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Piora das expectativas de inflação para 2024 incomoda, diz diretor do BC

***ARQUIVO*** Brasília, DF - 11/01/2022 - Fachada do prédio do Banco Central em Brasília. (FOTO: Antonio Molina/Folhapress)
***ARQUIVO*** Brasília, DF - 11/01/2022 - Fachada do prédio do Banco Central em Brasília. (FOTO: Antonio Molina/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, disse nesta terça-feira (6) que a piora da percepção do mercado financeiro sobre a inflação de 2024 é motivo de incômodo e que a autoridade monetária precisa se manter "com a guarda alta" nos próximos trimestres.

"Quando olho a expectativa para 2024, me incomoda. A gente está desancorado [se afastando] do centro da meta [3%]", afirmou Serra em live promovida pela Bradesco Asset Management. "A nós incomoda bastante esse descolamento de 2024. O Banco Central tem de manter uma postura bastante cautelosa nos próximos trimestres, bastante vigilante", acrescentou.

De acordo com o último boletim Focus, divulgado pelo BC na segunda-feira (5), a mediana do mercado financeiro para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 2024 passou de 3,41% para 3,43%, contra 3,30% há um mês.

A projeção está acima do centro da meta de 3% fixada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Para o diretor do BC, "parece inconsistente" a discussão do mercado sobre início de corte de juros diante de um cenário de projeção de inflação acima do centro do objetivo para 2024.

Serra vê o processo de controle inflacionário no Brasil ainda como incipiente, mas projeta uma queda de inflação bastante rápida para os padrões históricos. Segundo ele, é necessário ter cautela na decisão de encerrar o choque de juros depois das surpresas que se impuseram ao longo do ciclo de aperto monetário.

"A gente já foi tão surpreendido que a gente tem de ter muita cautela no eventual encerramento do ciclo. A inflação está próxima de dois dígitos ainda, ajudada pela queda de bens essenciais, mas a gente ainda tem um desafio grande", disse.

O recuo do índice de inflação foi puxado pela queda nos preços dos combustíveis, principalmente da gasolina, e da energia elétrica depois dos cortes tributários promovidos pelo governo às vésperas das eleições.

Em agosto, o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) teve deflação de 0,73%. Apesar da trégua, o índice ainda acumulou avanço de 9,60% em 12 meses.

Serra disse ainda que o BC discutirá na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), nos dias 20 e 21 de setembro, um aumento residual da taxa básica de juros. Atualmente, a Selic está fixada em 13,75% ao ano.

O diretor do BC reafirmou que a "memória inflacionária" no Brasil dificulta o trabalho da autoridade monetária, aumentando a gravidade da situação ligada a fatores globais.

"A gente precisou reagir rápido e de forma bastante contundente já no início do processo, o Banco Central do Brasil seguiu surpreendendo o mercado com um ciclo de alta mais longo e até mais duro em termos de pace [ritmo] do que o mercado esperava ao longo de todo 2021", afirmou.

Desde o primeiro movimento, quando a Selic partiu de seu piso histórico (2% ao ano) em março de 2021, o ciclo de aperto acumula elevação de 11,75 pontos percentuais.

Quanto à atividade econômica, Serra disse que o Brasil destoa com revisões de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para cima, enquanto outros países projetam uma desaceleração da economia neste ano. Segundo a pesquisa Focus, os analistas esperam agora alta de 2,26% do PIB para 2022.

"O Brasil é uma exceção não porque a gente está descorrelacionado totalmente do ciclo global. Tinha aqui talvez um excesso de pessimismo, talvez uma ansiedade de que o lag [defasagem] da política monetária fosse mais curto do que de fato é. As projeções do início do ano estavam subestimando demais, pessimistas demais, cautelosas demais", afirmou.