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Parece ciência mas não é: entenda o fenômeno da Fake Science

·7 minuto de leitura

Em janeiro passado, a Royal Society of Chemistry, do Reino Unido, anunciou a retirada de 68 artigos da RSC Advance, revista científica criada em 2011 para a publicação de artigos científicos na área de química. O motivo: eram fraudulentos. Mas como uma prestigiada sociedade de ciência foi pega numa armadilha dessas?

“A ciência tem que ter validação dos pares. Um artigo científico passa pela academia, por pessoas que têm o mesmo grau de conhecimento”, afirma Marcio Borges, pesquisador do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em Ciência da Informação. “Por isso quando um artigo é publicado você não questiona. Aquilo foi validado, checado por muitos pares acadêmicos.” E é exatamente aí que a chamada “fake science” opera: “Ela é montada com todas as características de um paper científico. A fake science altera aquilo que não é científico e faz parecer científico.”

Foi precisamente nessa linha a justificativa dada pela Associação, no início deste ano: “Esses artigos parecem ter credibilidade quando vistos isoladamente e muitos de seus pontos preocupantes só podem ser observados quando cotejados com outros vários artigos”.

Diante do caso, a RSC fortaleceu seu sistema de aferição de modo a reduzir os riscos de fraude. E, conhecendo este admirável mundo novo em que vivemos, fez o alerta: “Continuaremos a rever nossos sistemas para enfrentar as novas tentativas de burlá-los e minar a ciência.”

Embora só agora venha ganhando maior destaque no debate público, sobretudo por conta das publicações falsas em torno da pandemia de Covid-19, o fenômeno da chamada “Fake science” é uma preocupação dos meios acadêmicos há alguns anos. Um levantamento de 2018 feito pelo jornal inglês The Guardian em parceria com veículos da Alemanha chegou a 175 mil artigos fraudulentos publicados em cinco periódicos. A revista Nature mostrou que, entre janeiro de 2020 e março de 2021, mais de mil artigos fraudulentos ligados aos “paper mills”, como são chamados os produtores de artigos falsos.

Não se deve, todavia, colocar as fake sciences no mesmo patamar das chamadas fake news, alerta o pesquisador. “A gente começa a usar o termo junkie news. São volumes de informações [divulgadas] para dissolver algum debate [na sociedade]. A fake news vai deturpar esse fato [noticiado]. No caso da fake science você simula o processo inteiro. Você cria uma cadeia de validação falsa da notícia [científica] falsa”, afirma Borges.

FAKE SCIENCE NO ZAP

Uma cristã informa que Nossa Senhora do Carmo, responsável por resgatar as almas do purgatório, afirmou-lhe que o mundo entraria em decadência e um vírus mataria muitas pessoas. Para se proteger dele, um poderoso chá de abacate que, se tomado, salvaria vidas – e, de quebra, deixaria Nossa Senhora do Carmo feliz em ver que os fiéis ainda a seguem.

Este é apenas um dos vídeos que a dupla de pesquisadoras da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Marcia Borin da Cunha e Vanessa Ron Jen Chang, descrevem no artigo “Fake Science: uma análise de vídeos divulgados sobre a pandemia”, publicado em março deste ano, em que analisam o fenômeno na forma mais popular de conteúdo nos dias de hoje.

A partir da análise deste e de outros vídeos e áudios que circulavam pelo WhatsApp, Cunha e Chang dissecaram a estrutura narrativa das “fake sciences” nesses formatos e encontraram elementos comuns. São eles: a referência a um estudioso ou instituto de pesquisa de um local desconhecido ou distante; uma informação que tenha uma verdade atrelada à nossa cultura; um chamado para você propagar aquilo; uma referência a Deus. “Essa suposta pessoa que está passando a informação se coloca numa posição de carinho, de afetividade, ela passa isso na voz, no modo de falar”, afirma Cunha. “Em geral [esses vídeos oferecem] soluções simples para problemas complexos. A informação se torna leve no sentido de que é para fazer o bem e as fake news vão se propagando por esse apego ao sentimento.”

