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Pantanal: a “banheira” brasileira

Redação Notícias
·7 minuto de leitura
Alessandra Souza/Projeto Solos
Alessandra Souza/Projeto Solos

Por Gustavo Basso, do Projeto Solos

Enquanto mais de um quarto do Pantanal ardia em chamas ao longo deste ano, o proprietário de terra em Mato Grosso do Sul Armando Lacerda não se preocupava que o fogo invadisse seus 9 mil hectares. “O incêndio vinha forte avançando nesse inverno, mas quando chegava no alagado, apagava sozinho. Eu chamo minha fazenda agora de Arca de Noé, porque onde acha que estão hoje os bichos, as aves, que fugiram do fogo?”, conta o agora guia turístico de 66 anos, descrevendo a situação das suas terras.

Desde 1997, o Porto São Pedro, no coração da planície pantaneira, não seca; o rio Taquari, próximo dali, arrebentou da sua calha devido ao assoreamento, inundando permanentemente uma área de mais de 6 mil km2, causando o mais grave problema ambiental e socioeconômico do Pantanal. Na cheia, são mais de 19 mil km2 — uma área quase igual a de Israel — debaixo d’água em um desastre iniciado na década de 1970, com a expansão agropecuária pelo Cerrado brasileiro fomentado pelo governo do general João Figueiredo e seu lema “plante que o João garante”. “O leito original do Taquari virou uma estrada, simplesmente não existe mais”, diz Lacerda.

Essa reportagem é uma parceria entre o Yahoo e o Projeto Solos. Para conhecer essa iniciativa de narrativas independentes acesse projetosolos.com

Leia mais sobre o Pantanal:

Se 2020 mostrou que o fogo é uma ameaça à manutenção do menor bioma brasileiro, os últimos 50 anos mostram que a água pode ser um problema tão grande ou maior quando lidada de modo irresponsável. Os planaltos que circundam a planície pantaneira funcionam como uma caixa d’água. Enquanto o índice pluviométrico em Cuiabá, por exemplo, é de 1.800mm ao ano, em Corumbá, no coração do Pantanal, é de apenas 500mm, ou seja, há um déficit de água muito grande na planície, que não possui nenhuma nascente na região que é considerada uma das maiores planícies alagáveis do mundo.

Com 151 mil km2 apenas no Brasil, ou 210 mil km2 se somar a área do bioma nos vizinhos Paraguai e Bolívia, o Pantanal é uma espécie de banheira, onde águas de toda a bacia do Alto Paraguai, o principal rio da região, convergem e acumulam. “É um corredor ecológico com encontro de espécies. Se algo afeta o Cerrado, a Amazônia, o Chaco, afeta também o Pantanal”, comenta o botânico da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) Geraldo Damasceno Jr.

Os especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a principal importância ecológica do pantanal é essa característica de corredor ecológico que permite a confluência de espécies de quarto biomas diferentes, formando ali um grande banco de sementes.

Alessandra Souza/Projeto Solos
Alessandra Souza/Projeto Solos

Nas áreas mais planas, a pantanal do Paiaguás, área afetada pelo alagamento permanente do Taquari, a declividade média é de 1,1 cm a cada quilômetro. Nesse ritmo, para descer a altura de uma casa seria necessário viajar do Chuí até Manaus. Esse terreno plano, junto com a vegetação em grande parte rasteira, é uma das coisas que torna o Pantanal especial para o biólogo Gustavo Figueiroa, da ONG SOS Pantanal. “A diversidade é jogada na sua cara; você pode acordar de manhã e rodar alguns quilômetros para avistar uma centena de espécies de aves, mais de 20 espécies de mamíferos, algo que não é possível em lugar nenhum, nem mesmo na Amazônia por causa da sua floresta fechada”, explica.

Foi no pantanal do Paiaguás que ocorreu o maior desastre socioambiental da região. Segundo relatório da Embrapa, que analisou todos os impactos e possíveis soluções, publicado em 2006, a ação humana no curso do rio acentuou a deposição de sedimentos, gerando canais de extravasamento nos barrancos, localmente denominados “arrombados” ou “bocas”. “Esse fenômeno provocou profundas alterações socioeconômicas e ambientais nas sub-regiões de Paiaguás e Nhecolândia, expulsando várias famílias de suas propriedades, promovendo intensa migração para as cidades, comprometendo a qualidade de vida dessas famílias, aumentando o isolamento físico e dificultando o acesso entre as comunidades e destas em relação às cidades de Corumbá e Ladário”.

