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Peça online sobre homem que tem mão de cadáver tem tudo a ver com pandemia

BRUNO SOUZA
·4 minutos de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Era início de março quando Renato Borghi acertava os últimos detalhes da turnê que realizaria por algumas cidades do Nordeste com dois sucessos de seu repertório recente, "Molière", de Sabina Berman, e "O Que Mantém um Homem Vivo?", de Bertolt Brecht, que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Shell de Teatro em 2019. Patrocínio fechado e pautas em negociação, Borghi viu todos os projetos caírem por terra quando a pandemia do novo coronavírus congelou o mercado cultural e fechou teatros ao redor do país. "De repente isso tudo foi interrompido e eu me vi preso sem poder nem mesmo sair de casa", lembra. Surgiu então a chance de voltar a exercer seu ofício através das facilidades do universo online e, em junho, atendendo ao convite da curadoria da rede Sesc São Paulo, o ator estreou online "O Rei da Vela", transmitindo diretamente de sua casa solilóquios do clássico de Oswald de Andrade, que o projetou nacionalmente em 1967, quando estrelou a clássica montagem dirigida por José Celso Martinez Corrêa. "Estava muito difícil para um ator ficar trancado em casa sem qualquer possibilidade de se manifestar, e esse teatro online abriu uma porta para que a gente pudesse se comunicar de outra forma com o público", conta. "Havia uma estranheza porque eu sou um analfabeto digital, e quem cuida de tudo isso, quem me bota online é o meu sócio Elcio Nogueira Seixas, mas eu recebi bem esse movimento, achei uma sacada legal a gente poder partir para um outro caminho dentro dessa pandemia." Aos 83 anos, e já familiarizado com a nova linguagem, Borghi encenou desde a peça de Samuel Beckett até espetáculo de teor autobiográfico. Nada, contudo, tão desafiador quanto "Três Cigarros e a Última Lasanha", solo de Fernando Bonassi e Victor Navas escrito especialmente para o ator. Montado originalmente em 2001, a peça saiu de cena apenas em 2010 após diversas temporadas e turnê internacional que lhe rendeu dois prêmios Villanueva, em Cuba. A obra agora reestreia nesta quinta-feira (27), às 21h, adaptada à nova realidade, em transmissão no Zoom, diretamente do palco do Teatro Morumbi Shopping, na zona sul da capital. No solo, Borghi dá vida a um homem que tem a mão de um morto implantada no lugar de sua própria, decepada sem que percebesse. A dificuldade em se adaptar ao novo membro faz com que a personagem viva com medo de uma possível rejeição do corpo enquanto tenta viver a nova realidade. "Trazer essa peça de volta após 10 anos é muito curioso nesse momento que a gente vive a pandemia. Eu acho que tem tudo a ver, porque essa personagem tem essa mão que pode sofrer a qualquer momento um processo de rejeição, e ele vive nesse medo, nessa expectativa, é um pouco como todos nós com medo desse vírus, tentando nos proteger sem saber o que pode acontecer depois." Inspirada no caso real do empresário Clint Hallam, primeiro paciente na história da medicina a ter uma mão implantada, em 1998, a peça viajou pela América Latina e por Portugal e, em seu retorno, seguirá o mesmo itinerário, inaugurando a primeira turnê virtual de um espetáculo. Para a série de apresentações internacionais, Borghi busca firmar parcerias com teatros e espaços de cultura, disponibilizando legendas em inglês e espanhol. "Estou esperançoso com o sucesso dessa turnê internacional. Eu tenho uma convicção muito grande da comunicação dessa peça com o público estrangeiro, e quero agora sentir qual efeito ela vai surtir no público dos Estados Unidos e dos países de língua inglesa". Sob a direção de Débora Dubois - que assinou a encenação original -, "Três Cigarros e a Última Lasanha" tem apresentações às sextas e aos sábados, sempre às 21h, antes de cair na estrada com temporadas transmitidas via Zoom. Borghi vê na empreitada seu maior desafio desde que começou a produzir para o online. "É a primeira vez que vamos cobrar. A adesão do público tem sido muito boa, mas essas primeiras manifestações foram gratuitas. Agora vou fazer a primeira experiência com ingressos a preços populares, e eu não sei como vai ser esse resultado." Escolado na nova linguagem, o ator não esconde a falta do contato físico com a plateia, que, acredita, retornará em massa ao antigo formato. "Haverá um retorno magnífico, vai ser uma primavera do público querendo voltar às salas de espetáculo, querendo ter contato direto com os atores. Isso vai acontecer de forma brilhante, vai ser um ressurgimento, um renascimento." Mas a volta primaveril não excluirá o novo modelo de produção. "A comunicação e a adesão do teatro online vão cair um pouco, mas é uma forma de expressão que vai ficar vigente para sempre. Mas claro, nada substituirá a presença física nos teatros em que estaremos de corpo, alma, suor e lágrimas", finaliza.