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Parto normal: 6 mentiras que os filmes de Hollywood disseminaram

Lucía Blasco - BBC News Mundo
·9 minutos de leitura
A atriz Katherine Heigl em cena do filme 'Ligeiramente Grávidos'; ela usa uma roupa de hospital e está semi sentada, gritando, durante o parto
O filme "Ligeiramente Grávidos", com Katherine Heigl, é um dos muitos que têm cenas de parto que não correspondem ao que ocorre na vida real

O cinema norte-americano já retratou muitos partos e nascimentos, mas a maioria deles não têm nada a ver com a vida real.

Quantas vezes já vimos mulheres desequilibradas, a bolsa estourando da maneira mais repentina e inoportuna possível, enquanto o homem nem mesmo sabe onde se posicionar e acaba desmaiando no meio da sala de cirurgia? Ou bebês que saem do canal vaginal olhando para cima, para o teto (ou será para a câmera?)

Com base no livro This is Going to Hurt (Isso Vai Doer, em tradução livre), em que o médico Adam Key descreve em detalhes o que se passa nas salas de partos, e nas análises de três especialistas, a BBC News Mundo mostra o que é ficção e o que é realidade nos partos normais mostrados em filmes.

1. Não nascemos olhando para cima

Na maioria dos partos, a primeira coisa a sair do canal vaginal é a cabeça do bebê. Mas, no cinema, com frequência o recém-nascido está com a face virada para cima. Isso não reflete a realidade.

Mais de 90% dos bebês ficam em posição cefálica antes do nascimento, ou seja, com a cabeça baixa, o queixo apoiado no peito, as nádegas levantadas e as pernas e braços dobrados e próximos ao corpo. Seus rostos ficam voltados para as costas da mãe.

"A posição mais natural ao nascer é os bebês se orientarem olhando para baixo, ou pelo menos um pouco para o lado", diz o ginecologista e obstetra Damián Dexeus, de Barcelona, na Espanha.

Gráfico sobre a posição do nascimento do bebê
Gráfico sobre a posição do nascimento do bebê

"E o motivo para a orientação é pura eficiência, economia de espaço do bebê: se ele estiver olhando para baixo, pode aproveitar ao máximo o espaço da pélvis", diz Dexeus.

"Devido aos diâmetros da cabeça da criança e da pelve materna, é a posição mais favorável", complementa a ginecologista cubana Josefina López Menéndez, que tem 30 anos de experiência em Havana e outros 10 em Madri.

"Muitas vezes nos filmes os bebês saem olhando para cima e de olhos abertos... E até sorrindo! Isso é muito inusitado, claro", diz Dexeus.

Além disso, os bebês não nascem limpinhos como nos filmes.

"Os bebês nunca nascem perfeitamente limpos. Não sei se isso é uma questão estética dos filmes ou um anacronismo", afirma Dexeus. Ele explica que antigamente era prática nos hospitais lavar o bebê logo após o parto e remover o vérnix caseoso — uma substância branca e gordurosa que cobre a pele do bebê ao nascer — entregando-o para a mãe completamente limpo.

Isso não acontece mais nos locais com as práticas médicas mais modernas, explica o obstetra, porque estudos mostraram que manter o vérnix por algumas horas após o nascimento traz diversos benefícios para o bebê.

2. A bolsa estourou!

Imagens da bolsa de água estourando de forma repentina e com abundância de líquido amniótico também são comuns no cinema e na televisão. Quase imediatamente, a mulher grávida entra em trabalho de parto.

Um exemplo: a cena de Charlotte no seriado Sex and the City, em que a bolsa estoura enquanto ela está tendo uma discussão em frente a um restaurante. Ela então corre para entrar em um táxi.

Grávida, a personagem Charlotte, da série 'Sex and the City', carrega sacolas de compras e faz cara de surpresa
Não é comum que a bolsa d'água estoure com abundância de líquido amniótico, segundo os médicos

"Isso não acontece com muita frequência. Se fosse, seria muito simples para nós!", diz Dexeus.

