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'Pantanal' virou lenda ao tirar coroa da Globo, mas fazer um remake é uma boa ideia?

Guilherme Machado
·6 minutos de leitura
Juma Marruá (Cristiana Oliveira) em Pantanal/ Foto: Divulgação
Juma Marruá (Cristiana Oliveira) em Pantanal/ Foto: Divulgação

‘Pantanal’ é um caso muito curioso na teledramaturgia nacional. Exibida originalmente em 1990 pela Rede Manchete, a trama de Benedito Ruy Barbosa é um dos poucos casos de uma produção feita fora da Globo que ainda é amplamente comentada até hoje. Tanto, que a própria Globo se rendeu a esse fenômeno e anunciou que fará um remake da novela, deixando o público completamente inquieto — há dias se comenta sobre como poderá ser essa nova versão. Da onde vem tanta importância? Bom, a própria Globo é um bom ponto de partida.

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Durante décadas, a Globo foi uma líder absoluta, em tempos que não era difícil uma novela dar mais de 60 pontos no Ibope. A questão é que a Globo era uma unanimidade: só ela dava audiências altas desse jeito. Tudo mudou por conta de Benedito Ruy Barbosa, que, cansado da Globo esnobar a trama que havia escrito sobre uma das regiões mais misteriosas do Brasil, decidiu levar seu projeto para outra emissora.

Foi quando respondeu ao chamado de Jayme Monjardim, então diretor artístico da Manchete, e juntos começaram a trabalhar no projeto. Resultado? A novela conseguiu mais de uma vez superar 40 pontos de audiência e tomou a liderança da Globo, uma vez que era exibida às 21:30, após o fim da novela da Globo (‘Rainha da Sucata’). Constantemente, “Pantanal” conseguiu derrubar a linha de shows da Globo.

Por isso, a novela galgou um espaço permanente no imaginário popular, e essa nostalgia é crucial para seu sucesso.

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“Há novelas - e filmes, livros, peças de teatro - que ocupam um lugar no imaginário do público. Mesmo entre aqueles que não chegaram a assisti-lo. ‘O Direito de Nascer’, ‘Selva de Pedra’, ‘O Bem Amado’, ‘O Casarão’, ‘Pantanal, ‘Dona Beija’ entram nesta lista. Qualidade à parte - e são todas ótimas - viram uma referência, um índice não só da novela real e a experiência de assisti-la, mas também de um tempo mítico. Quando sentimos saudades de alguma coisa, em grande medida estamos com saudades de nós mesmos”, diz o dramaturgo e crítico de arte Aimar Labaki sobre a permanência de ‘Pantanal’ no imaginário popular.

Doutor em teledramaturgia brasileira e latino-americana pela USP e pós-doutor pelo Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade de Lisboa, Mauro Alencar explica que “Pantanal”, além de trazer um cenário muito brasileiro que mostra a urgência da preservação do meio ambiente, também trouxe uma nova linguagem para telenovelas, com uma trama recheada de misticismo, que ajudou a cativar o público.

“Foi uma novidade absoluta, tanto em termos de história quanto de narrativa audiovisual -- a cargo de Jayme Monjardim. Apenas incluiria a questão mítica, que nos leva ao fantástico e lendário, o folclórico, ao lado do místico, representado pelo misterioso da mata, da selva, onde reina o espiritual. Ressalto que o esplendoroso tema de abertura, Pantanal (da banda mineira Sagrado Coração da Terra, liderada por Marcus Viana), já nos conduzia à importância vital da região pantaneira: “Um tesouro perdido entre nós” e que a novela de Benedito Ruy Barbosa produzida pela Manchete revelou.”

O personagens de ‘Pantanal’ também explicaram muito de seu sucesso. Juma, em especial, era uma figura forte, destemida e que tinha ainda um fato mágico: ela se transformava, literalmente, em uma onça quando se sentia atacada.

“A personagem Juma, de intensa magia, que nos remete imediatamente ao realismo-mágico tão celebrado na literatura latino-americana, é o símbolo maior de todo o misticismo que percorre a trama. Ao virar onça, tanto no comportamento (daí o Marruá) quanto fisicamente (mítica e ao mesmo tempo mística) ela representou a pantaneira valente, de armas nas mãos, para quem o ‘bicho homem é o único perigo real (seus pais e irmãos foram assassinados em conflitos de terras). Portanto, Juma simboliza a união perfeita entre a mulher encarnada e o feminino mítico”, discorre Mauro Alencar, que também destaca o trabalho na atriz Cristiana Oliveira no papel.

TV Globo fará remake de Pantanal, novela que foi um dos maiores sucessos da TV Manchete.
TV Globo fará remake de Pantanal, novela que foi um dos maiores sucessos da TV Manchete.

“Com tal mistura de sensualidade e carisma a pairar sobre o inconsciente coletivo, apenas Gabriela de Sônia Braga até então. Enfim, com os personagens de Pantanal, ficou claro que a espécie humana não é melhor nem pior que outra, apenas diferente”, enfatiza o especialista.

Atualizando um clássico

Tudo isso mostra por que ‘Pantanal’ é uma obra tão relevante até hoje. Na verdade, de certa forma, parece ser ainda mais relevante discutir alguns dos temas da trama nos dias atuais, tendo em vista as queimadas no Pantanal e a luz que se coloca cada vez mais no tema da preservação ambiental.

“Creio que é uma excelente ideia. Em particular pela questão ecológica estar na ordem do dia; mais do que isso, uma questão imperativa para a sobrevivência da espécie humana e animal e por ser uma história rica de possibilidades artísticas e estéticas. Por outro lado, do ponto de vista da indústria do entretenimento, muito me agrada que a Globo, gigante do ramo, com alcance internacional, se proponha a produzir um clássico que poderá perder-se com o tempo”, defende Mauro Alencar.

Já Aimar Labaki tem uma visão mais pessimista em relação ao remake: “Não é uma boa ideia. Não só por causa das comparações. O ponto é que o momento histórico que permitia que aquele produto cultural tivesse aquela repercussão já não existe. E, neste caso específico, na hora de gravar, provavelmente nem o Pantanal exista mais”.

Para o dramaturgo, o interesse da Globo em fazer um remake da novela é, na verdade, um efeito colateral de uma desorientação na qual a TV brasileira se encontra atualmente, o que justifica uma baixa qualidade das produções que se viu na TV nos últimos anos.

“As raríssimas exceções são acidentes de percurso, produtos que foram feitas contra o desejo de grande parte dos gestores. Amor de Mãe de Manuela Dias é um exemplo. É inovadora em vários sentidos. Tem muita liberdade de forma e conteúdo. Além de ser extraordinariamente bem escrita e dirigida. Órfãos da Terra, de Duca Rachid e Thelma Guedes é outro exemplo”.

“Remakes são opções de uma indústria que não quer correr risco. E uma indústria que não dá liberdade criativa a seus artistas. Que os entende como técnicos - e não como criadores. Remake é pros fracos”, defende Labaki.

Por outro lado, Mauro Alencar vê sim méritos no remake, sendo que, no fim do dia, é o remake também pode ser uma obra inteiramente nova.

“‘Uma velha nova história’, assim definiria o saudoso e grande diretor Antunes Filho, sempre a revolver os clássicos do teatro. Um remake (lembrando que há vários estágios e inúmeras possibilidades para o recontar uma história), nunca será uma cópia do original porque ele passa pelo processo criativo de um novo autor, diretor; novos atores que emprestarão novas emoções aos personagens que também aguardam por nova produção a fim de encantarem plateias de um novo século.”

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