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Pessoas com HIV e ONGs se pronunciam após Bolsonaro associar vacina à Aids: 'é violento e criminoso', diz Lana de Holanda

·5 min de leitura

RIO — Ofendidos, inferiorizados e revoltados. Estes foram alguns dos sentimentos relatados por pessoas que vivem com imunodeficiência humana (HIV) e por instituições que combatem o preconceito contra soropositivos, após o presidente Jair Bolsonaro relacionar as vacinas contra a Covid-19 ao vírus da imunodeficiência. Por enfrentar estigmas diariamente, o pronunciamento do líder do executivo repercutiu nas redes sociais como um desrespeito a quem tem Aids — uma doença sem cura, mas com tratamento que inibe a ação e transmissão do patógeno. Diagnosticada com HIV há cerca de sete anos, a educadora popular Lana de Holanda, travesti e militante pelos direitos humanos, diz que se sentiu, mais uma vez, violentada pela fala do presidente.

— É muito violento. Eu como mulher transsexual estou, infelizmente, acostumada com as violências que partedem dele (Bolsonaro), mas ver essas associações é violento e criminoso, porque sabota a vacinação, que tem ajudado com a redução das mortes por Covid, e alimenta o estígma de que pessoas com HIV não podem ter contato com outras pessoas e uma vida normal — afirma a educadora.

No sentido figurado, estigma é quando algo ou alguém passa a ser considerado indigno, desonroso ou de má reputação. Com mais de 33 mil seguidores no Twitter, Lana publicou nesta segunda-feira seu sentimento sobre a fala de Bolsonaro, que ocorreu na última quinta-feira, durante uma live, e aproveitou para falar de si. Apesar de hoje ter carga viral indetectável, ou seja, não transmitir o HIV, ela relembra que sofreu muita discriminação até conseguir ser vista como uma pessoa “normal”, tanto pela falta de informação da sociedade sobre o HIV quanto por ser travesti. Aos 30 anos, ela usa suas redes sociais para falar sobre saúde, educação e antirracismo.

— Eu nasci numa época em que estava começando a ter mais informações sobre o HIV, mas mesmo assim a gente ainda hoje precisa fazer todo um trabalho pedagógico para quebrar essa memória antiga que a Aids vai paralisar a sua vida. Então precisamos ter muita responsabilidade ao falar algo que não conhecemos, porque aquilo vai afetar a vida da pessoa que acreditou na mentira e a vida de quem tem a doença — explica.

Internautas também usaram as redes sociais para se manifestar. Uma mulher relatou que foi contaminada pelo ex-marido, já falecido. Ela afirma que “tinha medo do preconceito”, mas que hoje não tem mais e conclui dizendo que o “Bolsonaro pisou na bola”. Outra escreveu que a irmã mais velha tem HIV há 13 anos e nunca esteve doente, graças à medicação ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Depois, disse que a fala do presidente foi infeliz.

Há 20 anos vivendo com HIV, Pierre Freiras é outro soropositivo que se sentiu ofendido com a situação. O assistente social conta que contraiu a doença aos 14 anos, por falta de informação, e hoje tenta difundir o tema através do seu trabalho. Segundo ele, devido à Aids ser muito associada às pessoas LGBTQIA+ de forma preconceituosa, a fala do presidente além de ferir a autoestima de quem vive com a doença, também pode reforçar o preconceito e impedir que mais pessoas busquem tratamento por vergonha, caso que ele já viu acontecer.

— Foi uma fala completamente preconceituosa. Todo mundo deveria saber que o HIV se transmite pelo contato sexual e sanguíneo, e não por vacina. Ainda hoje o portador do vírus é visto como alguém promíscuo, mas dados mostram que a maioria dos infectados são homens héteros e não LGBTs, como pregado socialmente — diz.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, de 2007 a 2019, os heterossexuais foram responsáveis por 58% dos novos casos de infecção por HIV. Mais de 80% das mulheres soropositivas foram infectadas por seus maridos. Os dados foram divulgados pelo Intercept, no ano passado.

Para levar as informações que ele não teve sobre direitos humanos e saúde básica, Pierre fundou neste domingo, em parceria com amigos, a Instituição Multiverso, que agrega influenciadores digitais, psicólogos, assistentes sociais, médicos, jornalistas, educadores, entre outros, para fornecer acesso à saúde e ao conhecimento científico. A proposta é atender a população em geral, incluindo soropositivos, de forma remota, mas, posteriormente, criar um ambulatório para atendimento presencial, em São Paulo.

— O nosso sistema de saúde trabalha mais na causa do que na prevenção, especialmente quando o assunto é doença sexualmente transmissível. Então queremos atuar no âmbito da saúde e também psicológico, para reerguer nossa autoestima — aponta.

Bolsonaro já teve outras falas preconceituosas contra pessoas com HIV

Jair Bolsonaro (sem partido) já se pronunciou outras vezes de forma preconceituosa contra pessoas que vivem com HIV. Em fevereiro de 2020, ele chegou a dizer que uma pessoa soropositivo era "despesa para todos no Brasil". As palavras do presidente também geraram críticas de organizações da sociedade civil que lutam contra a estigmatização. Uma delas foi a ONG Grupo de Incentivo à Vida, que assiste pessoas com Aids.

De acordo com o advogado e diretor da instituição, Cláudio Pereira, ações já foram encaminhadas ao Ministério Público pelas falas do presidente e do Ministério da Saúde. Uma delas sob alegação de que o governo federal não está mais investindo em campanhas informativas contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Ele afirma que ONGs de São Paulo fizeram um levantamento de quatro meses de publicações do Ministério da Saúde para encaminhar ao MP. Mas, segundo Cláudio, a pasta negou as afirmações.

Desta vez, instituições que assistem pessoas com HIV também pretendem se juntar para solicitar judicialmente uma retratação por parte de Jair Bolsonaro.

— Isso que o presidente falou é um crime e vamos querer que pelo menos ele se retrate. Mas acho difícil. A gente luta muito para quebrar preconceitos e ninguém merece ser descriminalizado por uma doença que tem, todos são iguais — afirma.

Os Fóruns das ONGs/Aids de São Paulo, Amazonas e Rio Grande do Sul divulgaram notas de repúdio em relação à fake news divulgada pelo presidente Jair Bolsonaro que relaciona infecções por aids à vacinação contra a Covid-19. Na visão dos fóruns a declaração do presidente dificulta as ações de enfrentamento à pandemia, deseduca a população e desqualifica os esforços de cientistas e profissionais de saúde.

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