Um Cerrado inundado e biodiverso

Gabriel Schlickmann/Projeto Solos
Gabriel Schlickmann/Projeto Solos

Apesar de não ter a maior biodiversidade em número de espécies, o Pantanal apresenta a maior densidade de espécies de mamíferos por km² do mundo: são 0,74 animais por km2, oito vezes mais que a Amazônia e três vezes o observado na Mata Atlântica. Entre os mamíferos que chamam o Pantanal de casa está a onça-pintada, maior felino da América. Como as demais espécies do Pantanal, não é endêmica, ou seja, não é encontrada exclusivamente por lá. A onça-pintada habita somente florestas tropicais com forte presença de água. No Brasil, está ligada à floresta Amazônica e ao ecótono pantaneiro.

Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas

Um ecótono é uma zona de transição que pode ser tanto local, como o encontro de dois tipos de vegetação diferentes dentro de uma mesma floresta, quanto continental. Áreas assim costumam ter uma riqueza de espécies maior, já que recebem indivíduos de mais de um ambiente. “Como zona de transição, o Pantanal se encaixa mais como uma área de Cerrado inundável, porque a fisionomia predominante é de gramíneas e poucas florestas”, explica Erich Fischer, professor do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da UFMS. “Nesse ínterim, há tanto espécies amazônicas ao norte do Pantanal quanto outras do Chaco e do Cerrado.” Ao todo, já foram mapeadas 263 espécies de peixes, 122 de mamíferos, 93 de répteis e 656 de aves no menor bioma do país.

Gustavo Basso/Projeto Solos
Gustavo Basso/Projeto Solos

Esta diversidade e facilidade de avistamento é atrativo para o turismo de natureza na região, que aos poucos vem se desenvolvendo como alternativa à pecuária extensiva, em declínio na região desde os anos 1970 devido o apoio governamental daquela época à criação de gado nos planaltos do Cerrado e Amazônia. “O que houve no Pantanal foi um roubo legalizado; fomos saqueados como se tivéssemos sofrido um terremoto, um tsunami, e depois vieram pegar o que sobrou do estrago”, reclama o ex-pecuarista Lacerda. “Alagaram todas as terras com agricultura que promoveu desmate no planalto, e aí, quando já não havia o que fazer, compraram o gado a um preço irrisório; e hoje é impossível concorrer com o planalto a menos que haja políticas como uma criação de denominação de origem para o boi pantaneiro”, comenta.

Com uma vegetação composta majoritariamente por campos — secos e sazonalmente alagados —, o Pantanal tem áreas de pasto natural, utilizado desde a transição dos séculos 18 para o 19. Com o término do ciclo do ouro, a pecuária expandiu-se pela região do Pantanal, tendo as práticas de manejo adaptadas para as peculiaridades regionais. O bovino ibérico, trazido pelos colonizadores, gradativamente se adaptou ao ambiente, dando origem ao gado Pantaneiro, ou Tucura, do qual o charque e couro eram os principais produtos, exportados através do rio Paraguai.

Essa vegetação campestre alagada durante parte do ano, que impede a grande monocultura mecanizada, somada a uma pecuária adaptada a essa realidade fez com que o Pantanal, mesmo após dois séculos de ocupação humana, seja a região mais preservada do país. São 84% do território preservado, contra 80% da Amazônia e 53% do Cerrado. Com a diferença de área: os 20% da Amazônia, sobretudo para pastagem, equivalem a quase seis pantanais. Ou quase o Mato Grosso inteiro.

Confira abaixo os mapas dos biomas:

Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
Divulgação/MapBiomas
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Pesquisadora do Centro de Pesquisas do Pantanal e uma das maiores especialistas no ambiente da região, Cátia Nunes da Cunha explica que o clima na verdade não difere do visto no Cerrado brasileiro, e quanto mais ao sul, no entanto, mais semelhante ao semi-árido da caatinga. “O que muda é a vegetação por causa dos pulsos de expansão e retração dos alegados, um espetáculo sazonal que em tese ocorre todo ano”. A ex-professora da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso) foi precursora em alertar que o fenômeno La Niña, em conjunção com o desmatamento da Amazônia e do Chaco — as duas maiores florestas do continente vem sofrendo com graves queimadas nos últimos anos — e o aquecimento global podem estar provocando um novo período de secas prolongadas.

O último semelhante ocorreu entre 1964 e 1975, seguido de inundações recordes “que fizeram do Pantanal a paisagem que todo o mundo conhece por meio da divulgação e do turismo”. “O Pantanal possui uma configuração muito especial por ser dois lados de uma moeda: ele só existe com essa invasão e retração das águas, a partir do momento que se perde um deles, se perde o Pantanal como é”, alerta a pesquisadora.