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Pandemia pode agravar desigualdades, diz Nobel Angus Deaton

Por Véronique DUPONT
Angus Deaton durante entrevista em 8 de setembro de 2016 em Paris

A pandemia de coronavírus revelou as enormes desigualdades existentes no mundo, que podem ser agravadas ainda mais, adverte o britânico Angus Deaton, vencedor do Prêmio Nobel de Economia e professor da Universidade americana de Princeton.

O mais urgente é reformar o sistema de saúde nos Estados Unidos e limitar o monopólio de grandes empresas de tecnologia no mundo pós-COVID, explica ele em entrevista à AFP.

Pergunta: O que a pandemia de coronavírus revelou sobre as desigualdades?

As pandemias foram comparadas a raio X que tornam as desigualdades pré-existentes ainda mais visíveis.

As pessoas mais qualificadas têm empregos que podem continuar exercendo quase da mesma maneira. Podemos conversar com as pessoas no Zoom e receber pagamento da mesma forma. No caso dos trabalhadores menos qualificados, os chamados trabalhadores essenciais (entregadores, motoristas, caixas, pessoal médico...) arriscam a vida por causa da COVID-19, e os outros correm o risco de perder o emprego.

A taxa de mortalidade também aumentou para pessoas sem diploma do ensino superior - especialmente trabalhadores essenciais expostos, porque não estão confinados - enquanto caiu para os graduados do ensino superior. E isso vai piorar.

Além disso, há um aspecto racial nessas desigualdades. [...] Nisso, também, a COVID-19 piorou: as taxas de mortalidade são muito maiores para afro-americanos do que para brancos. E, quando olhamos para o todo - embora ninguém pudesse prever as revoltas [que ocorreriam nos Estados Unidos após a morte de George Floyd, um afro-americano sufocado por um policial branco] - não se pode dizer que isso não tenha nada a ver com a COVID-19.

P: Quais são as mudanças necessárias no mundo pós-COVID?

Somos alguns que esperam que o sistema médico americano em sua forma atual seja vítima [da pandemia], as pessoas perceberão que isso não pode durar, porque quem perde o emprego também perde o seguro de saúde, justo quando mais precisa. Muitas pessoas foram curadas da COVID-19 e de repente se viram com enormes contas médicas que não podem pagar. Mesmo as pessoas que têm seguro, cada vez mais seguradoras têm isenções, ou reduzem a cobertura.

Existem muitos sistemas diferentes [para fornecer cobertura universal, mantendo os custos sob controle]. Os Estados Unidos poderiam escolher o sistema canadense, o sistema francês, o suíço, o alemão, o holandês. Qualquer coisa é melhor do que fingir que o mercado pode fornecer um sistema de saúde, porque não é assim. E isso implica uma [...] grande transferência de dinheiro de pessoas comuns para pessoas mais ricas. E esse foi um vetor importante de destruição e desigualdades. [...] Um dos obstáculos nos Estados Unidos para um melhor Estado de Bem-Estar foi a questão racial, talvez o atual movimento de protestos [Black Lives Matter] mude isso.

Mas o mais provável é que nada mude e, nesse caso, a pandemia terá exacerbado as desigualdades.

P: Que outras medidas podem ser tomadas para tentar reduzir as desigualdades?

Estou muito preocupado com o fato de o desemprego durar muito e com isso reforçar a participação do capital no PIB [em relação à do trabalho]. Receio que as grandes empresas de tecnologia vão prosperar, enquanto outras empresas menores vão falir e que uma consolidação industrial ainda mais ampla nos Estados Unidos e na Europa exacerbará as desigualdades.

Quando temos empresas cada vez mais monopolistas, o caminho é marcado para que o PIB seja redistribuído para os capitalistas. A menos que o sistema entre em colapso e tenhamos uma grande revisão, os indicadores são voltados para o agravamento das desigualdades.

Portanto, devemos urgentemente fazer leis anticartéis contra as 'big tech' [grandes empresas de tecnologia] e também contra os métodos policiais em bairros desfavorecidos.