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Pesadelo de Macron piora com militares e líder de ultradireita

·5 minuto de leitura

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - A menos de um ano das eleições presidenciais francesas, duas dezenas de generais aposentados e um grupo de militares da ativa se juntaram na semana passada à galeria de assombrações que perturbam os sonhos do presidente Emmanuel Macron.

Em carta publicada numa revista de ultradireita, ameaçaram intervir contra um "risco de guerra civil" que atribuem ao islamismo e ao ativismo antirracista. "Foi uma intrusão nos assuntos civis altamente significativa vinda de oficiais militares franceses que historicamente observavam um pacto de silêncio sobre questões políticas", diz o professor de política francesa da Universidade de Warwick (Reino Unido) James Shields.

Shields tira da manifestação atípica duas conclusões. "Primeiro, ela mostra que o Islã e a questão racial fincaram uma cunha no centro do debate nacional francês, na esteira de atrocidades terroristas islâmicas cometidas na França desde 2015".

Progressivamente secundários em países como a Alemanha, temas como xenofobia e repulsa à imigração continuaram proeminentes na política francesa, graças principalmente a Marine Le Pen, líder do partido de ultradireita Reunião Nacional e principal pesadelo de Macron hoje.

De acordo com as pesquisas mais recentes, 1 em cada 4 franceses declara que votará na herdeira de Jean-Marie Le Pen no primeiro turno da eleição presidencial, em abril de 2022, o que deve levá-la mais uma vez ao segundo turno. Mas mudanças na opinião pública em relação tanto a Marine Le Pen quanto a Macron fazem analistas discutirem a sério se ela tem chances de se tornar presidente. Alguns acreditam que sim.

À medida que se consolida como rival do presidente, a ultradireitista tem moderado suas mensagens, num processo batizado de "desdemonização". Além de suavizar a retórica, ela expurgou do RN membros propícios a "escorregões" racistas ou extremistas, afirmam os pesquisadores Antoine Bristielle, Tristan Guerra e Max-Valentin Robert, em análise para o Observatório da Fundação Jean-Jaurès.

Deu resultado: neste ano, 34% dos franceses disseram ter opinião "muito ruim" sobre Marine Le Pen, o nível mais baixo alcançado por ela e uma queda expressiva dos 50% de março de 2019.

Isso leva à segunda observação de Shields sobre a carta dos militares: "É sinal de uma nova militância de direita encontrando lugar no espaço deixado pelo discurso mais higienizado de Le Pen".

A tensão política revelada pela mensagem do grupo de militares encontrou eco na população: 58% disseram apoiar a carta em pesquisa da empresa LCI divulgada na semana passada, e 73% concordaram ainda com a ideia de que o país está se desintegrando.

São resultados que indicam "um humor público profundamente pessimista e ansioso e uma aceitação de passos dramáticos para proteger as regiões mais problemáticas do país de descerem ainda mais à ilegalidade", afirma Shields.

Nesse ambiente, Marine Le Pen manteve estável sua base de apoio --89% de seus apoiadores no último pleito continuam dispostos a elegê-la-- enquanto o presidente francês viu quase um terço de seus simpatizantes debandar.

"Macron tem uma necessidade mais urgente de renovar seu 'centro duro' de apoio se quiser reverter a desvantagem no primeiro turno", afirma Shields. Embora ainda não tenha se lançado, é apontado como o mais provável candidato de seu partido República em Marcha (LREM).

Nessa renovação, não poderá mais se fiar em sua mensagem de "nem esquerda, nem direita" que lhe deu a vitória em 2017, não só porque no exercício do governo ele se inclinou para a direita mas também porque esse virou também um dos principais slogans de Marine Le Pen.

Outro fantasma com o qual Macron luta é o espelho. Suas tentativas de impor reformas --como a da Previdência, que detonou protestos em 2019-- lhe pregaram uma imagem de elitista e arrogante.

Foi preciso a revolta inflamada dos coletes amarelos (contra um imposto sobre combustíveis) para que a ficha caísse e o presidente tentasse adotar dose maior de humildade. "O problema é que Macron tem muito mais talento para a arrogância que para a simpatia --e as primeiras impressões, como sabemos, podem ser duradouras", afirma Shields, citando pesquisa da Odoxa divulgada em dezembro, na qual só 28% o consideram próximo da população.

Também preocupam outros números dessa mesma pesquisa: 57% desaprovam sua gestão em geral, 62% consideram que ele administrou mal a pandemia e 74% julgam que deixou a desejar em segurança e policiamento --avaliação agravada pelos ataques terroristas do ano passado, que fizeram ao menos quatro mortos, entre os quais o professor Samuel Paty, decapitado em Paris, e a brasileira Simone Barreto, degolada em Nice.

Em resposta, Macron fez avançar seu projeto de lei anti-extremismo, que no longo prazo "quer privar Marine Le Pen dos direitos exclusivos sobre a questão crítica de segurança", afirma Shields. Tenta assim se antecipar à estratégia da adversária de arrastar o debate eleitoral nos campos da violência, da imigração e da identidade nacional, que não são o terreno natural do presidente centrista.

Conforme esquentar a campanha de 2022, Marine Le Pen deve elevar o tom anti-imigração, enquanto Macron buscará trilhar uma linha mais cautelosa, opina Shields.

Nenhuma pesquisa até agora apontou vitória de Marine Le Pen contra Macron no segundo turno, mas um levantamento do dia 17 de março fez pipocar mensagens de alerta: o presidente aparece vencendo com 53% --há quatro anos, ele levou dois terços dos votos.

Para o professor de Warwick, a esperança da líder do RN é que um grande número de eleitores de centro-esquerda e esquerda, que foram cruciais para a vitória de Macron em 2017, optem pela abstenção. Ele considera improvável que isso seja suficiente para empurrar a balança eleitoral para a ultradireita.

Já na análise da Fundação Jean-Jaurès, "uma vitória final de Marine Le Pen é uma possibilidade não desprezível". Entre os dois principais motivos para isso, os pesquisadores apontam a "desdemonização" de Le Pen, que pode ser suficiente para deixar de assustar eleitores resistentes, e a rejeição crescente de Macron, que pode elevar a abstenção. "Há risco de que eleitores dos candidatos derrotados no primeiro turno se abstenham por detestar tanto Macron quanto Le Pen."

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