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Pensamento nas nuvens e PIX no bolso: novos serviços financeiros vão marcar 2023

Por muito tempo, para conseguirmos navegar com precisão, precisávamos nos orientar por bússolas e pelas estrelas. Recentemente, sistemas de navegação por GPS e controles de navegação com precisão milimétrica, tornaram a jornada de se deslocar seja em terra, mar ou ar muito mais assertiva e segura.

No entanto, essas ferramentas de ponta não substituem um elemento importantíssimo na equação: um bom piloto e um excelente navegador. No mundo dos negócios não é diferente, a despeito da enorme quantidade de tendências, inovações e expectativas existentes ao fundo do horizonte, caso não tenhamos uma visão completa de tudo ao nosso redor, podemos terminar perdidos ou envolvidos em uma tragédia.

O mesmo pode ser dito sobre navegar o ambiente de tecnologia dentro do setor financeiro. Como ressalta o relatório da Associação Brasileira das Empresas de Software, com o advento da ferramenta do PIX e outras estratégias de pagamento, o país se tornou líder de investimentos em soluções financeiras na América Latina, movimentando quase US$ 46 bilhões para a transformação de empresas e a criação de um ambiente imersivo para nativos digitais. Por outro lado, não faltam feiras, palestras, matérias e balanços que mais desorientam do que apontam caminhos nesse grande céu azul de serviços bancários brasileiros. Dessa forma, neste artigo, reunimos algumas ações que ganharam propensão que já são realidade dentro do ecossistema digital de instituições financeiras e outras rotas futuras que, certamente, apontam destinos de voos mais precisos.

PIX como tendência global, Superaplicativos, open banking (open finance)

Atualmente, o Brasil é referência no mercado de transferências bancárias na América Latina. Ao contrário de outros mercados, como o argentino, o colombiano e o uruguaio, o país centraliza as operações no Banco Central, que fiscaliza e autoriza a emissão de chaves PIX e tem acesso à grande estrutura de tecnologia para ampliar ainda mais o escopo de transações no território. Em outras palavras, o mercado brasileiro está na dianteira da transformação dos serviços bancários em toda a região. Segundo dados do estudo desenvolvido pela consultoria Comscore no ano passado, a terra do samba pode muito bem se tornar o reino das soluções 100% digitais nos próximos anos. Basta abrir um pouco a roda e deixar nossos irmãos entrarem.

Não que seria muito difícil, afinal, de acordo com a pesquisa de dados continuados do Banco Central, em outubro deste ano foram feitas mais 73 milhões de transações PIX por dia e, agora em dezembro de 2022, bateu o recorde chegando a 100 milhões de transações em 24 horas, o que equivale a quase metade da população do Brasil! O aumento progressivo de transferências nas modalidades de Parcelado, Garantido Saque e Troco representa mais do que a simples popularização da ferramenta entre os brasileiros, simboliza a importância de arquitetura robusta, baseada sobretudo em microsserviços e automatização, para a escalabilidade e segurança das transações, além da velocidade no desenvolvimento de novos serviços.

Não é por acaso que até o fim de 2022, o setor de serviços financeiros investirá R$ 35,5 bilhões em inovações em seu sistema de tecnologia. Os dados são da 30ª Pesquisa FEBRABAN de tecnologia bancária, realizada em conjunto com a consultoria Deloitte, a qual aponta para um maior grau de investimento nas áreas de Segurança Digital, Inteligência Artificial, 5G, Cloud Pública e Big Data para a entrega de soluções mais ágeis, assertivas e, sobretudo, seguras para correntistas e clientes empresariais. Ainda segundo o levantamento, o principal vetor para a digitalização de instituições bancárias nasce da alta expectativa e grande demanda de clientes para criação de novos serviços cada vez mais rápido.

PIX revolucionou as movimentações financeiras no Brasil, e outros países querem copiar (Imagem: Joel santana Joelfotos/Pixabay)
PIX revolucionou as movimentações financeiras no Brasil, e outros países querem copiar (Imagem: Joel santana Joelfotos/Pixabay)

Dentro desse contexto de democratização da cultura de pagamentos financeiros, entidades financeiras têm apostado na criação de superaplicativos, pelos quais, correntistas podem pagar contas, receber salários, ter acesso facilitado a marketplaces e canais de e-commerce e ainda aproveitar uma série de benefícios e condições especiais com o intermediário financeiro. De acordo com um levantamento do Banco BS2 realizado com 400 líderes de micro, pequenas e médias em todo o país, 80% afirmam que a pandemia consolidou uma nova cultura de pagamentos entre clientes e fornecedores e, que cada vez mais, a tendência é que plataformas agreguem vários serviços de empresas do seu ecossistema, simplificando a vida de correntistas e aumentando a competitividade entre instituições financeiras ao mesmo tempo que aumentam também as parcerias.

