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Pesquisa aponta motivo de não fumantes terem doenças pulmonares graves

Por Issam AHMED
Um homem com doença pulmonar crônica coloca tubos de oxigênio nas narinas em uma prisão de Rhode Island em 2013

A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), enfermidade pulmonar debilitante, geralmente se desenvolve a partir de décadas de uso intenso de tabaco, mas isso não explica porque quase um terço de todos os casos ocorre em pessoas que nunca fumaram.

Uma nova pesquisa financiada pelo governo dos Estados Unidos, publicada na terça-feira no Journal of American Medical Association (JAMA), apresenta uma resposta e a relaciona a como os pulmões se desenvolvem desde o início da vida.

A doença, conhecida como DPOC, é a quarta principal causa de morte nos Estados Unidos, causando obstrução do fluxo de ar e problemas respiratórios que limitam as atividades diárias das pessoas.

Estima-se que um em cada dez adultos com mais de 40 anos tenha essa condição.

Durante décadas, pensava-se que o fumo e a poluição do ar eram as principais causas da enfermidade, mas enquanto as taxas de consumo do tabaco e poluição diminuíram no ocidente em geral, a DPOC persiste e aproximadamente 30% das pessoas com esse problema nunca fumaram.

"O mais surpreendente foi que as pessoas com vias aéreas menores que o esperado corriam um risco muito maior de DPOC do que aquelas com vias aéreas normais ou maiores", afirmou à AFP Benjamin Smith, do Centro Médico Irving, da Universidade de Columbia.

A evidência "sugere que pessoas neste outro extremo do espectro que têm brônquios maiores podem ter uma reserva para resistir aos efeitos nocivos da fumaça do tabaco", acrescentou.

A nova pesquisa incluiu a análise de tomografias computadorizadas de 6.500 pulmões de idosos, fumantes e não fumantes, com e sem DPOC.

A equipe também observou que pessoas que fumam muito há décadas, mas nunca desenvolveram a doença "têm vias aéreas muito maiores do que o esperado para o tamanho do pulmão", acrescentou Smith.

Sem dúvida, o tabagismo ainda é um importante fator de risco. As partículas de fumaça desencadeiam respostas imunes que inflamam e danificam permanentemente as vias aéreas, além de destruir os sacos de ar dentro dos pulmões, causando enfisema.

Mas quando a equipe analisou seus dados para quantificar quais fatores eram mais importantes, "verificou-se que essa incompatibilidade entre as vias aéreas e o tamanho dos pulmões parece explicar melhor a variação do risco de DPOC", disse Smith, um pneumologista.

- Causas misteriosas -

O ar que respiramos passa através da traqueia para as vias aéreas menores chamadas brônquios ou bronquíolos.

À medida que envelhecemos, essas vias aéreas se desenvolvem proporcionalmente ao tamanho dos pulmões, mas em algumas pessoas se tornam menores ou maiores que o esperado, uma condição chamada disanapse.

As razões para essa patologia não são claras, mas elas representam um caminho para estudos futuros, disse Smith, que agora usará uma bolsa para explorar se existe uma base genética para a disanapsia pulmonar.

Outra possibilidade está relacionada à maneira como os pulmões se desenvolvem em nossa infância, desde o interior do útero até pararmos de crescer, e se há fatores que variam do tabagismo materno à exposição precoce à poluição do ar e os vírus respiratórios podem afetar o crescimento das vias aéreas.

A esperança é que, ao entender melhor as causas da disanapsia, os pesquisadores possam um dia projetar intervenções para revertê-la.

Smith comparou ao desenvolvimento de tratamentos para raquitismo, um distúrbio esquelético raro que era comum até o século 20, quando vitamina D, cálcio e fosfato foram identificados como críticos para o desenvolvimento ósseo.

A curto prazo, Smith espera colaborar para banir da comunidade médica a ideia de que a DPOC é uma doença única, com apenas uma forma de tratamento.

Os médicos observaram que os broncodilatadores, medicamentos inalados que relaxam os músculos e os pulmões e ampliam as vias aéreas, funcionam muito melhor para alguns pacientes com DPOC do que outros, e a nova descoberta pode explicar o porquê.