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Parar ruídos e avançar com reformas são prioridades para crescer, diz Lisboa

Thais Carrança

Pra o presidente do Insper, debate sobre queda dos juros é uma questão de segunda importância no momento O presidente do Insper, Marcos Lisboa, avalia que são duas as prioridades para o Brasil voltar a crescer com mais força e de maneira sustentável: parar com os ruídos que contaminam a agenda do país e avançar com as reformas.

Para o economista, o nível de juros é uma questão menor e que deve ser definida pelos técnicos, e não é central para o desempenho da atividade. Já a política fiscal é um instrumento que não está mais disponível, sob risco de a dívida pública voltar a crescer.

O presidente do Insper, Marcos Lisboa, defende reformas estruturais

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“Em primeiro lugar, seria saudável parar com todos esses ruídos que estão contaminando a agenda do país”, diz Lisboa, citando os conflitos entre Executivo e Congresso, as recentes intervenções do Banco Central no mercado de câmbio e falas do ministro da Economia sobre este tema, que compete à autoridade monetária.

“O segundo ponto é avançar com a agenda de reformas”, afirma o economista.

“O Brasil tem problemas estruturais e nossa economia vai continuar com um crescimento medíocre se não fizermos reformas estruturais.”

Para o presidente do Insper, o atual debate sobre baixar ou não os juros diante dos impactos esperados do coronavírus sobre a economia global é uma questão de segunda importância.

“Um dos nossos grandes erros de política econômica foi atribuir o problema a juros e câmbio”, afirma. “A política monetária é só um instrumento para controlar a inflação e permite pequenos ajustes da economia no curto prazo. É só isso, não tem nenhum grande papel além disso.”

Ainda conforme Lisboa, a irresponsabilidade fiscal durante longo período eliminou instrumentos anticíclicos. “Com o não enfrentamento das despesas obrigatórias, o Brasil perdeu instrumentos de política econômica de curto prazo”, afirma. “Temos uma dívida pública alta, despesas obrigatórias altas e um Orçamento totalmente engessado, então se voltar a gastar muito, a dívida volta a subir.”

Assim, o economista avalia que o momento é de deixar as disputas por temas menores de lado e estabelecer prioridades de agenda. Ele avalia que a primeira delas é a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, para evitar um novo problema fiscal, e o envio da proposta de reforma tributária pelo governo.

Frear gastos

Lisboa avalia ainda é que preciso frear medidas que criam gastos, como a PEC dos Fundos, que ele avalia que deve ser abandonada, e iniciativas como o fortalecimento da estatal naval Emgeprom, a ideia de se criar um banco para a indústria de defesa e a capitalização de estatais fora do teto de gastos.

“A criatividade de medidas para expandir o gasto público floresceu neste último ano, é preciso um freio de arrumação.”

Quanto à possibilidade de acelerar a agenda de concessões como forma de estimular a atividade, o economista avalia que isso também é inviável sem reformas. “Sem resolver os problemas estruturais, você não consegue. No Brasil, é difícil fazer concessões e vender estatal devido à insegurança jurídica.”

Segundo Lisboa, o Brasil até pode voltar a crescer com mais força no curto a médio prazo, se a crise externa passar e o país conseguir arrumar um pouco a casa, devido à elevada capacidade ociosa da economia. Mas essa recuperação só se tornará sustentável com as mudanças estruturais, porque a capacidade de crescimento potencial do país hoje é baixa.