"Na verdade, não é incomum que o estouro da bolsa d'água (do líquido amniótico em que o bebê cresce) exija algum exame para confirmar se realmente se rompeu ou não, pois a paciente percebe que está perdendo líquido, mas não vê isso claramente ", diz o médico.

Isso acontece porque muitas vezes não é tão simples como parece diferenciar entre líquido amniótico e urina, principalmente se for apenas uma umidade ou um gotejamento de líquido. E normalmente o rompimento não marca o início do parto, mas faz parte dele.

"É mais comum ocorrer quando a mulher já está ciente de que está no processo de parto, depois de algumas contrações. É parte de uma progressão natural durante o trabalho de parto", diz Ann Yates, parteira da Confederação Internacional de Parteiras (ICM).

"Na verdade, se a bolsa d'água estourar muito antes do parto, antes que o bebê esteja pronto para nascer, isso pode significar uma complicação", acrescenta a parteira, que há mais de 40 anos assiste mulheres durante partos na Nova Zelândia e em outros cantos do mundo.

Nesses casos, o líquido também costuma ser analisado para descartar infecções.

3. O pós-parto

"O pós-parto é o grande esquecido no cinema... E também nas consultas médicas", diz Dexeus.

Uma série de coisas acontecem na sala de parto que Hollywood raramente mostra, e que podem se tornar bastante incômodas e dolorosas.

Desde a expulsão da placenta, do resto do cordão umbilical e das membranas que envolveram o feto durante a gravidez, até a sutura de feridas ou lacerações ocorridas durante o parto, se for natural.

Em seguida, ocorrem as contrações uterinas, nas quais esse órgão retorna ao estado anterior à gravidez. Mas não é só isso.

"A depressão pós-parto é mostrada de maneira muito superficial nos filmes", diz o ginecologista.

Deitada, mulher segura um bebê recém-nascido no colo; o bebê possui uma camada branca de vérnix caseoso sobre a pele
Cenas de filme raramente mostram o vernix caseoso, uma substância esbranquiçada que cobre o corpo do bebê no nascimento

O cinema também não costuma mostrar como a amamentação pode ser complicada, como o parto pode afetar a bexiga e gerar incontinência urinária, e dezenas de outras mudanças no corpo e situações que podem ser muito difíceis para as mulheres.

"Os filmes também não mostram como a recuperação física depois de uma cesárea pode ser difícil", diz Dexeus.

Essa negligência em falar sobre o puerpério (período que vai do parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação) costuma acontecer até nas consultas médicas, afirma Dexeus.

"Pode acontecer porque sempre focamos no momento culminante, que é o parto, e a partir daí parece que tudo o que vem depois é esquecido", diz Dexeus. "O ginecologista deve dar suporte às pacientes e estar atento a alguns problemas nessa próxima etapa, de logo após o parto até 30 ou 40 dias depois."

A obstetra López concorda. "A mãe precisa estar preparada no mínimo para a questão da amamentação, que gera uma luta interna em muitas mulheres que desejam amamentar e não conseguem."

"Todo esse imaginário de séries e filmes que nos leva a pensar que o parto — e o que vem depois — é um mar de rosas é muito perigoso porque nem sempre é assim. É importante derrubar mitos", afirma Dexeus.

4. A posição do parto

Outra cena comum em filmes é o parto ocorrer com a mulher semissentada em uma maca. Existem muitos exemplos: de Ellen Page em Juno, a Katherine Heigl em Ligeiramente Grávidos e Jennifer Aniston em Friends.

Rachel dando à luz em Friends
A posição de Rachel em "Friends" é a que o cinema e a TV costumam mostrar, mas hoje não é sequer a mais indicada para o parto normal

Essa é de fato uma ótima posição para o parto, mas não é a mais comum em todos os países do mundo.

