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Para futuro operador do 5G no Nordeste, escassez de recursos promove inovação

·5 min de leitura
*ARQUIVO* FORTALEZA, CE, BRASIL 22.03.2018 José Roberto Nogueira, fundador da Brisanet, empresa de telecomunicações (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)
*ARQUIVO* FORTALEZA, CE, BRASIL 22.03.2018 José Roberto Nogueira, fundador da Brisanet, empresa de telecomunicações (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operadora de telecomunicações Brisanet, que surpreendeu ao apresentar lances agressivos no leilão do 5G e será responsável pela implantação da nova rede móvel nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, agora corre para convencer os investidores de que fez a aposta certa.

Provedora de internet, TV a cabo e telefonia com uma rede de 14,4 mil quilômetros de fibra óptica em sete estados do Nordeste, ela terá que investir nos próximos anos mais de R$ 1,5 bilhão para implantar o 5G nas duas regiões conquistadas no leilão de novembro.

José Roberto Nogueira, fundador e presidente da empresa, diz que o mercado não perde por esperar. Nascido no interior do Ceará, ele começou do zero e entrou na lista de bilionários da revista Forbes após abrir o capital da Brisanet na bolsa, em julho deste ano. Sua fortuna é estimada em R$ 4,8 bilhões.

*

Pergunta - O que a entrada no 5G representa para a Brisanet

José Roberto Nogueira - Percebemos há dez anos que as redes de fibra óptica seriam importantes para o futuro das telecomunicações e começamos a investir nelas antes mesmo das operadoras de regiões mais ricas do país. Participamos das discussões sobre o 5G desde as primeiras reuniões convocadas pelo governo.

A rede de fibra óptica que construímos é nossa espinha dorsal. O 5G ampliará nosso alcance e nossa capacidade de entrega para as pessoas, onde elas estiverem. Estamos construindo uma estrada com esses dois trilhos, e ela permitirá a passagem de trens maiores, com um número crescente de vagões e serviços.

Que oportunidades a nova rede criará para o desenvolvimento das regiões em que a empresa atua?

JRN - Aqui onde cresci, a energia elétrica só chegou quando eu tinha 16 anos de idade. Tecnologias que demoravam décadas para alcançar regiões remotas hoje chegam com mais rapidez.

Daqui a cinco anos, com a infraestrutura que estamos construindo, uma pessoa na zona rural do Maranhão terá condições de usar qualquer novo serviço de tecnologia que for lançado no mundo ao mesmo tempo que os consumidores de regiões mais ricas.

Haverá demanda suficiente para tornar esse investimento rentável lá na frente?

JRN - Começamos a implantar nossa rede de fibra óptica, que era então a tecnologia mais moderna do mundo, colocando fibra em Pau dos Ferros (RN), uma cidade do semiárido que na época tinha menos de 30 mil habitantes. Não fomos à avenida Paulista.

Quando se tem poucos recursos é que as inovações florescem, porque isso força você a fazer muito com pouco. Em muitas regiões onde atuamos, a densidade, ou seja, o número de usuários por área, é muita baixa, mas conseguimos fazer isso de forma viável economicamente.

As regiões remotas são aquelas em que as pessoas mais precisam de conexão com a internet, e isso será cada vez mais relevante. Quem está no interior do Nordeste e não tem médico perto terá acesso a telemedicina, educação e outros serviços, a um custo menor e com mais eficiência.

Surgirão oportunidades para pequenos agricultores e novos negócios. Empresas poderão se instalar em qualquer lugar. A localização deixará de ser uma limitação para muitas atividades daqui para frente, em qualquer área de atuação.

​Não é muito otimismo? A pandemia expôs uma desigualdade muito grande no acesso à tecnologia no Brasil.

JRN - O 5G permitirá um grande processo de inclusão digital. Uma pessoa de baixa renda com um telefone celular pré-pago, que consegue fazer a recarga num mês, mas não no outro, tem hoje um acesso muito precário à internet e não aproveita as possibilidades da tecnologia oferecida pelo aparelho na sua mão.

Levar a fibra para dentro da casa dessas pessoas tem um custo alto, e elas não conseguem pagar a assinatura dos planos. Com o 5G será possível entregar mobilidade para essas pessoas a um custo menor. Um pouco maior do que o do pré-pago que elas têm hoje, mas com uma oferta de serviços maior. O telefone vai virar a TV a cabo que elas não têm, o shopping que elas não frequentam, o lazer que não têm.

A Brisanet abriu o capital na bolsa neste ano, mas suas ações perderam mais de 60% do valor desde o lançamento. Como espera superar a desconfiança dos investidores?

JRN - O mercado ainda não entendeu nosso lance no leilão do 5G e acha que fomos agressivos demais. Mas grande parte dos investimentos que vamos ter que fazer já estava prevista no nosso plano de negócios para a expansão da rede de fibra óptica.

Fomos inovadores ao usar o rádio para conectar pequenas cidades à internet e ao fazer as primeiras redes de fibra do país. Era tão complicado ou mais do que será agora para implantar o 5G, mas conseguimos fazer com baixo custo e desenvolvendo dentro de casa o conhecimento necessário para gerir esses projetos.

Quando começamos, tínhamos um funcionário aqui, no centro do semiárido, e nenhuma mão de obra especializada disponível na região. Fomos capacitando as pessoas e não tivemos nenhum fundo de investimento para nos ajudar a chegar onde chegamos.

Estamos muito seguros do que estamos fazendo e acredito que no momento certo o mercado entenderá. Não estamos fazendo isso para proporcionar resultados de curto prazo. A empresa tem um projeto para crescer e se perpetuar. Quem quiser fazer parte do nosso negócio não terá prejuízo. No momento certo, vamos deixar todos contentes.

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RAIO-X

José Roberto Nogueira, 56

Nascido na zona rural de Pereiro (CE), fez um curso técnico de eletrônica por correspondência e trabalhou por quatro anos na Embraer antes de abrir o primeiro negócio. Começou vendendo computadores e antenas parabólicas e fundou a Brisanet em 1998.

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