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Petrobras vê salto na demanda térmica por gás e ainda busca normalizar oferta

Por Luciano Costa
·5 minuto de leitura
Vista de usina termelétrica a gás em Uruguaiana (RS)
Vista de usina termelétrica a gás em Uruguaiana (RS)

Por Luciano Costa

SÃO PAULO (Reuters) - A Petrobras tomou diversas ações para regularizar a oferta de gás para termelétricas desde meados de outubro, mas diante do salto na demanda pelo insumo para geração de energia ainda não conseguiu atender duas térmicas do Nordeste e uma terceira tem sido atendida apenas parcialmente, disse a estatal à Reuters.

O governo decidiu aprovar no dia 16 do mês passado o acionamento de mais usinas termelétricas em meio a perspectivas negativas de chuva nas hidrelétricas, principal fonte de energia do Brasil.

O movimento determinado pelo Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), formado por técnicos e autoridades da área energética do governo, foi qualificado pela Petrobras como um "abrupto incremento" no uso de térmicas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A Petrobras disse que, depois disso, promoveu diversas medidas para ampliar o suprimento e conseguiu "normalização" do atendimento às usinas a partir de 22 de outubro, mas depois viu o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) promover um aumento adicional da geração térmica a gás no Nordeste.

"Em função desse acréscimo, a Petrobras não está atendendo duas termelétricas na região Nordeste e uma está sendo atendida parcialmente", afirmou a petroleira estatal em nota à Reuters.

"Com a expectativa de retorno de plataformas em paradas de manutenção e aumento da importação do gás da Bolívia, que ainda depende de questões de governança interna da YPFB, o atendimento às termelétricas da Região Nordeste poderá ser regularizado", acrescentou.

A empresa não especificou quais são as questões que envolvem a YPFB, estatal responsável pelo fornecimento boliviano ao Brasil, ou os volumes que serão importados.

Ao final de outubro, o Ministério de Minas e Energia autorizou a Petrobras a exercer atividades de importação de gás natural da Bolívia em volume total de até 10 milhões de metros cúbicos por dia (m³/d), exatamente o total da redução contratual assinada em março com a YPFB, que diminuiu a obrigação de fornecimento de 30 milhões para 20 milhões de m³/d.

A Petrobras, que não deu um prazo para a normalização total, disse ainda que "tem mantido articulação permanente" sobre o tema junto ao ONS, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

"Vale lembrar que a logística do fornecimento de grande volume adicional de gás natural envolve um tempo mínimo para viabilizar o atendimento", acrescentou a estatal.

O CMSE, que teve uma reunião extraordinária na segunda-feira, disse que durante o encontro houve apresentações de técnicos sobre "ações para o aumento da disponibilidade plena de combustível para a geração das usinas térmicas".

Antes, em uma reunião do comitê estatal na primeira semana de novembro, a Petrobras havia sido convidada para apresentar "medidas em curso que visam à maior disponibilização de combustível para atendimento pleno à necessidade de geração indicada pelo ONS".

COMPRAS ADICIONAIS DE GNL

A Petrobras disse que, para atender à demanda extra das térmicas, tomou medidas como o reposicionamento de um navio regaseificador do terminal de Pecém, no Ceará, para a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e a aquisição de 17 cargas adicionais de gás natural liquefeito (GNL) para entrega em outubro e novembro.

A estatal também disse ter ampliado a oferta de gás em suas plataformas operacionais, para compensar unidades em parada de manutenção reprogramadas em função da pandemia, e promovido articulação com transportadoras de gás.

"Essas ações possibilitaram a normalização do atendimento a partir de 22/10. No entanto, posteriormente, o ONS também incrementou o despacho de termelétricas da Região Nordeste", explicou.

A estatal chegou a ser questionada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) devido à frustração de geração no final de outubro em suas termelétricas Arembepe e Muricy, ambas na Bahia.

Em documento visto pela Reuters, a superintendência de fiscalização de geração do órgão regulador pediu explicações da Petrobras pelo fato de as usinas não terem operado na capacidade exigida entre 27 e 29 de outubro, com perguntas inclusive sobre a possibilidade de falta de combustível.

Procurado para comentar a questão da oferta de gás para térmicas, o ONS não respondeu de imediato. O Ministério de Minas e Energia também não retornou de pronto.

A pasta de Minas e Energia apontou em boletim no começo de novembro que a decisão do CMSE de acionar usinas a gás fora de ordem de mérito gerou "aumento acentuado na demanda térmica, da ordem de 30%, na semana de 17 a 23 de outubro, seguido de mais 23% na semana de 23 a 30 de outubro".

Nesta quarta-feira, usinas térmicas respondiam por cerca de 16 gigawatts médios em geração no Brasil, alta de pelo menos 3 GW médios ante o visto em meados de novembro do ano passado. Atualmente, o uso de termelétricas responde por cerca de 24% da oferta, contra 61% de produção fornecida por hidrelétricas, segundo dados do ONS.

ACIONAMENTO INESPERADO

O presidente da comercializadora de energia Bolt, Gustavo Ayala, disse à Reuters que apesar de chuvas fracas recentes um forte acionamento de termelétricas não era esperado pelos agentes do mercado de energia para aquele momento, o que pode ter dado pouco tempo para a Petrobras organizar a oferta de gás.

"A ata (com as decisões do CMSE) foi publicada no dia 16 de outubro às 16h24, muito em cima mesmo. Não constava do planejamento das térmicas... foi a reunião extraordinária que surpreendeu as usinas", explicou.

A decisão do CMSE foi pelo chamado acionamento "fora da ordem de mérito" das térmicas --o que significa ligar mais usinas do que a necessidade estimada por modelos computacionais que apoiam a operação do sistema elétrico.