"No Reino Unido e nos Estados Unidos é comum as mulheres ficarem semissentadas, com os pés apoiados na maca e as pernas levantadas", diz Dexeus. "Mas em países como a Espanha, a posição mais comum é a litotômica, em que a mulher fica deitada, com a parte de trás dos joelhos apoiada, e não tão ereta."

A posição litotômica é a mesma que se usa em exames ginecológicos e também é a posição mais comum no Brasil. Defensores do parto humanizado, no entanto, muitas vezes criticam essa posição, porque ela não facilita a saída do bebê.

Além dessas duas, há diversas outras posições possíveis para o parto normal que raramente são citadas no cinema e na televisão — de pé, de cócoras, em quatro apoios, sentada em uma banqueta, deitada de lado.

A posição também depende do estágio do parto em que a gestante se encontra.

Existem diversos momentos — contrações, dilatação, expulsão — e a mulher pode variar sua postura para facilitar o parto.

Gráfico de posições do parto
Gráfico de posições do parto

Yates acredita que é um problema que este assunto seja mal representado.

"É difícil para as mulheres dar à luz em determinadas posições e, infelizmente, muitas delas têm a expectativa de fazer sempre como nos filmes. A visão de Hollywood nem sempre é realista", diz Yare.

"Por exemplo, há partos em posição vertical (em pé), em que a mulher se apoia em um companheiro ou parteira, e às vezes o parto é mais fácil assim. Muitas vezes é até instintivo", afirma a parteira.

5. Gritos de terror

Outro clássico dos nascimentos no cinema são os gritos de dor, como os de Melanie em ...E o Vento Levou.

"Antes, os partos eram totalmente naturais ou seja, sem qualquer anestesia", explica a médica Josefina López. "É verdade que as contrações são dolorosas e quando duram muito a paciente fica exausta. Mas não é uma dor que necessariamente a obriga a gritar assim, embora obviamente cada pessoa tolere de uma maneira diferente. Se houver anestesia peridural, isso geralmente não acontece."

A atriz Ellen Page, semi sentada em uma cama, faz cara de dor
A maneira como os partos são feitos hoje em dia não necessariamente provoca berros de dor, como os filmes mostram

Yates acha que o cinema às vezes faz as mulheres parecerem fracas em cenas de parto.

"As mulheres são fortes, isso é algo universal", diz a parteira, "e elas conseguem lidar principalmente com a dor do parto — que é doloroso, não há dúvida — muitas vezes sem precisar gritar."

"Na verdade, na minha experiência, a maioria das mulheres não fica fora de controle e raramente grita de dor durante o trabalho de parto. Sim, às vezes elas fazem barulho — respiração alta ou gestos para lidar com a dor das contrações — mas quase nunca uivam como no cinema."

6. Homens que desmaiam

A imagem do pai desajeitado e apreensivo também é comum no cinema.

É o papel feito por Hugh Grant na comédia romântica Nove Meses — que é um exemplo perfeito do que um homem não deve fazer na sala de parto.

Os atores Hugh Grant e Julianne Moore com roupas de hospital e cara de pânico em cena do filme 'Nove Meses'
No filme "Nove Meses", o pai entra em pânico na hora do parto, algo que, na verdade, não é a norma

"Não vamos nos enganar. Há homens muito apreensivos que ficam da cor da parede na hora do parto. E realmente há quem desmaie. Mas essa também não é a norma", diz Dexeus.

"A representação dos pais na sala de parto no cinema é bastante ridícula", acrescenta o médico.

Yates diz que nos filmes de Hollywood o parceiro é frequentemente retratado como um incômodo ou uma pessoa que não sabe exatamente como se comportar nessa situação.

"Isso é bastante inusitado. Muitos homens e mulheres que acompanham a parturiente estão em perfeita harmonia com ela, e a ajudam e apoiam em tudo o que ela precisa", explica a parteira. "Temos que ser gentis com quem acompanha a parturiente."

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