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Pedidos de solidariedade mundial antes de conferência de doadores sobre vacinas

Por Kelly MACNAMARA
Pesquisadora trabalha em teste genético desenvolvido para diagnosticar o novo coronavírus no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, em 28 de maio de 2020

"Ninguém estará a salvo enquanto nem todo mundo estiver a salvo" da COVID-19 - diz o presidente da Aliança Global para Vacinas (GAVI), na véspera de uma conferência de doadores, em um momento de crescente temor de que a luta contra a pandemia provoque um boom de doenças preveníveis.

Desde o início da pandemia de COVID-19, pesquisadores de todo mundo têm trabalhado duro para encontrar uma vacina contra o SARS-CoV-2, que deixou 380.000 mortos, de acordo com um balanço estabelecido pela AFP de fontes oficiais.

Para o presidente da Aliança Global para Vacinas e Imunização (GAVI), Seth Berkley, a comunidade internacional deve garantir que todos os países tenham acesso a uma vacina futura, independentemente de seus recursos.

"É um problema mundial que requer uma solução global e devemos trabalhar juntos", diz Berkley antes da conferência de doadores na quinta-feira, organizada pelo Reino Unido.

A GAVI espera arrecadar US$ 7,4 bilhões para continuar as campanhas de vacinação contra sarampo, poliomielite e febre tifoide, alteradas devido à pandemia.

A reunião também lançará um apelo para financiar a produção e a compra de uma eventual vacina contra a COVID-19, bem como para apoiar sua distribuição nos países em desenvolvimento.

O objetivo nesta questão é levantar US$ 2 bilhões, segundo Berkley, que afirma que as negociações com os fabricantes estão apenas começando.

Esta conferência de doadores coincide, porém, com o enfraquecimento do multilateralismo. O presidente Donald Trump anunciou, na semana passada, que estava cortando laços com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e alguns temem que os Estados Unidos procurem acumular a futura vacina, usando seu poder econômico.

Mas os países devem "mudar essa mentalidade", argumenta Berkley, para quem compartilhar o acesso às vacinas não é apenas uma questão humanitária e de igualdade, mas também de saúde pública global.

- "Desconfiança" -

"O vírus passou de um lugar perto de Wuhan para 180 países no mundo, em menos de três meses", incluindo ilhas e áreas remotas, recorda o presidente da GAVI.

Em maio, a OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a GAVI alertaram para o risco de que a pandemia comprometa campanhas de imunização em 70 países, ameaçando cerca de 80 milhões de crianças com menos de um ano de idade.

Os esforços de erradicação da poliomielite foram suspensos em dezenas de países, e a vacinação contra o sarampo foi interrompida em 27, segundo o Unicef.

De acordo com as projeções da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, apoiada pela GAVI, para cada morte causada pela COVID-19 que se evitou com a interrupção das campanhas de vacinação na África, poderia haver até 140 mortes por outras doenças evitáveis com uma vacina.

A situação no terreno melhora, com novas recomendações para retomar as campanhas sem espalhar a COVID-19, segundo Berkley. Mas encontrar todas as crianças que não foram vacinadas durante esse período será um "verdadeiro desafio", reconhece.

Os fundos arrecadados na quinta-feira estão previstos para um período de cinco anos, durante os quais a Aliança espera relançar programas de imunização que permitam acesso mais barato às vacinas, com o objetivo de atingir 300 milhões de crianças.

Apesar da crise econômica decorrente da pandemia, Berkley é "razoavelmente otimista". Ele teme, no entanto, os efeitos do volume "sem precedentes" de boatos e de teorias conspiratórias que circulam atualmente sobre vacinas, especialmente no hemisfério norte.

"A desconfiança entre a população e seus governos, os rumores e a disseminação intencional de informações falsas não estão apenas em seu nível mais alto, mas também são amplificados pelas redes sociais, que não existiam há 20 anos", completa.

"Uma combinação perfeita de problemas", diz ele, preocupado.