NAS REDES

O Departamento de Análises de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisou mais de 3 milhões de tuítes publicados entre janeiro e maio deste ano “que reivindicam o status científico para trazer argumentos de autoridade a mensagens sobre a Covid-19, incluindo adesão ou crítica a medidas protetivas, aplicação ou não de vacinas e grau de periculosidade do vírus, entre outros.”

“Para esse estudo nós passamos um filtro linguístico com termos e expressões que fazem menção à ciência. O que nós buscamos, foi identificar tuítes em que os usuários usavam identificação científica. A nossa ideia era entender se havia diferença na forma de reivindicar ciência”, afirma Victor Rabello Piaia, um dos responsáveis pelo levantamento.

O estudo identificou quatro clusters, divididos da seguinte forma: o Laranja (29,6% dos perfis), formado por profissionais da saúde e outras autoridades sanitárias; o Azul-Claro (24,9% dos perfis), composto por políticos de esquerda, celebridades e ativistas sociais da oposição ao presidente Jair Bolsonaro; o Verde (9,5% dos perfis), mobilizado por epidemiologistas, jornalistas e associações de infectologia e o Lilás (21,5% dos perfis), comandado por políticos de direita, blogueiros e influenciadores digitais conservadores.

Segundo o estudo, “[As] Postagens [no grupo Lilás] apelam para desde relatos pessoais de recuperação da doença até estudos e declarações de especialistas internacionais, bem como a sua aprovação em países estrangeiros, no esforço de embasar a eficácia dos remédios. Algumas postagens questionam, ainda, a acusação dessa postura como sendo negacionista, com o argumento de que o negacionismo seria o impedimento de acesso da população ao tratamento precoce.”

O conteúdo chegou às pessoas nas redes. Embora não seja majoritário, o grupo Lilás teve o maior número de interações: 41,5% do total. “Esse ponto é recorrente. O conjunto ligado a grupos conservadores, à direita, à extrema direita usualmente concentra o maior número de interações mesmo sem ter o maior número de perfis”, afirma Piaia. “Por quê? Quando a gente analisa as notícias que são mais compartilhadas por esse grupo a gente observa um tom de ação, de tentativa de pautar o debate, um padrão de comportamento coletivo, que pode ser coordenado organicamente. Esses grupos estão tentando intervir no debate enquanto os outros grupos parecem mais reativos.”

Quando se olha os veículos por meio dos quais esses grupos interagem – como a Revista Oeste, o Terça Livre e o Brasil sem Medo – vê-se também a formação de um próprio ecossistema da informação. “Fica muito claro que esse [o Lilás] é um conjunto mais isolado. Ele utiliza fontes de informação que são mais exclusivas. Tenta a partir da mídia alternativa pautar o debate. Uma vez que a mídia tradicional não está corroborando narrativas e argumentos que defendem, utilizam fontes alternativas alinhadas às suas pautas que vão municiar a minha intervenção no debate público”, afirma Piaia.

O estudioso destaca, no entanto, que a chamada “mídia alternativa” não é a única a basear as afirmações desses grupos. “Existe também uma apropriação de estudos que foram publicados em revistas científicas que não são de ponta, que reúnem pré-prints (as versões preliminares dos artigos científicos). Esse grupo pulou as mediações que normalmente são feitas pelos divulgadores científicos, por campos que são balizados por pares. Esse conjunto foi direto à fonte. Eles buscavam artigos que corroborassem ou não contradissessem o seu ponto de vista”, afirma o pesquisador da FGV.

Segundo Marcia da Cunha, da Unioeste, a conexão com os valores pessoais é fundamental para a propagação das “fake sciences”. “Nós estamos numa era em que se aquilo chega a mim e se agrega aos meus valores pessoais é passível de ser acreditado, o que a gente não tinha anteriormente. Essa era da pós-verdade, não quer dizer ‘após a verdade’, mas outra verdade, construída a partir dos nossos valores pessoais”, afirma. “Por isso a gente entende que isso tem que ser levado para a sala de aula para as pessoas entenderem como se constituem essas mensagens.”

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