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Petrobras tem prejuízo no 2º tri por Covid-19; despesas com hedge e PDVs pesam

Por Roberto Samora
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Por Roberto Samora

SÃO PAULO (Reuters) - A Petrobras reportou nesta quinta-feira prejuízo líquido de 2,7 bilhões de reais no segundo trimestre, ante lucro de 18,87 bilhões de reais mesmo período do ano passado, quando a companhia tinha registrado seu melhor resultado trimestral.

A Petrobras apontou que, em uma conjuntura de preços e demanda mais baixos devido à pandemia, houve uma melhora ante o prejuízo de 48,5 bilhões de reais no primeiro trimestre, principalmente devido à ausência de impairments no período.

Além de não ter registrado baixas contábeis, que no trimestre anterior colaboraram para a companhia ter a maior perda de sua história, um ganho proveniente da exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Confins, após decisão judicial favorável, limitou o prejuízo entre abril e junho, já que teve um efeito de 10,9 bilhões de reais no resultado.

Segundo a estatal, excluindo esses fatores, a perda teria sido pior devido aos impactos da Covid-19 nas operações, com reflexo nos preços, margens e volumes.

"A eclosão de uma crise global de saúde causou uma recessão global profunda e sincronizada que afetou severamente a indústria global de óleo e gás", disse o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, em relatório.

"Os preços do petróleo Brent, que eram de 65 dólares por barril em fevereiro despencaram para 19 dólares em abril de 2020, devido à contração de 25% na demanda global, ameaçando uma parada súbita nos fluxos de caixa", acrescentou o CEO.

Além da pandemia, o segundo trimestre também foi afetado pelo colapso de preços resultante das negociações da Opep+, lembrou a Petrobras.

A empresa também registrou maiores despesas operacionais relacionadas à hedge, no valor de 2,7 bilhões de reais, e à implementação dos planos de demissão voluntária (PDVs), que exigiram provisões de 4,8 bilhões de reais.

"Os hedges de petróleo foram essenciais para garantir margem positiva à companhia quando o mercado estava muito volátil. Neste momento, não estamos fazendo hedge de nossas exportações de petróleo pois o mercado está mais estável. Porém, poderemos retomar essa prática se julgarmos necessário", disse Castello Branco.

A empresa disse que buscou compensar a queda na demanda interna com maiores exportações, especialmente para a China, que respondeu por 87% dos embarques da Petrobras no período, ante 48% no primeiro trimestre, quando a economia chinesa havia sido mais afetada pela pandemia.

"Destacamos que, graças à nossa rápida reação à crise e à implementação bem-sucedida da nossa estratégia, tivemos um grande volume de exportações no 2T20, as quais não foram totalmente traduzidas em receitas, havendo 38MMbbl de exportação de petróleo em andamento", disse a Petrobras.

O lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda) ajusta somou cerca de 25 bilhões de reais, recuo de 23,5% na comparação anual.

Já o fluxo de caixa livre atingiu 15,77 bilhões de reais, versus 12,4 bilhões de reais no mesmo período de 2019.

O presidente da Petrobras comentou que o choque global forçou a companhia a interromper a desalavancagem, e a dívida total encerrou o final do primeiro semestre de 2020 em 91,2 bilhões de dólares, 4 bilhões de dólares acima de 31 de dezembro de 2019.

"Contudo, a dívida líquida decresceu 8 bilhões de dólares no primeiro semestre do ano, evidenciando que não houve queima de caixa. O fluxo de caixa operacional foi forte o suficiente para aumentar o nosso caixa."

Os resultados operacionais foram beneficiados pela redução dos custos médios de extração, que na visão caixa decresceram de 8,4 dólares/barril de óleo equivalente no segundo trimestre do ano passado para 4,9 dólares/boe, com ajuda dos campos do pré-sal, que alcançaram 2,4 dólares/boe no segundo trimestre.

MUDANÇAS

"Vemos a crise como um ponto de inflexão, a partir do qual devemos acelerar a execução da nossa agenda transformacional --incluindo a transformação digital-- para permitir que a Petrobras promova uma guinada em sua longa história de destruição de valor...", disse o CEO.

Para o futuro, disse Castello Branco, a Petrobras planeja manter cerca de 50% do pessoal administrativo em home office, um movimento que foi acentuado durante a pandemia.

"Contudo, haverá o limite de três dias por semana para deixar espaço para uma preservação cultural efetiva, construção de equipes e mentoring de jovens profissionais", complementou.

O executivo disse que o pessoal operacional retornará gradualmente aos seus turnos normais de trabalho, excetuando-se aqueles com mais de 60 anos e/ou com comorbidades.

"A implementação será muito cuidadosa e calibrada para minimizar o risco de novas infecções."

O presidente da empresa lembrou ainda que o orçamento de capital para 2020 foi reduzido de 12 bilhões para 8,5 bilhões de dólares, e que a empresa lançou iniciativas para cortar mais de 2 bilhões de dólares em custos.

Além disso, a Petrobras adotou a postergação de desembolsos de caixa, incluindo salários de executivos e bônus anuais, da última parcela dos dividendos de 2019 e de parte dos pagamentos devidos a grandes fornecedores.

Sobre os mais de mais de 10 mil empregados que se registraram no programa de demissão voluntária, cerca de 22% da força de trabalho, o presidente disse que esses vão se desligar da companhia majoritariamente neste ano e o restante em 2021.

"Isso implicará em reduções de custo de quase 800 milhões de dólares por ano."

A Petrobras estimou ainda a racionalização da estrutura executiva traga redução de custos acima de 200 milhões de dólares por ano.

Como consequência da redução da força de trabalho e adoção do home office, a companhia planeja reduzir a ocupação dos atuais 17 edifícios administrativos para apenas oito no primeiro trimestre de 2021.

Ele disse que a empresa está prosseguindo nos desinvestimentos. "Em 2020 já lançamos 20 processos de vendas de ativos e as vendas concluídas até agora geraram quase 1 bilhão de dólares em entradas de caixa para a Petrobras."

No momento, acrescentou o CEO, "estamos discutindo com a empresa que submeteu a melhor proposta para a refinaria Rlam os detalhes finais para formalização de um acordo de compra e venda."

Conforme reportou a Reuters, fundo de investimento de Abu Dhabi Mubadala passou à frente do grupo indiano Essar na disputa para comprar Rlam, a segunda maior refinaria do Brasil.