Com efeito, o relatório The Race to The Super App, publicado no começo do ano pela agência Financial Technology Partners, indica que essa convergência de serviços e facilidades dentro do ambiente digital é uma realidade ao redor do globo, abrangendo desde startups norte-americanas até multinacionais chinesas. Segundo a análise do banco estadunidense, a principal motivação para criação desses ambientes é criar um espaço de fidelização do cliente que abranja todas as etapas do consumo: desde o pagamento de serviços até a comunicação sobre novos produtos. Em suma, trata-se de uma estratégia para aumentar a fidelidade, retendo o cliente dentro do ecossistema.

Para além do uso de inovações disruptivas, um dos principais pilares da transformação dos ecossistemas de TI de empresas financeiras foi, sem dúvida, a chegada do Open Banking, que evoluiu agora para o Open Finance. Desenvolvido pelo Banco Central no começo de 2021, a iniciativa permite que correntistas autorizem o compartilhamento de seus dados bancários a instituições de crédito cadastradas no projeto. É certo que o programa representa uma das maiores transformações na Indústria Financeira nos últimos três séculos, abalando a estrutura de seu funcionamento e reformulando lógicas tradicionais. Por outro lado, a decisão cria um equilíbrio inédito entre os participantes do sistema financeiro, colocando o cliente no centro das atenções e recompensando as entidades mais preparadas para o atendimento das novas demandas.

A partir do paradigma do Open Banking, já imerso na cultura PIX e da celeridade financeira, negócios bancários poderão expandir seus portfólios a partir da lógica do Banking-as-a-Service (BaaS) e do Banking-as-a-Platform (BaaP). A partir dessa nova modalidade instaura-se a mentalidade ganha-ganha (win-win) dentro do mercado de serviços financeiros, a qual destrava uma série de oportunidades para os dois lados do balcão, democratizando aplicações, utilidades e linhas de crédito para o correntista, e trazendo volume, tração e legitimidade para entidades do setor, que hoje são mais entendidas como parceiras e não competidores.

Nuvem híbrida, Edge Computing e futuro do 5G

Para viabilizar a chegada do BaaS e do BaaP e aproximar ainda mais o correntista das entidades financeiras, as tecnologias presentes no ecossistema de hybrid cloud (nuvem híbrida) tornam-se cada vez mais interessantes para corporações de crédito. De acordo com um estudo recente da IBM, a estratégia mista de nuvens traz a oportunidade da redução de custos com tecnologia, a adaptabilidade a um mercado dinâmico, a diminuição da complexidade de operações, o aumento da conectividade interna da corporação, e proporciona um ganho real de escalabilidade nos processos e serviços de TI. Todos esses benefícios desoneram equipes da área das atividades mecânicas e repetitivas do dia a dia, propiciando um direcionamento para outras atividades da área, diminuindo o time to market.

É certo que cada entidade possui sua própria cultura organizacional para gestão, coordenação e encaminhamento de processos. Por outro lado, um dos trunfos da lógica de nuvem híbrida é oferecer serviços e funcionalidades que melhor se adequam às necessidades empresariais conforme apareçam na caminhada digital. A partir de seus usos, tomadores de decisões não terão problemas em introduzir ferramentas de AI, ML, e Analytics nem mesmo a prática de colaboração e segurança DevSecOps no dia a dia de suas empresas. Isto porque a principal ideia por trás de uma cloud híbrida é criar um gerenciamento global de várias camadas, nas quais aplicações possam ser descentralizadas e desacopladas em qualquer ambiente, desde On Premises, passando pela Nuvem Pública, até a Computação de Borda (Edge Computing).

Ano promete novas inovações em computação em nuvem (Imagem: Pexels/Maksim Goncharenok)
Ano promete novas inovações em computação em nuvem (Imagem: Pexels/Maksim Goncharenok)

Dentro dessa abordagem, programadores conseguem otimizar o uso de recursos com microsserviços e tecnologias de mensageria e capturar dados dentro desses aplicativos, colhendo insights para criação de novos serviços, melhorias ou, quem sabe, reformulação de plataformas inteiras de atendimento ao cliente. Em outras palavras, ambientes de nuvem híbrida e aberta proporcionam estruturas mais robustas e práticas para equipes de TI, sem ficar preso a nenhuma tecnologia proprietária. Esse ponto é muito importante: a implementação de arquiteturas baseadas em várias nuvens deve sempre se atentar a utilizar tecnologias abertas para não ficar preso a fornecedores de infraestrutura de nuvem ou de infraestrutura de software.

Nesse contexto de crescentes demandas nas estruturas de TI, o Edge Computing desponta como uma solução prática para diminuir o tempo de resposta das aplicações, uma vez que diminui a latência na comunicação entre servidores e alivia a carga de trabalho dentro do Data Center Central de empresas, permitindo a implementação de novos serviços antes inimagináveis dentro do contexto de tecnologias tradicionais.

