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Pesquisadores em alerta: Brasil pode superar EUA em casos de coronavírus

(Allan Carvalho/NurPhoto via Getty Images)

O Brasil se tornou nesta sexta-feira o segundo país do mundo onde a Covid-19 mais matou, com 41.901 óbitos em menos de três meses, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa, formado por EXTRA, O Globo, G1, Folha de S. Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, a partir das bases das secretarias estaduais de Saúde. As 843 mortes registradas em 24 horas levaram o país a superar o Reino Unido (41.566), ficando atrás apenas dos EUA (114.357). Dos três, o Brasil é o único onde a doença ainda avança.

— A epidemia no Reino Unido está na descendente há varias semanas, mas no Brasil está na ascendente — destaca Ricardo Schnekenberg, médico pesquisador da Universidade de Oxford que integra grupo dedicado a estudar a dinâmica da pandemia no mundo.

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O Brasil, com 829.902 casos oficiais de Covid-19, está longe dos 2 milhões dos EUA, mas não numa distância impossível de alcançar. Wesley Cota, pesquisador visitante da Universidade de Zaragoza, na Espanha, que integra o projeto CovidBR, para monitorar o Brasil em colaboração com a Universidade Federal de Viçosa (MG), alerta:

— Não duvido que isso (o Brasil superar o número de casos dos Estados Unidos) aconteça, mas vai depender da questão da interiorização (da doença) também nos EUA, que são um país complexo, assim como nós.

Na opinião de Schnekenberg, Brasil, Reino Unidos e EUA nutriram epidemias de grandes dimensões, em parte, por erros de gestão nos primeiros meses do ano. O Brasil, porém, possui um problema mais crônico do que as outras duas nações para articular o combate ao novo coronavírus em nível nacional.

— No Reino Unido, diferentes regiões seguiram a mesma recomendação, e isso foi importante. No Brasil há muita briga, confusão e falta de liderança nacional — diz o médico, coautor do relatório coordenado pelo Imperial College de Londres sobre o Brasil.

O autor principal do trabalho, Neil Ferguson, foi uma figura chave para mudar a política de combate ao coronvírus no Reino Unido, em março, quando o primeiro-ministro Boris Johnson — que depois se infectou e precisou ser internado numa UTI — ainda resistia às recomendações científicas de distanciamento social. Na opinião do cientista, o governo britânico desperdiçou um tempo precioso se digladiando com a ciência.

— Se tivéssemos introduzido medidas de lockdown uma semana antes, teríamos reduzido as cifras de mortalidade finais ao menos pela metade — afirmou Ferguson na última quarta-feira.

No Brasil, a trajetória da epidemia foi diferente. Estados e municípios grandes foram relativamente ágeis em anunciar recomendações de isolamento social, como fechamento de escolas e comércio, mas os elogios dos cientistas à gestão brasileira da epidemia param por aí.

— A resposta do Brasil foi bastante inicial mesmo— explica Wesley Cota.

Ele argumenta, porém, que uma contenção abaixo do desejado nas capitais acabou por deixar a situação transbordar para o interior, que agora alimenta boa parte dos números do surto:

— Está acontecendo agora em várias cidades de Minas Gerais, por exemplo, uma iniciativa de reabertura, mas elas estão abrindo num momento em que, na verdade, deveriam fechar ainda mais — ressalta Cota.

Segunda onda

Segundo Wesley Cota, não cabe, neste momento, comparar o Brasil com outros países europeus que tiveram surtos grandes de Covid-19:

— Aqui na Espanha ocorreu um fechamento muito rígido em março, um lockdown completo por praticamente dois meses. Ninguém podia fazer praticamente nada fora de casa a não ser ir ao mercado.

Para Ricardo Schnekenberg, a política britânica, foi eficaz, ainda que tardia:

— A partir do momento que tomaram a decisão de fechar, fizeram um bom trabalho.

Ele vê mais semelhança do Brasil com os Estados Unidos, pela existência de populações mais compartimentadas nos vários estados.

— O que eu acho que vai acontecer nos EUA, como no Brasil, é que, passado o susto inicial, vão ser mantidas restrições em algum grau, mas vai ter uma situação caminhando com pequenas epidemias acontecendo de estado em estado ao longo do tempo — prevê Schnekenberg. — A gente vai sangrar por muito tempo, com esses níveis altos de mortalidade. Vai ser diferente da Europa, que teve um período curto e muito intenso.

Mesmo em países que, aparentemente, já passaram pelo pior, há receio de uma segunda onda do novo coronavírus, e não faltam críticas de cientistas. O “British Medical Journal”, um dos periódicos médicos mais influentes do mundo, avaliou a gestão de Boris Johnson no enfrentamento da epidemia como “pequena, muito atrasada e cheia de falhas”.

Da AGÊNCIA EXTRA