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PIB de 2020 consagra mais uma década perdida. Não só na economia

Matheus Pichonelli
·6 minuto de leitura
Nurse Elissandra da Silva Lima interviews Maria de Lourdes Guedes, 64, and fills a questionary on the phone as she looks for residents with symptoms of the coronavirus disease (COVID-19) during a 'Bora Testar' (Let's Get Tested) campaign at Heliopolis slum in Sao Paulo, Brazil October 2, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Fácil a vida do peão nunca foi —nem em 2020 nem em 2010, 2000, 1990, e assim regressivamente até os tempos em que o homo sapiens brasileiro ainda vendia sua arte rupestre nas paredes da Serra da Capivara, no Piauí.

De década perdida em década perdida, o Brasil alavancou sua história recente numa conta mal fechada entre expectativa e realidade. Esta última era a lufada de ânimo para levar a pedra novamente para o topo da montanha. Como Sísifo, o paciente personagem da mitologia que tanto cabe a esses dias.

Comparações nunca são exatas. Nem mesmo justas. Mas o que havia antes, e parece ter ido para as calendas de vez, é a capacidade de peões, reis e rainhas projetarem dias melhores. Basicamente o que dava sentido à dança fúnebre daquele tio exasperado na vida e bêbado na festa, a gravata na testa, ecoando os versos do Martinho da Vila todo santo Réveillon numa casa de paredes descascadas que prometia arrumar no mês que vem: “canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá. Canta alto, canta forte, que a vida vai melhorar”.

Na virada passada não teve música porque não teve encontro. Se tivesse, o otimista banhado em álcool seria expulso por inabilidade social. Os tempos são de luto.

A divulgação, pelo IBGE, do desempenho econômico do país no ano de encerramento da década só não foi mais frustrante porque ninguém esperava mais nada. Aqui reside o problema.

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O tombo de 4,1% do PIB saiu barato diante da hecatombe do coronavírus —ademais, a desculpa perfeita para o governante de plantão dizer que estaria voando não fosse o maldito morcego de Wuhan. Como se o desempenho do ano passado, um voo de galinha mensurado em 1,1%, não precisasse ser disfarçado com bananas arremessadas aos jornalistas por um cover de comediante ao lado de um cover de presidente.

A peculiaridade desta vez está no déficit de esperanças, e ele não faz estrago só na área econômica. Esperança hoje é acordar sem sintoma de Covid-19 e aguardar que em algum momento do futuro próximo a pandemia esteja sob controle. Uma esperança apunhalada toda vez que alguém vem a público negar a realidade com declarações de guerra no momento que pede união. O discurso e a necessária (e boicotada) comunicação da crise hoje tem mais polifonia do que fim de feira.

Já fomos diferentes? Já.

Em março de 2010, a notícia era que o PIB havia crescido 7,5% em relação ao ano anterior. Mais do que a década que terminava, a que tinha início em 2011 estava grávida de expectativa.

O Brasil estava prestes a receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas, projetos alavancados por campeões nacionais fora de campo. Na capa da The Economist o Cristo Redentor decolava com a pulseira do grau de investimento —já perdido.

Naquele ano o brasileiro que visitasse Londres poderia desfilar pelas ruas de Chelsea com uma frase escrita na camiseta: “meu PIB é maior que o seu”. O país tinha acabado de ultrapassar a Grã-Bretanha e era, então, a sexta maior economia do Planeta. A meta era conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Muito da euforia dormia sob a camada de pré-sal. Todas as curvas levavam a Santos, que em breve se tornaria a nossa Liverpool.

O projeto começou a ruir antes da metade da década, que no fim cresceu mero 0,3% (um desempenho pior do que nos anos 1980). Hoje o Brasil é a 12ª economia do Planeta, atrás de Rússia, Coreia do Sul, Canadá, Itália, França, Itália, França, Índia, Reino Unido, Alemanha, Japão, China e EUA.

Antes do colapso houve junho de 2013, Lava Jato, eleição fratricida de 2014, os 7 a 1, os elefantes brancos da Copa, o ajuste econômico, a pressão dos mercados, a queda das commodities. Vieram os protestos pró-impeachment, os youtubers indignados, as panelas, a convulsão social, a tempestade política, o movimento não vai ter golpe, o movimento “teve, sim”, o grande acordo nacional, com Supremo (agora sob ataque), com tudo, a reforma trabalhista, o gravador do Joesley Batista, as delações, as campeãs nacionais de joelhos, o tuíte do general, prisões, prisões, prisões —e depois as conversas vazadas sobre como aconteceram as prisões. E veio Jair Bolsonaro, a encarnação do ressentimento de todo mundo que rastejou nos baixos cleros da vida, dos quartéis e dos corredores da burocracia do Estado eleito para, como ele mesmo diz, destruir. Um case de sucesso até aqui.

Nos rastros da destruição ficaram só o cheiro de óleo queimado e da raiva. Muita raiva —uma raiva de conexão coletiva alimentada por cada frustração individual de quem viu, e sentiu na pele, sua renda e seu orçamento achatar conforme um país inteiro minguava até ser expulso das rodas das grandes potências, dos assuntos estratégicos, dos temas relevantes que nos levariam às década das possibilidades tecnológicas. (Detalhe: em 2010 a maior empresa do planeta era uma petroleira; hoje é a Apple).

E agora cá estamos brigando para dizer o óbvio, discutindo se a Terra é plana, se escolas são território da "ideologia de gênero", as Forças Armadas podem decidir se vamos ou não viver em uma democracia, se armar aquele vizinho frustrado e agressivo vai trazer paz aos nossos bairros, se vamos ter déficit de testosterona e masculinidade se usar máscara ou se quem toma vacina vira jacaré.

Os números apurados do PIB em 2020 chegam no dia em que se tornou consenso, ao menos nas rodas minimamente conectadas com a realidade, a previsão de que março de 2021 será o pior mês da história recente. Talvez, pelo número de óbitos em intervalo tão curto de tempo, em toda a sua História —e olha que, com todos os esforços e tanta capacidade, é difícil competir com o genocídio indígena, a escravidão, a guerra do Paraguai, os massacres como o de Canudos e as guerras civis.

No dia em que os dados foram divulgados, 1.840 vidas se perderam no país, parte delas a força de trabalho de um país que tenta e escorrega na missão de se reconstruir. Em um único dia multiplicamos por quatro o número de vidas perdidas pelos brasileiros em toda a Segunda Guerra Mundial. Vai levar tempo para fechar tanta ferida.

Chegar, só agora, ao pior momento da pandemia, enquanto outros países já se levantam do tombo, com medidas efetivas, testagem e vacinação em massa, é a coroação da incompetência de quem não tem outra ideia para o país a não ser mais guerra e mais destruição.

Para quem se aferra em números e já perdeu a capacidade de sentir, talvez seja hora de acender o alerta sobre o impacto de tudo isso na saúde econômica. O luto, o medo e o desalento são hoje as maiores âncoras para quebrar a inércia e acordar do sono profundo que nos compete desde que transformamos a última década em uma noite profunda e olimpicamente perdida.