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Pobres perdem 32% da renda nas metrópoles, diz estudo

PAULA SPERB
·6 minuto de leitura

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - A desigualdade de renda aumentou nas metrópoles brasileiras durante a pandemia. Todos os segmentos, dos mais pobres aos mais ricos, viram o rendimento cair. Os pobres, porém, sentiram mais a queda nos ganhos. Os dados integram o primeiro boletim "Desigualdade nas Metrópoles", que compara dados do segundo trimestre de 2020 com o mesmo período do ano passado, antes da pandemia. O fechamento das atividades para evitar a proliferação da Covid-19 se deu especialmente no período estudado. O boletim considera a renda individual por média domiciliar e não inclui no cálculo as rendas vindas do auxílio emergencial e outras fontes, como Bolsa Família. Por isso, dá a dimensão do impacto da pandemia na renda cuja fonte é exclusivamente o trabalho. O estudo é de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), do Observatório das Metrópoles e do Observatório da Dívida Social na América Latina (RedODSAL). Marcelo Gomes Ribeiro, pesquisador do Observatório das Metrópoles e da UFRJ, explica que quando uma pessoa perde o emprego é preciso considerar que toda a família é afetada, pois há redução na renda per capita de todo o domicílio. Como o estudo se estende pelo período da pandemia, os pesquisadores também captaram os efeitos do programa que permitiu cortes de jornadas e salários. Nesse contexto, mesmo quem manteve o emprego pode ter perdido renda. "Com a perspectiva de manter trabalhadores na ativa sem fechar os postos de trabalho, tivemos políticas de redução de renda", afirma Ribeiro. O boletim tem como base os dados sobre renda da Pnad do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes aos segundos trimestres de 2020 e 2019. Os números mostram que, na média das 22 regiões metropolitanas, os 40% mais pobres perderam 32,1% da renda, os 50% intermediários perderam 5,6% e os 10% mais ricos perderam 3,2%. "Quem está na base está menos protegido: normalmente tem trabalho informal, sem vínculo. Por isso, quando bate a crise, essa camada sente imediatamente o efeito", afirma André Salata, professor do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da PUC-RS. Na região metropolitana de Florianópolis, por exemplo, os 10% mais ricos ficaram ainda mais ricos, com 24,2% de aumento na renda. O fenômeno também se deu na região metropolitana do Rio de Janeiro, onde os mais ricos tiveram 8,7% de aumento na renda. "Mesmo em um contexto negativo, na dinâmica de um pais desigual como o Brasil, quem está em cima tem mais condições de se proteger e até aumentar seu rendimento em alguns casos", diz Salata. O aumento decorre de oportunidades específicas de cada contexto. Um empresário do setor de supermercados, por exemplo, viu a demanda aumentar no seu negócio com o fechamento dos restaurantes. A metrópole onde os mais pobres perderam mais renda foi em Salvador: queda de 57,4%. "Na região de Salvador, especificamente, e no Nordeste, em geral, há muita informalidade. Isso explica uma queda tão brusca", diz. Além de observar as variações da renda, o levantamento estima a desigualdade. A medida usada para calcular a desigualdade é o Coeficiente de Gini. Quanto mais esse indicador está próximo de um, maior é a desigualdade --assim, uma alta assinala piora nas condições socioeconômicas. Segundo as projeções, a média das 22 regiões metropolitanas estudadas mostra que o coeficiente de Gini chegou a 0,640 no segundo trimestre de 2020. No mesmo período de 2019, ele estava em 0,610. A distância entre topo e base também aumentou, de 0,610 para 0,640. "São necessárias muitas mudanças para se observar alteração no Gini, e a mudança identificada é bastante robusta", diz Salata. "São mudanças acentuadas em espaço curto de tempo, o que revela o efeito extremo e brusco da pandemia e da crise resultante. Vemos uma diferença muito clara [antes e pós-pandemia]." Na região metropolitana de São Paulo, a diferença entre o topo e a base aumentou de 0,631 no segundo trimestre de 2019 para 0,653 no mesmo período em 2020, durante a pandemia. Na região metropolitana do Rio, a desigualdade subiu de 0,635 para 0,685. O estudo considerou três estratos sociais: os 40% mais pobres e os 10% mais ricos, que são as pontas, e os 50% mais próximos da média de renda dentro de cada região metropolitana, ou seja, o meio. Das 22 regiões metropolitanas estudadas, apenas Maceió não registrou aumento da desigualdade. O fenômeno pode ser explicado por uma aproximação do topo com o meio. "Os ricos tiveram uma queda, que fez com que se aproximassem com os do meio", explica Ribeiro. Os pesquisadores esclarecem que o Coeficiente de Gini "tende a ser mais sensível para as mudanças mais próximas do meio do que nas pontas". O boletim também mostra aumento na parcela da população em vulnerabilidade relativa de renda, ou seja, que recebe até metade do valor mediano de cada região metropolitana. Na média das 22 regiões estudadas, o número saiu de 28% para 31,3% , na comparação do segundo trimestre de 2019 e o de 2020. Quanto à desigualdade racial, negros receberam 57,4% da renda dos brancos no segundo trimestre de 2020. As regiões com menos diferença de renda entre brancos e negros são as de Macapá (73,1%), Florianópolis (70,6%) e Goiânia (70, 4%). O boletim ressalta que nestas regiões a desigualdade geral é menor. Para os pesquisadores, diante da piora da desigualdade identificada no estudo, é possível projetar que 2021 será um ano crucial para a economia brasileira. "O Estado terá de pensar uma retomada para todos", diz Ribeiro. Salata lembra que o que chama de ciclo de redução de desigualdade, entre 2001 e 2014. "Especialmente no segundo governo de Lula e no primeiro de Dilma, todos os estratos estavam aumentando seus rendimentos, e a ponta de baixo tendia a crescer mais. É o melhor dos mundos, porque o bolo cresce e quem está embaixo começa a ganhar uma fatia maior", diz. "Agora, o que se vê é o oposto, é o pior dos mundos: todos estão perdendo e os pobres perdem mais." Além disso, os pesquisadores citam a diminuição do desemprego, a manutenção do auxílio emergencial e uma rede de proteção social mais robusta. Para eles, não é possível prever com exatidão quando haverá uma retomada dos patamares de renda. Ela, porém, está relacionada com a criação de vagas de trabalho. O próximo boletim abordará o impacto do auxílio na desigualdade geral, não somente de renda do trabalho. Salata adianta que o valor de R$ 600 pago pelo governo durante a pandemia conseguiu diminuir as desigualdades nas regiões metropolitanas. "Como dificilmente esse valor será mantido, a desigualdade geral deve aumentar."