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Política fiscal e inflação devem forçar BC a ser ainda mais agressivo na alta de juros

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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 11.01.2022 - Fachada do Banco Central, em Brasília. (Foto: Antonio Molina/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 11.01.2022 - Fachada do Banco Central, em Brasília. (Foto: Antonio Molina/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As medidas do governo para aumentar os gastos sociais às vésperas das eleições tendem a colocar uma pressão adicional sobre a inflação, em um cenário no qual o processo de alta dos preços em escala global também tem influenciado a dinâmica inflacionária local.

Nesse cenário, economistas avaliam que os reflexos das políticas adotadas pelo governo Bolsonaro na inflação de médio prazo devem forçar o BC (Banco Central) a ter de ser ainda mais agressivo na condução da política monetária.

Desde março de 2021, a autoridade monetária já elevou a taxa Selic da mínima histórica de 2% ao ano para os atuais 13,25%. E, no boletim Focus, a estimativa mediana dos economistas indica mais uma alta de 0,50 ponto percentual no encontro dos dias 2 e 3 de agosto, com a taxa básica de juros em 13,75% em dezembro de 2022, recuando para 10,75% até o final de 2023.

No entanto, a política fiscal expansionista, bem como as dúvidas que pairam acerca da condução da economia a partir de 2023, faz com que um número cada vez maior de agentes econômicos passe a apostar que o BC tenha de ser ainda mais duro no processo de ajuste nos juros.

Seja com mais aumentos do que o previsto pelo consenso de mercado na Selic, seja com a manutenção da taxa em patamares elevados por mais tempo do que o esperado.

Economista-chefe da Itaú Asset, Thomas Wu projeta que a taxa Selic irá alcançar os 13,75% ao final do atual ciclo de alta dos juros. Mas, diferentemente dos pares, avalia que dificilmente a autoridade monetária terá espaço para promover alguma redução da Selic em 2023.

Wu afirma que o aumento dos gastos pelo governo para ajudar as classes menos favorecidas faz sentido, tendo em vista os choques de preços no Brasil e no exterior, e a pressão causada em itens básicos de consumo, como alimentação e energia. "Vários países estão fazendo alguma política fiscal que protege os mais vulneráveis", diz.

A medida, contudo, faz com que a inflação esperada à frente seja mais alta, o que deve impedir que o BC dê início ao processo de afrouxamento da política monetária a partir do ano que vem, afirma o economista-chefe da Itaú Asset.

Ele projeta o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 7,7% para 2022, e em 5,5% para 2023 —ambas as projeções estão bem acima da meta de inflação a ser perseguida pelo BC, de 3,5% e 3,25%, respectivamente. "Dificilmente o BC vai ter espaço para corte de juros em 2023."

DETERIORAÇÃO DAS CONTAS PÚBLICAS E DA INFLAÇÃO

Na segunda-feira (25), o Citi revisou, de 9,50% para 10,50%, a estimativa para a taxa Selic no final de 2023. Já para 2022, a projeção foi mantida em 13,75%.

Embora iniciativas recentes de redução de impostos estejam reduzindo os preços no curto prazo, as perspectivas de médio prazo para a inflação se deterioraram ainda mais, já que as medidas de alívio são apenas temporárias, aponta o Citi em relatório.

"A inflação persistente, os estímulos fiscais adicionais e uma atividade mais forte indicam uma taxa Selic de dois dígitos por mais tempo", diz o banco americano.

Ainda segundo os economistas do Citi, a contínua deterioração das condições econômicas globais tende a manter o real na recente trajetória de desvalorização frente ao dólar. O Citi projeta a taxa de câmbio em R$ 5,42 no final do ano —a moeda encerrou a sessão nesta sexta-feira (29) negociada a R$ 5,17.

A apreciação do dólar, por sua vez, tende a inflar uma inflação que já se encontra em patamares bastante elevados no Brasil, uma vez que, com a moeda americana mais cara, os produtos que o país importa dos Estados Unidos automaticamente também sobem de preço.