Segundo previsões do Gartner, até o fim de 2022, 80% de médias e grandes organizações terão provedores de nuvem focados na computação de borda, permitindo uma planificação mais completa de suas atividades e processos, de forma rápida, segura e sobretudo escalável. Ademais, segundo a consultoria, a consistência dessa estrutura garante um rápido Retorno de Investimento (ROI), em menos de 12 meses, corporações já conseguem ver as mudanças claras no horizonte de possibilidades de novos serviços.

Somado a tudo isso, a implementação das infraestruturas de 5G nas principais cidades brasileiras promete acelerar a jornada digital de empresas de diferentes segmentos, tamanhos e culturas. Um relatório da Internacional Data Corporation (IDC), prevê que até 2025, a 5ª geração de comunicações móveis gere US$ 25,5 bilhões na receita de empresas B2B e B2C. Segundo a companhia, além dos mercados diretamente envolvidos com as redes de telecomunicação, as principais indústrias favorecidas pela nova faixa de banda serão os fornecedores de soluções tecnológicas como Internet das Coisas (IoT), AI, ML e infraestrutura de software como plataformas de containers, APIs, mensageria e automação.

Métricas para a transformação digital e a importância de uma cultura ágil

O grande número de inovações, recursos e estratégias disponíveis para a digitalização dos negócios nos dá uma pequena dimensão dos grandes desafios que aparecerão durante a caminhada tecnológica de cada organização. Para conseguir evoluir as arquiteturas e as aplicações, arquitetos, analistas e especialistas da área de TI desenvolveram uma série de métricas e indicadores para orientar as equipes de desenvolvimento, operação, segurança e tomadores de decisões em sua jornada rumo à imersão digital afinal, como diria Edwards Deming, o guru da qualidade, o que não pode ser medido, não pode ser gerenciado e, consequentemente, não pode ser melhorado. Decerto, cada empresa, principalmente no ramo de serviços financeiros, possui suas particularidades, estratégia e cultura organizacional que deve ser levada em conta. Em tempo, podemos citar duas métricas macros que se adequam a todo tipo de ecossistema: a confiabilidade dos serviços e a agilidade de mercado.

No primeiro caso, temos dois indicadores-chave de desempenho (KPIs) importantes: o tempo do código desenvolvido até a sua implementação em produção (ou time to market), o qual proporciona um ciclo de feedbacks mais rápidos e torna você mais eficiente de se ajustar ao mercado; e o indicador da frequência de entregas, basicamente, um índice da sua capacidade de adaptação, quanto maior for, melhor será seu tempo resposta.

Transformação Digital deve ser medida a partir de novas métricas (Imagem: geralt/Pixabay)
Transformação Digital deve ser medida a partir de novas métricas (Imagem: geralt/Pixabay)

Já na segunda métrica, a de confiabilidade dos serviços, é medido pelo tempo médio de recuperação evitando impactos negativos sobre o cliente e a taxa de falhas, que mostra a direção da qualidade de seus novos serviços. Caso esses números se revelem muito altos, é preciso rever o fluxo de processos de TI para maximizar a qualidade dos serviços.

Em resumo, esses dois indicadores apontam para uma otimização dos procedimentos técnicos e realizações estratégicas dentro dos setores de TI. Eles representam pesos diferentes conforme o tamanho, demanda e, principalmente, o estágio de transformação digital de corporações. Em algumas circunstâncias, essas verificações podem acontecer mensalmente, semanalmente e não raro, diariamente. Tudo dependerá da visão estratégica e necessidade organizacional da empresa.

Em contrapartida, cada vez mais a utilização de ferramentas, aplicações e novas plataformas digitais será uma constante dentro de ecossistemas corporativos, o que demanda um acompanhamento da cultura empresarial do negócio. Com efeito, o Guia Digital Culture: The Driving Force of Digital Transformation, apresentado no Fórum Econômico Mundial em 2021, aponta que o grande paradigma dos próximos anos será a estruturação de empresas com valores, comportamentos e filosofias abertas baseadas no campo do digital, o que se traduz em culturas colaborativas, pautadas em inovações e dados e centradas no atendimento e melhora da relação com clientes, parceiros e colaboradores de todos dias.

Em conclusão, nesse novo horizonte de planos de voos mais eficientes, longos e assertivos, líderes e gestores terão um papel fundamental na orientação de equipes e direcionamento de trabalhadores, assim como funcionários serão os novos embaixadores e representantes das marcas. Segundo relatório recente da IDC, essa nova configuração de corporações demanda investimentos pesados em capacitação profissional, especialização técnica e sobretudo visão estratégica para racionar custos e potencializar resultados nesse novo modelo ágil.

Afinal, em um mundo em constante transformação, em que meses podem separar o primeiro do último voo de uma companhia, estar preparado para trocar peças, reparar componentes e aprender novas ferramentas sobre a nova aeronave enquanto percorremos os céus apresenta-se como uma necessidade cada vez mais essencial para atravessar a jornada da inovação tecnológica e, cada vez mais, alcançar voos mais longos e ousados.

Fonte: Canaltech

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