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Pantanal em chamas: as perdas afetivas e financeiras de três ribeirinhos que vivem às margens do Rio Cuiabá

Redação Notícias
·3 minuto de leitura

Por Leandro Barbosa, Gabriel Schlickmann e Tobias Costa, do Projeto Solos

O produtor rural Ernesto Nunes Caneti, de 59, precisou lidar sozinho com o fogo que atingiu o curral comunitário dos ribeirinhos pantaneiros que fica em seu terreno, à beira do Rio Cuiabá, em Barão de Melgaço, Mato Grosso. Era impossível para o restante da comunidade ajudá-lo uma vez que também enfrentavam o fogo que se aproximava de suas casas.

Uma realidade que se tornou corriqueira às comunidades ribeirinhas da região. De 1 de janeiro a 18 outubro deste ano, de acordo com o Instituto Centro de Vida, o ICV, cerca de 614 mil hectares da cidade foram consumidos pelo fogo, o que corresponde a 56% da área do município. Com isso, o meio de sobrevivência dos produtores rurais da região foi fortemente atingida.

Essa reportagem é uma parceria entre o Yahoo e o Projeto Solos. Para conhecer essa iniciativa de narrativas independentes acesse projetosolos.com

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Vinte e três pantaneiros dividem o curral com cerca de 600 bois — 40 deles morreram devido ao fogo e seca que assolam o Pantanal. Segundo Ernesto, levando em conta o valor de bezerros e bois adultos que morreram, os produtores perderam no mínimo R$ 60 mil reais. Esse valor não leva em conta os gastos que eles terão com a reforma do curral e das cercas que foram queimadas. “Foi muito triste tudo o que aconteceu aqui. O fogo passava por baixo da terra. Eu jogava água em um lugar, olhava pra frente e via ele brotar em cinco, seis lugares diferentes”, contou Ernesto. Além disso, a seca também tem atingido o ganha pão dos ribeirinhos. “Além de não ter comida, porque o fogo queimou todo o pasto, a água dos corixos está secando. Os bois com sede acabam atolando em lugares que antes tinha água. E não são todos que da pra salvar, infelizmente!”.

“Minhas amigas morreram”

Próximo ao Ernesto, mora a pescadora e apicultora Vanilda Moraes. Desde 2005, quando fez um curso de apicultura, a pantaneira vê as abelhas como amigas. “A gente vai convivendo com elas, chega um momento que elas até se acostumam”, afirma Vanilda. Ela conta que foi possível proteger somente as caixas — onde as abelhas produzem o mel — que estavam próximas à sua casa. “Depois que o fogo passou aqui, minha filha foi ver as caixas que estavam mais longe e voltou dizendo que tinham queimado. Eu não tive coragem de ir ver”. Ela foi pela primeira vez às caixas queimadas com a equipe de repórteres do Projeto Solos e era nítido seu sentimento de luto. “Minhas amigas foram embora. Muitas morreram. Alguns enxames partiram. Eu não sei se elas vão voltar. Com essa seca não se vê mais flores no Pantanal. O que tinha vivo o fogo queimou. Como é que elas vão sobreviver?”.

Caminho interrompido

O fogo destruiu a única ponte que permite o caminho por terra da comunidade ribeirinha a Cuiabá. Um acesso foi criado para possibilitar o trânsito, mas, de acordo com os pantaneiros, ele só dura até as primeiras chuvas chegarem. É uníssono na comunidade que não ter a ponte encarece ainda mais a entrega de materiais, o carregamento de bois na época de cheias do Pantanal, e também implica na praticidade de acessar a capital do estado. “Quem leva o gado para fora precisa da ponte. Quem vem de carro de Cuiabá pra cá precisa da ponte. Cavaleiro que vai pra lá [Cuiabá] precisa da Ponte. Tudo é através da Ponte”, afirmou a ribeirinha Benedita de Alencar Taques.

A reportagem tentou contato com a prefeitura de Barão de Melgaço, mas não teve retorno. O e-mail disponível do site do órgão retornou e o telefone indicado não foi atendido.