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'Pessoas trans perdem oportunidades no cinema por conta do preconceito', conta a protagonista de 'Alice Júnior'

Laura Suprani*
·5 minuto de leitura

RIO. Em seu primeiro trabalho no cinema, a atriz Anne Celestino Mota, de 22 anos, interpreta “Alice Júnior”, uma adolescente transgênero, que, ao se mudar de Recife para uma pequena cidade conservadora no Sul do país, enfrenta o preconceito de alunos e funcionários da escola local, enquanto tenta dar seu primeiro beijo.

O filme, que tem o nome da protagonista, circulou o Brasil em festivais nacionais de cinema, como o Festival do Rio, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Mix Brasil, chegando até outros países em eventos como o Festival de Berlim.

Anne, assim como sua personagem, é youtuber e recifense, e utiliza seu canal para divulgar informações sobre temas como identidade de gênero, sexualidade e a causa trans.

— Esse filme é muito importante para muitas pessoas, que são iguais a mim, e me sinto muito honrada em poder representá-las — destaca a atriz. — Mas é importante enfatizar que a minha realidade, assim como a da Alice, não é igual a da maioria das pessoas trans, especialmente aqui no Brasil. Eu tenho apoio da minha família, especialmente da minha mãe, e uma condição financeira estável, o que não faz parte da vivência de muitas pessoas.

Em entrevista a CELINA, por telefone, ela conta sobre sua experiência durante a realização do filme e sobre a participação em festivais de cinema no Brasil e no exterior. Anne também fala sobre a presença de pessoas trans no audiovisual e sobre a importância de poderem protagonizar suas próprias histórias.

CELINA: “Alice Júnior” foi a primeira grande produção da qual você fez parte. Como foi essa experiência?

Anne Celestino Mota: Antes de “Alice”, eu fiz trabalhos pequenos, algumas peças em cursos livres. Um dia, eu vi uma publicação no Facebook, contando que estavam procurando atrizes trans para uma produção. Mandei e-mail, e entraram em contato comigo. Eles [os produtores e diretores] me contaram que foi amor à primeira vista. Depois disso, fui até Curitiba para fazer um teste presencial, e já começamos a trabalhar com o elenco. Para mim foi uma experiência incrível. A partir daí, eu decidi que ser atriz era realmente o que eu queria. Durante todo o processo, fui consultada e ajudei a construir o roteiro. As gravações foram ótimas, e fiz muitas amizades; são pessoas com quem eu posso contar até hoje e que me auxiliam muito na minha carreira.

Tanto o público, quanto o circuito de cinema, receberam o filme muito bem. Como foi isso para você? Essa resposta já era esperada?

Foi uma surpresa essa recepção. Fizemos uma espécie de “turnê Alice Júnior” e viajamos pelo Brasil com o filme. Pensei que iríamos apenas exibi-lo nos festivais, mas começamos a ganhar prêmios, e isso foi totalmente inesperado. No Festival de Brasília, ganhei o prêmio de Melhor Atriz, e foi a primeira vez que uma mulher trans recebeu esse prêmio. Foi aí que eu percebi que estávamos fazendo história. Em Berlim, por exemplo, não fomos premiados, mas fomos o único filme ovacionado, o público nos aplaudiu de pé durante uns cinco minutos.

Como você se sente com isso?

Para mim é uma grande honra, mas a ficha ainda não caiu direito. Do dia para a noite receber tanto apoio, poder representar e ajudar tantas pessoas é muito significativo. Recebo mensagens de jovens, como eu, que se inspiraram na “Alice”, na sua confiança e coragem para enfrentar o preconceito na escola. Sao jovens que tiveram coragem de, por exemplo, assumir para suas famílias que são transsexuais. O filme afetou, positivamente, muitas pessoas, e isso também significa muito para mim.

O que mudou depois de ter participado do filme?

Comecei a fazer faculdade de teatro aqui em Recife e recebi muitas propostas de trabalho. Fui convidada a participar do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, como parte da Comissão de Seleção dos longas participantes da mostra do Festival. Também estou me dedicando mais ao meu canal no YouTube, o Transtornada, publicando vídeos novos toda semana, além de entrevistas e lives para os festivais internacionais em que “Alice” ainda está participando. O público do canal também cresceu muito. Conquistei fãs que estão sempre acompanhando o que eu faço.

Por que é importante que pessoas trans possam protagonizar suas próprias histórias?

A gente fala muito sobre o “transfake”, que é quando uma pessoa cis interpreta uma pessoa trans na televisão, no cinema etc. Essas obras são muito poderosas e influenciam muito as pessoas, e é importante que pessoas trans estejam nesses espaços para que possam ser vistas com mais naturalidade e de forma mais humana pelo público. Um filme sobre pessoas trans precisa também, por exemplo, de auxílio com o roteiro. Se uma obra é sobre a vida de pessoas trans, por que não as contratar? E não somente nesses casos, pois pessoas trans são totalmente capacitadas para trabalhar com audiovisual, nas mais diversas funções, mas perdem oportunidades por conta do preconceito.

Quando e porque você decidiu criar um canal no YouTube, o Transtornada?

O primeiro vídeo eu fiz para um ex-professor meu, que dá aula em um pré-vestibular e me pediu para falar sobre identidade de gênero e sexualidade. A partir daí, em 2016, eu decidi fazer outros vídeos. Assim como o “Alice Júnior”, eu falo sobre a causa trans de uma forma leve e bastante didática, com o objetivo de ensinar o público cis que não tem muita familiaridade com o tema, para que possam sair com mais conhecimento sobre a causa. Também tenho alguns conteúdos voltados para meus irmãos e irmãs trans, para que possamos nos apoiar. Recentemente, comecei a fazer também vídeos falando sobre mim, e sobre o filme, contando sobre os bastidores e curiosidades, o que tem feito bastante sucesso.