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Para disputar Mundial de jiu-jítsu nos EUA, jovem atleta vende balas em sinal da Barra

Lilian Fernandes
·3 minuto de leitura

RIO — Na minibiografia do Instagram de Wilian Rocha (@wilianrochajj) há uma citação em inglês: "Quem não tem coragem de arriscar não conquista nada na vida”. A frase dá a dimensão da determinação do jovem atleta de jiu-jítsu, de 19 anos, morador da comunidade Vila da Paz, no Itanhangá: disposto a conseguir dinheiro para disputar o Mundial 2021 na Califórnia, ele está indo à luta com todas as estratégias que consegue imaginar. Criou uma rifa cujo prêmio é uma bolsa de viagem, abriu um crowdfunding no site Vakinha, trabalha no que aparece (faz entregas, atua como garçom) para juntar dinheiro. E diariamente, paramenta-se com seu quimono, tira algumas das medalhas que ganhou da prateleira e vai vender jujuba num sinal na altura do número 980 da Avenida Embaixador Abelardo Bueno, oferecendo as guloseimas e contando sua história aos motoristas que demonstram interesse. A iniciativa vem chamando atenção inclusive de outros atletas, como Laura Miccuci, do nado artístico, que publicou sobre ele no stories do Instagram.

— Levo as medalhas para as pessoas verem que não quero enganar ninguém, que os títulos são reais — conta Willian.

O tom de voz é baixo, tranquilo. O jovem conta que treina com o objetivo de ser atleta profissional há três anos e que, em novembro, conquistou seu mais recente título importante: venceu a categoria pluma do campeonato sul-americano realizado pela Confederação Brasileira de Jiu-Jítsu Desportivo. A meta, agora, é juntar R$ 10 mil, para tirar o visto e pagar os custos com passagem, hospedagem, alimentação e, quem sabe, algum imprevisto em solo americano durante o Mundial. A disputa costuma acontecer em maio, mas, devido à pandemia de Covid-19, o calendário deste ano ainda está para ser confirmado. Passaporte, ele já tem: conseguiu tirar com o que ganhou numa primeira temporada no sinal da Abelardo. Aliás, o local, distante uma hora de sua casa, foi escolhido a dedo por ser simbólico:

— É ali que fica o Parque Olímpico, aqueles monumentos, as arenas. E tem muito campeonato de jiu-jítsu ali — explica.

Enquanto sonha com a viagem para o campeonato e a faculdade — quer conseguir uma bolsa pra cursar Educação Física e um dia ter a própria academia —, Wilian treina na Nova União Recreio, sob o comando de Rafael Pizzali, a quem pede conselhos e chama de “paifessor”. Até voltar para o sinal, fazia musculação pela manhã e treinava à tarde e à noite. Costuma chegar em casa por volta das 23h, depois de pegar o BRT, fazer baldeação e em seguida tomar outra condução no Jardim Oceânico para chegar em casa. Agora, está procurando conciliar esta rotina e a venda de balas para não prejudicar seus treinos.

— Ele é muito talentoso e dedicado, além de ter ótimo coração— elogia Pizzali.— Wilian me ajuda a dar aula, a limpar a academia. E eu o ajudo como posso, oferecendo estrutura para treinar.

O professor conta que outros dois alunos promissores da academia, Mayke Duraes e Julia Tarquato, também estão procurando arrecadar dinheiro em sinais de trânsito e por financiamento coletivo para o Mundial da Califórnia. Se não for possível, o foco se voltará para o campeonato europeu, a ser disputado em janeiro de 2022, em Portugal.

— Mas eles precisam disputar outros campeonatos importantes antes, para se prepararem para os de fora do país. Não basta só treinar — observa.

A mãe de Wilian fica preocupada com seus horários, mas ele procura acalmá-la, para não perder seu apoio. Mal sabia ela que estava selando o destino do filho quando o matriculou, ainda criança, em um projeto que tinha aula de jiu-jítsu para dar vazão à sua energia. Wilian diz que procura não pedir nada a ela, que sempre o ajudou como pôde, até para evitar que ela fique constrangida se precisar dizer, em algum momento, que não vai ter como ajudá-lo com o que ganha como diarista:

— O sonho é meu, eu é que tenho que correr atrás, né?