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Pela segunda vez, Enem deixa de abordar ditadura militar

ISABELA PALHARES
·2 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pela segunda vez consecutiva, o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) não teve questões sobre regimes militares, totalitários ou conflitos contemporâneos, como a Guerra Fria. Esses conteúdos só deixaram de ser cobrados durante o governo Jair Bolsonaro (sem partido). Os professores de cursinho veem com preocupação a ausência desses assuntos, já que são conteúdos obrigatórios no ensino médio. Questões sobre o período da ditadura militar no Brasil apareceram em todas as edições do exame desde 2009, quando ele adquiriu o formato atual. A avaliação é de que a ausência desses assuntos seja resultado do trabalho de uma comissão criada pelo Inep para fazer uma triagem ideológica da prova. Na época, 66 questões foram excluídas por terem "abordagens controversas" e "teor ofensivo", segundo os responsáveis pela varredura. A maioria das questões excluídas do banco de itens (de onde são selecionadas as perguntas da prova) era da área de ciências humanas e linguagens. Neste domingo (17), foi aplicada a primeira prova do Enem. Previsto inicialmente para novembro, o exame foi adiado para janeiro por causa da pandemia. A aplicação, no entanto, ocorre agora em um dos piores momentos da pandemia no país. Rodrigo Miranda, professor de história do cursinho Oficina, vê com preocupação a ausência destes conteúdos na prova e diz que esta edição não teve cobrança equilibrada dos assuntos. De 10 questões, 8 tratavam de história geral e apenas 2 eram sobre história do Brasil. "Impressionante ver que questões tradicionalmente trabalhadas pelo Enem sumiram. É preocupante que o exame tenha deixado de conduzir o aluno a refletir sobre pontos importantes da atualidade. Isso é uma perda em relação a anos anteriores." As perguntas da prova também não abordaram temas ligados à discriminação e violência, como racismo ou homofobia. Assuntos que até 2019 eram sempre levantados pelo exame. "É o segundo ano que esses assuntos ficam de fora da prova, sem dar voz às minoria, sem fazer com que o candidato reflita sobre questões importantes para a sociedade", disse Raphael Hormes, professor do Descomplica. Apenas duas questões abordaram o machismo. Uma delas falava da desigualdade de gênero, como um texto sobre a diferença salarial entre os jogadores de futebol Neymar e Marta. A outra falou sobre uma campanha contra o assédio.