SANTANDER E CREDIT SUISSE PROJETAM SELIC EM 14,25%

Em 14 de julho, um dia depois de a Câmara ter aprovado a PEC dos Benefícios, o Santander aumentou, de 13,50% para 14,25%, a projeção para a taxa Selic no final de 2022, e de 10,50% para 12%, em dezembro de 2023.

Segundo o banco, o aumento nas expectativas de inflação para o próximo ano desde a última decisão do Copom (Comitê de Política Monetária), junto a uma deterioração no balanço de riscos, com os novos impulsos fiscais, foram os principais motivadores que levaram à revisão. Números considerados fortes de emprego também foram citados entre os motivos para o ajuste.

"Estes fatores geram risco importante para o cenário de desaceleração da atividade econômica antecipado pelo BC para o segundo semestre de 2022 —o que entendemos como condição estritamente necessária para a rápida desinflação projetada pelos modelos da autoridade", disse o Santander em relatório assinado pela economista-chefe do banco e ex-secretária do Tesouro, Ana Paula Vescovi.

Ainda de acordo com a avaliação do banco espanhol, o BC deve evitar um pico ainda mais acentuado dos juros no ciclo atual, mas mantendo as taxas mais altas por mais tempo.

"Ainda assim, identificamos a necessidade de um aperto adicional na taxa Selic para que o BC possa trazer a inflação para mais perto do centro da meta em 2023."

Também na esteira da aprovação da PEC, o Credit Suisse revisou no dia 13 de julho, de 13,75% para 14,25%, a projeção para a taxa Selic no final deste ano. Para 2023, a estimativa também subiu, de 10,75% para 11,25%.

A inflação elevada e disseminada em diversos setores da economia e as estimativas crescentes para o IPCA no ano que vem foram citados pelo Credit Suisse entre os motivos que embasaram as revisões.

No boletim Focus de 22 de julho, a projeção para a inflação, embora tenha recuado de 7,30% para 7,20% para 2022, subiu, pela 16ª semana seguida, de 5,20% para 5,30% para 2023.

A deterioração do quadro fiscal e um desempenho melhor do que o esperado para a economia neste ano também contribuíram para a visão do Credit Suisse quanto à necessidade de um aperto mais agressivo pelo BC.

Economistas avaliam que, embora as medidas fiscais que beneficiam a população de baixa renda, se por um lado, impulsionam o crescimento econômico em 2022, por outro, escondem uma herança maldita para 2023, que deve ser marcado por um crescimento abaixo do previsto inicialmente pelo mercado, com mais inflação e juros.

"Interromper o ciclo de aperto neste ponto seria altamente arriscado, dado que as expectativas de inflação estão significativamente desancoradas, o que pode comprometer a credibilidade da política monetária e aumentar o custo da redução da inflação, e pelo fato de que os bancos centrais ao redor do mundo estão tentando reafirmar sua credibilidade e compromisso com o objetivo de manter a inflação baixa, o que aumenta o risco de uma taxa de câmbio doméstica ainda mais depreciada", apontou o Credit Suisse no relatório assinado pelos economistas Solange Srour, Lucas Vilela e Rafael Castilho.

SIMBOLISMO PARA ANCORAGEM DAS EXPECTATIVAS

Economista-chefe da gestora Tenax Capital, Débora Nogueira também revisou em 13 de julho, de 13,75% para 14%, a projeção para a taxa Selic no final de 2022.

Segundo ela, os dados mais recentes de atividade e inflação sugerem que o quadro em setembro ainda será de descolamento importante dos preços para 2023 em relação à meta, exigindo alguma ação adicional do BC.

Já em outubro, o peso de 2024 para o horizonte da política monetária ganhará espaço, enquanto também será maior o peso da contração da atividade econômica em 2023, viabilizando, dessa forma, a interrupção no ciclo de alta dos juros, afirma a especialista.

"Esses 0,25 ponto percentual adicionais da Selic em setembro terão impacto reduzido na inflação, mas trazem um simbolismo importante em um momento em que a ancoragem das expectativas é o objetivo", diz a economista-chefe da Tenax.

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