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Pesquisa mostra que, apesar de homens morrerem mais, as mulheres são mais impactadas no dia a dia da pandemia

Aline Ramos
·5 minuto de leitura

Embora os homens morram mais de Covid-19, são as mulheres as mais impactadas pela pandemia no dia a dia. Não se trata só da sobrecarga nas tarefas domésticas, das aulas on-line, do acúmulo de trabalho ou, na outra ponta, do desemprego. Essa é também uma crise da saúde mental, segundo pesquisa da agência humanitária Care International. O coronavírus expôs, como nunca, a falácia da igualdade de gêneros e tem colocado uma geração no limite.

As mulheres, em especial as mães, passaram o último ano se equilibrando entre tarefas. Como o espaço de trabalho invadiu a casa, o tempo gasto com atividades profissionais se misturou à dedicação aos filhos, à organização do lar, à limpeza e aos cuidados com os outros.

Não faltam estatísticas mundiais para tratar da problemática. No Brasil, pesquisa do Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista mostrou a gravidade do tema. Segundo levantamento feito com 2.641 entrevistadas, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia. Do total, 41% afirmaram trabalhar mais na quarentena. O isolamento social colocou em risco o sustento dos lares de 40% delas. A consultoria McKinsey, a ONU e o IBGE também coletaram dados neste sentido (usados para ilustrar as histórias narradas abaixo).

— A pandemia deixou evidente essa crise do cuidado, algo pouco falado. Historicamente, os cuidados são uma responsabilidade da mulher. É uma complicação que não é discutida nem na esfera pública nem na privada — ressalta Maria Martha Bruno, diretora de conteúdo do Gênero e Número.

Para Joanna Burigo, mestre em gênero, mídia e cultura pela London School of Economics, a chegada dessa crise global humanitária acelerou discrepâncias entre gêneros:

— A pandemia expôs uma problemática que requer medidas urgentes. Acentua diferenças que já existiam na sociedade, mas que estávamos acostumados a naturalizar.

Exaustão e ansiedade

O Brasil vivia o mais perto que chegou de um lockdown quando a funcionária pública Cida Azevedo, de 32 anos, deu à luz uma menina. Dias depois, o marido descobriu que estava com Covid-19. Cida foi para casa da sogra com a pequena Alice, onde também recebeu o diagnóstico.

Além de lidar com todas as inseguranças e demandas inerentes de se tornar mãe, ela se dedicava várias vezes ao dia a medir a temperatura e a frequência respiratória da recém-nascida, com medo de que tivesse contraído o vírus.

Cida trabalha com educação, produzindo material de ensino à distância. O marido é empregado num banco. Dificilmente ela conseguia cumprir as horas contratuais:

— Tive de parar a pós.Eu tenho inveja do meu marido. A minha vida estagnou. Ele foi até promovido antes de a Alice nascer. Será que alguém iria me promover com nove meses de gravidez?

A situação lhe rendeu problemas de ansiedade. Ela começou um tratamento e está agora de licença médica.

Sobrevivendo de doações

Quando a pandemia chegou, Diovanna dos Santos, de 24 anos, fazia bicos de faxineira e o marido trabalhava numa fábrica. O casal morava com o filho de 5 anos, Arthur, numa casinha alugada no Complexo do Alemão com uma varanda que deixou saudades. Com a crise, o marido perdeu o emprego e ela, os bicos. O casal não pôde mais pagar o aluguel:

— Fui para a casa da minha mãe. Como lá não cabia todo mundo, ele foi para a mãe dele. Foi horrível.

Ficaram longe de março a dezembro. Arthur ficou sob os cuidados dela. Por meses, viveram do auxílio do governo. No restante, só sobreviveram com doação de cestas básicas. Como a escola fechou, Diovanna pegava a lição de Arthur pelo WhatsApp enquanto o plano de dados não acabava. Agora, com a conquista de novos empregos, há esperança de melhora.

Trabalho em dobro

Desde que foi orientada a trabalhar de casa, a engenheira Camila Marmo, 38 anos, nunca mais teve sossego. Gerente de marketing de uma multinacional, havia acabado de voltar de licença-maternidade quando o coronavírus chegou ao Brasil. Com uma filha de 6 meses e outra de 3 anos, viu seu planejamento familiar desabar.

Sem escola ou babá, passou a se dividir entre as reuniões virtuais e os cuidados com as filhas. Em busca de espaço, foi da capital paulista para o interior, voltou, alugou uma casa no litoral e, por fim, se mudou para um local mais barato.

— Já pensei em pedir demissão. Mas penso: não, vou resistir — conta: — Algumas coisas, se a gente não faz, os homens não fazem.

O marido já voltou ao escritório, então a maioria das tarefas referentes às filhas fica a cargo dela. Camila começa a trabalhar às 8h30 e permanece até às 18h30 em ligações, uma atrás da outra. Almoça quase sempre em pé.

Só e sem renda

A pescadora Francineide Ferreira dos Santos, de 51 anos, passou o ano isolada em sua casa não só para evitar o contato com o vírus, mas para cuidar do caçula de cinco filhos. Ribeirinha da cidade de Altamira, no Pará, Francineide viu Max John, de 21, definhar na pandemia. Acometido por depressão severa, o jovem de 1,96 metro chegou a 43 quilos.

Em 2019, após dois anos de estudos, Max havia se formado bombeiro civil. Com o desaquecimento da economia, não conseguiu trabalho. Passou a ficar mais calado. Quando ele deixou de comer e dormir, Francineide buscou ajuda psiquiátrica. O jovem, agora um pouco melhor, ainda passa os dias deitado. Com medo de o filho se machucar, Francineide fica em casa.

— Tenho me privado de sair — disse ela, enxugando as lágrimas: — Meu filho se transformou naquela criança pequena. É uma dor irreparável. Nenhuma mulher nesse mundo formou filho pra ficar esticado na cama.

Francineide já cuidava sozinha dos filhos desde 2015, quando o então marido foi embora, depois de tentar assassiná-la com dois tiros. Ela é a responsável pelo sustento da família, mas como está sem pescar, precisa recorrer a doações para sobreviver.