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Para analistas, Copom deixou a porta aberta para mais cortes na Selic

Lucas Hirata e Marcelle Gutierrez

Economistas acreditam que a taxa básica de juros possa encerrar o ano em até 1,5% A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa básica de juros para 2,25% na reunião desta quarta-feira não deve encerrar os cortes da Selic neste ano. Embora enxerguem um tom de cautela no comunicado, analistas acreditam que o Banco Central deixou espaço para um patamar mais baixo.

O economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, diz não haver nenhum argumento para manutenção no nível atual. Ele espera mais dois cortes de 0,25 ponto, o que levaria a taxa para 1,75%. “O único ponto que o comunicado coloca como um risco para a continuidade do corte de juros é o fiscal, variável que poderia elevar o juro estrutural”, explica. “Mas, enquanto a inflação continuar caindo, significa que o juro ainda está longe desse nível estrutural e que, portanto, há espaço de sobre para cortar a Selic novamente.”

O comunicado da decisão do Copom de hoje, de reduzir o juro em 0,75 ponto para 2,25% ao ano, trouxe a “cautela tradicional” por parte do Banco Central, que alertou para os riscos fiscais elevarem o prêmio de risco cobrado pelo mercado.

Também diz que o estímulo creditício e as medidas de recomposição de renda trazem uma certa “assimetria” ao balanço de riscos. “Mas em que cenário isso vira inflação? Com uma crise como essa, você pode dar de barato que haverá um período de três a seis meses muito ruim de atividade”, diz. “Acho que eles [os integrantes do Copom] têm uma leitura errada da natureza da crise.”

Para o economista, há espaço para a Selic ficar entre 1,50% e 1,75%. Em seu cenário, o PIB terá uma contração de 7,4% este ano, enquanto a inflação deve ficar ao redor de 1,58%.

Na avaliação do economista-chefe do Banco Haitong no Brasil, Flávio Serrano, o colegiado adotou um tom mais duro que o mercado de juros futuros parecia precificar.

“ O Copom sinaliza que estamos muito próximos do fim. É claro que existem muitas incertezas. De um lado, a extensão da pandemia pode gerar queda adicional da demanda, o que geraria a necessidade de novos cortes. Por outro lado, os estímulos já aplicados e o quadro fiscal pior geram uma assimetria no balanço de riscos para cima”, diz o profissional.

“Se nada mudar radicalmente para a próxima decisão, a expectativa fica entre manutenção e leve queda de 0,25 ponto percentual”.

Inflação

A redução da projeção para a inflação em 2021 pelo Copom é o sinal de que há um espaço para um novo corte na Selic na próxima reunião, na avaliação de Daniel Weeks, economista-chefe da Garde Asset Management. Ele espera um corte de 0,50 ponto percentual.

No cenário híbrido, o comitê estima o IPCA em 3,2% em 2021. A estimativa anterior, segundo o economista, era de 3,4%.

Segundo Weeks, a projeção da Garde é de um corte de 0,5 ponto na próxima reunião e depois de mais 0,25 ponto, chegando a Selic em 1,5% ao ano no fim de 2021.

Apesar dessa sinalização na inflação, Weeks pondera que o cenário é de incertezas, com o Copom indicando que é preciso aguardar os efeitos sobre o PIB das medidas de incentivo da economia, principalmente dos programas de incentivo ao crédito e do programa de auxílio emergencial.

“Basicamente, se fez muita coisa e não sabe os efeitos sobre o PIB”, diz, acrescentando: “O BC vai esperar mais 45 dias para avaliar os impactos da pandemia e incertezas de como será a recomposição de renda”.

Na opinião de Weeks, o programa de auxílio emergencial terá um “efeito artificial” no PIB, como visto com a liberação do FGTS no governo de Michel Temer. Assim, evitará uma queda ainda mais brusca do PIB agora, mas com um processo de retomada gradual à frente.

“Como esses estímulos saem no ano que vem, vemos crescimento do PIB gradual, de 3%, e terá taxa de desemprego alta. Por isso, acho que continua cortando na próxima reunião”, diz.

Para a economista-chefe da ARX, Solange Srour, um corte de 0,50 ponto na próxima reunião deve vir acompanhado do discurso de manutenção por um tempo.

Solange chama a atenção para o momento crucial que o Brasil passa, no qual é necessário olhar para os gastos públicos, pois juros baixos podem afetar os títulos públicos, já que o prêmio não compensa o risco.

“O limitador do corte de juros não é somente o descasamento de ativos e passivos de bancos, mas quando o juros está muito baixo e não compensa o risco, os detentores saem dos títulos”, comenta.

Riscos

A tendência de que a taxa possa cair mais é um sinal de alerta pelos impactos que pode ter no câmbio. O economista-chefe da JGP Capital, Fernando Rocha, avalia que o Banco Central estará tomando um risco desnecessário se seguir esse script.

Num ambiente de piora fiscal, a política extremamente frouxa aumenta a volatilidade do mercado, especialmente do câmbio, e o benefício de um juro de curto prazo menor é relativamente pequeno para a economia.

A iniciativa, que trouxe a taxa básica para inéditos 2,25% ao ano, não deve servir para estimular o consumo nem o crédito na visão do especialista, e além disso tem o efeito colateral de expulsar o capital externo do financiamento da dívida mobiliária.

“Os estrangeiros já tiraram muito dinheiro daqui, a participação na dívida está perto de 8% e já chegou a 20%, e de ações eles também mandaram muito dinheiro embora. O mercado está ficando muito na mão dos brasileiros, se houver algum problema amanhã [com a inflação] e o BC tiver que subir juros, até os brasileiros podem se sentir incomodados e sair, é um pulo para um equilíbrio ruim.”