como porta de entrada de novas startups e grandes empresas para o ecossistema da região. Também incentivamos novos ecossistemas a se formarem em cidades como Botucatu, Londrina e Cuiabá”.

Casos de sucesso

Sob as asas da ESALQ, várias startups surgiram e conseguiram entrar no ecossistema que está a poucos passos da sala de aula. Uma delas é a Smart Agri, do engenheiro agrônomo Marcos Nascimbem Ferraz. Ex-aluno da universidade, ele percebeu que havia uma grande demanda por automatização no controle de plantações. Acabou criando soluções, baseadas em inteligência artificial, que analisam imagens coletadas por drones e dão indicações.

Seus produtos deram tão certo que Marcos acabou abrindo uma segunda empresa: a Smart Sensing. Em parceria com a empresa holandesa Weed It, a startup desenvolveu um sensor que faz pulverização localizada de pesticidas e outros produtos químicos nas plantações. “Nós reduzimos o gasto do fazendeiro e evitamos que haja excesso desse tipo de produto nos alimentos”, diz.

Uma outra empresa, que também surgiu na ESALQTec e hoje ganhou pernas próprias, é a @Tech. A startup se vale de uma tecnologia que mistura inteligência artificial com algoritmos e indica ao pecuarista o melhor momento de vender o gado. A ferramenta da startup, batizada de BeefTrader, cruza dados como peso dos animais, localização da fazenda e situação do mercado. Assim, já calcula o melhor preço e o lucro a ser obtido. Pra faturar, a @Tech cobra valores diários para fazer o monitoramento dos rebanhos.

Hoje, a empresa vê com otimismo seu futuro. Afinal, recebeu um aporte da Positivo para alavancar o negócio internacionalmente. “Estamos nos preparando para monitorar 5 mil animais e há uma previsão de, no mínimo, 15 mil até o final do ano no Brasil, Paraguai e Argentina”, contextualiza Tiago Albertini, diretor executivo da startup piracicabana. “Estamos também com projeto de levar a tecnologia para os EUA e Austrália, onde prospectamos um aumento de 5 a 10% no monitoramento logo que a operação iniciar nestes países”.

Iniciativa privada

Outros polos de inovação surgiram na região incentivados por grandes empresas. O Animal Hub, da própria @Tech, conecta grandes pecuaristas a startups de gerenciamento de gado. O objetivo é tracionar tecnologias que levem o País à pecuária 4.0, com informatização de rebanhos. Dentre as grandes fazendas com conexão no hub estão a Água Tirada e a Coplacana, que já adotam tecnologias oferecidas por ali.

Já o Pulse é um hub de inovação promovido pela Raízen, uma das maiores empresas de agro do Brasil e principal fabricante de etanol de cana-de-açúcar. O local criado pela empresa, há dois anos, serve como ponto de encontro de startups, pesquisadores, investidores e executivos de empresas do agronegócio. O objetivo é fazer com que a inovação ali transborde barreiras das empresas e, inclusive, da própria região de Piracicaba.

“O Pulse acabou sendo um centralizador de vários negócios inovadores”, resume Pedro Leal Noce, gerente de inovação digital da Raízen. Segundo ele, a interação das empresas no local já dá um indicativo de como o ecossistema de Piracicaba está maduro. “As empresas se ajudam e trocam experiências e tecnologias. Mesmo que sejam concorrentes”, diz o executivo. “Isso mostra como a inovação dali passou daquela fase de desconfiança”.

No entanto, ele chama a atenção para um problema que ainda precisa ser resolvido: a falta de conectividade na região. Segundo relatório da Opensignal, usuários em áreas urbanas contam com acesso ao 4G em 75% do tempo, contra 41% daqueles que estão em municípios rurais.

“É difícil levar inovações robustas se não há boa conexão”, afirma Pedro. “Mas as startups de Piracicaba podem ser a pioneiras no mundo em levar conexão ao campo. Afinal, o tamanho do Brasil é proporcional às possibilidades do agronegócio”.