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Plano de Biden vê China como ameaça e fala em subsídio para produção local

EDUARDO CUCOLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em texto postado em seu site da campanha e que detalha partes de seu plano de governo na área externa, o democrata Joe Biden cita quase 30 vezes a China e afirma que vai garantir um futuro feito em toda a América e por todos os trabalhadores americanos. Ele propõe seis linhas de ação para recuperar a manufatura e a inovação americanas, com propostas que incluem concessões de subsídios, exigência de conteúdo nacional e transferências de fábricas para os EUA. A proposta é vista por analistas como uma tentativa de rivalizar com o discurso do presidente Donald Trump, mas sem grandes efeitos práticos e de difícil implementação --mas está no texto. Em relação à China, é esperada uma relação mais estável e diplomática com o concorrente asiático, mas sem deixar de lado a disputa que já se desenhava em governos anteriores e deve se acirrar nos próximos anos, em especial, na área de alta tecnologia. Após a posse, o mais importante será acompanhar como essas e outras políticas na área econômica irão contribuir --ou não-- para uma recuperação mais rápida da economia mundial e para uma desvalorização do dólar frente a moedas de países emergentes. O governo brasileiro pode se beneficiar de uma eventual distensão na guerra comercial, caso abandone a postura ideológica e busque se equilibrar entre as duas potências, dizem especialistas. Também vai precisar rever o discurso na área ambiental, cuja política é tratada por Biden em outra parte do plano de governo e claramente se choca com a postura atual do governo Bolsonaro. As seis linhas de ação detalhadas no documento da campanha que a gestão Biden se propõe a incentivar são: 1) "buy american" (compre produtos americanos), 2) faça na América, 3) inove na América, 4) invista em toda a América, 5) levante-se pela América (estratégia para competir em empregos e produtos) e 6) "suply America" (traga de volta cadeias de suprimento críticas). O plano diz que Biden vai tornar mais rígidas as regras sobre conteúdo americano nos produtos "Made in USA". Hoje, basta ter 51% de conteúdo para se beneficiar isenção na aquisição de componentes importados. O democrata também afirma que "chega de inventar aqui e fazer lá". Para ele, se as empresas se beneficiam de pesquisas financiadas pelo contribuinte, esses produtos devem ser feitos nos EUA ou a empresa deve reembolsar o governo por seu apoio. Ainda na parte de inovação, Biden afirma que a China poderá superar ainda em 2020 os EUA em gastos com pesquisa & desenvolvimento. "O governo da China está investindo ativamente em pesquisa e comercialização nesses tipos de áreas importantes de tecnologia, em um esforço para superar a primazia tecnológica americana e dominar as indústrias futuras." Os chineses, aliás, são praticamente a única nação citada no documento, que também propõe espaço para economias que possam se aliar aos EUA nessa disputa, mas sem citar o nome desses países. "[Biden irá] trabalhar com aliados para reduzir a dependência deles de concorrentes como a China, enquanto moderniza as regras de comércio internacional para proteger as cadeias de abastecimento dos EUA e de aliados", diz o documento. Livio Ribeiro, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o discurso protecionista pode ter ajudado o democrata a conquistar votos nos grandes estados industriais, mas vê muitas limitações para colocar essas medidas em prática. "Não é à toa que existem cadeias globais de valor e que a gente tem um processo de desenho de produtos nos EUA e produção fora. É porque isso é mais barato e mais lucrativo", afirma Ribeiro. Para ele, aplicação prática dessas propostas é um pouco mais complicada, porque elas fazem com que o consumidor americano pague mais caro por produtos que, potencialmente, podem ter qualidade pior. Vitória Saddi, professora do Insper, tem a mesma avaliação: "Eu não vejo isso [acontecer], e seria falar que os democratas estão na Idade da Pedra. Vejo uma manutenção ou até uma melhora desse protecionismo americano", diz. Saddi diz esperar uma melhora na relação do Brasil com a China, em virtude da mudança de postura do governo americano com o democrata, que passaria do confronto direto para uma negociação. Ribeiro, do Ibre, diz que a contraposição entre China e EUA é uma questão quem comanda a Casa Branca, mas avalia que a haverá uma mudança de tom na disputa. Brasil deveria ter uma posição de alinhamento pontual e não automático a qualquer uma das partes. "Sob Biden, o alinhamento ideológico entre governos tende a mudar e isso deveria levar a um reposicionamento da postura do Brasil, entre elas, essa contraposição à China. Manter graus de liberdade em geral é bom, ter a opção de escolha em cada tema. Isso é relevante para o Brasil, que está na esfera de influência cultural americana, mas tem a China como principal parceiro comercial e grande investidor. Alinhamentos cegos são perigosos."