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Novo partido é o “trezoitão” de Bolsonaro para consolidar seu próprio mito

Apoiadora faz foto diante da imagem de Bolsonaro no lançamento de seu novo partido. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters


Não sei se os analistas da editoria wishful thinking perceberam, mas o bolsonarismo já é uma força política. 

Essa força pode não ser suficiente reeleger seu patriarca em 2022, nem para compor um exército de prefeitos no ano que vem, mas tem lugar assegurado no tabuleiro político por anos - por mais que Jair Bolsonaro se esforce em repetir os erros de Fernando Collor de Mello, como o próprio ex-presidente lembrou em entrevista ao jornal O Globo.

A implosão do PSL para a recriação de uma legenda à sua imagem e semelhança é um indicativo de que este é um projeto de longo prazo e em ordem de sucessão. Até o filho mais novo, Jair Renan, tem assento na direção do Partido Aliança pelo Brasil - ou Aliança pelos Bolsonaros, como preferirem.

Pela lógica, o deputado do baixo clero deixou de ser o patinho feio do Congresso ao ganhar um pote de ouro nas eleições de 2018 e jogou fora na primeira chance, desfazendo-se de aliados e perdendo a chance de montar uma verdadeira bancada, rica e bem alimentada.

Mas a lógica não é exatamente o forte dos roteiristas do Brasil contemporâneo.

No perfil de Paulo Guedes, então fiador da campanha de Bolsonaro, publicado pela revista piauí, a repórter Malu Gaspar conta que foi a filha do economista, formada em estatística, quem cantou a bola em meados de 2017: o próximo presidente da República seria um outsider com grande inserção nas redes sociais.

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Não foi por acaso que o futuro ministro da Economia tenha colado em Luciano Huck nos primórdios da campanha. 

A desistência do apresentador levou Paulo Guedes a observar as cartas e perceber que, entre as opções disponíveis, poucos tinham tantos seguidores nas redes do que Bolsonaro (ok, vamos imaginar que todo o engajamento dali em diante se deu de forma orgânica). E poucos encarnavam tão bem o sentimento antipolítica que em breve varreria as urnas.

As duas variáveis destronaram as ferramentas antes primordiais para pavimentar o caminho até o Planalto, como alianças, estrutura partidária e tempo na propaganda eleitoral gratuita.

O calhambeque do PSL era quase um charme no reforço da ideia de que os eleitores estavam diante de um candidato que não era como os demais. 

Os ruídos estéticos de memes e pronunciamentos em fundo cinza, tudo adocicado pelo leite condensado sobre o pão pela manhã, eram lidos como espontaneidade, longe da fala empolada dos concorrentes. Honestidade, enfim - tudo o que parte do eleitorado buscava em tempos de Lava Jato. 

Era como se dissessem: somos mal diagramados mas somos reais.

Deu certo.

E não deu certo só nas urnas, decididas pelo voto de quem se abrigou naquela plataforma por identificação ou impulso de rejeição.

Deu certo porque o bolsonarismo se transformou em uma máquina de conversão e se consolidou como um projeto pessoal de culto à personalidade. Um projeto que tem na base a figura de um Messias, que será seguido por onde for pelos eleitores mais fiéis (hoje, 20% do eleitorado) mesmo que todos os porteiros do mundo deponham contra ele.

Na campanha, muitos apostavam que os aliados ditos civilizados de Bolsonaro conseguiriam amansar a fera no poder. Não só não conseguiram como se converteram ao mais puro bolsonarismo. 

Bolsonaro pouco aprendeu com Paulo Guedes, mas Paulo Guedes aos poucos se revelou, ou despertou do próprio fundo, um convicto bolsonarista. Sua estreia como ministro foi um coice em uma repórter argentina que lhe perguntou sobre o Mercosul.

O mesmo se pode dizer de Sergio Moro. O ex-juiz que administrou durante anos a fama de herói que veste a capa da imparcialidade para combater o crime se lança agora de cabeça na defesa e na obediência ao líder que o nomeou ministro. 

Mas é do ministro da Economia um aforismo clássico segundo o qual é preferível um homem de maus modos e bons princípios do que seu avesso.

Pura conversa, sobretudo quando se observam os enroscos da família com suspeitas de rachadinhas, funcionários fantasma, decisões em causa própria - tudo devidamente dourado por gritos, palavras e demonização permanente de inimigos, reais ou imaginários.

Bem.

Quem acompanha com um mínimo de atenção o noticiário já percebeu que o governo Bolsonaro é uma fábrica de encrencas e alucinações, com direito a quatro cavaleiros do Apocalipse, como brincam alguns deputados ao se referirem ao quarteiro Weintraub (Educação), Damares (Direitos Humanos), Ernesto (Relações Exteriores) e Salles (Meio Ambiente).

Mas se a coisa não avançou, juram seus seguidores mais fiéis, não é por indigência técnica, mas porque Bolsonaro não se livrou totalmente do entulho (político, ideológico, esquerdista, seja lá o que for) de falsos aliados, traidores e opositores que afundam o país desde Pedro Álvares Cabral.

Para esses seguidores, antes melhor que o presidente tenha deixado a ver navios os antigos aliados do PSL depois que o calhambeque virou transatlântico, com verba e bancada eleita.

Ao criar um novo partido, um Trezoitão para chamar de seu (sim, o número será 38), importa menos a funcionalidade política e pragmática da nova plataforma do que alimentar a mitologia de que o Brasil só vai se reerguer de seu sono profundo quando Bolsonaro tiver condições de fazer do seu jeito.

No novo partido não haverá Bivar nem Maluf nem cacique algum para dividir protagonismo ou atrapalhar os planos. Lá só entram os convertidos; lá só ficam os aliados mais leais.

O resto entra na mira do partido que já nasce armamentista.

A ironia é que, fruto de uma defecção, a Aliança nasce na defesa de “união” e “força”. “É o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumes.”

Com seu Partido Aliança pelo Brasil (se for, obviamente, viabilizado pela Justiça Eleitoral), Bolsonaro passa a ter um fio condutor para concentrar uma força política que sempre esteve solta - e que não chegou perto da unificação almejada nem quando escolheu a dedo os representantes de um governo totalmente alinhados às ideias do capitão.

Para isso ele volta algumas casas. Volta a andar de calhambeque. Volta a ser antissistema. Volta a dizer aos eleitores mais fiéis que não precisa de nada nem de ninguém. Que não precisa de fundo eleitoral. Não precisa fazer política. Não precisa dividir o poder. Não precisa sequer da faixa presidencial para viver dos rendimentos do próprio mito. Não terá desculpa também para dizer que só não deu certo porque não foi do seu jeito.

O governo, afinal, é transitório. Um partido político é residência oficial.

Se não servir para reeleição, a casa nova fica de presente para os filhos. Não vai faltar gente para bater à porta.