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Pandemia leva umbanda e candomblé a uma encruzilhada digital

·7 min de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 04.03.2018 - Festividade de religiões afro como Umbanda e Candomblé, na Igreja da Penha, zona leste de São Paulo. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 04.03.2018 - Festividade de religiões afro como Umbanda e Candomblé, na Igreja da Penha, zona leste de São Paulo. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Umbandista desde 2018, o professor de ioga Wagner Lanzelotti Filho, 32, procurou neste ano um pai de santo do candomblé a fim de ter uma orientação sobre problemas pessoais -e também uma experiência diferente do jogo de búzios. Por causa da pandemia, o oráculo foi aberto por videochamada, a uma distância de 25 km entre sua casa em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e o bairro carioca da Tijuca, onde estava o sacerdote.

"Não achei tão estranha a ideia da videochamada, muito embora ache que não teve exatamente toda a energia que seria possível ter", diz Lanzelotti. "Não teve a entrada no lugar, o olho no olho, mas para mim foi tranquilo. Virou uma forma de matar uma curiosidade que eu tinha."

Bem menos visíveis nas mídias, as tradições de matriz africana -que abrangem cerca de 5 milhões de brasileiros, segundo o Datafolha- acabaram por abrir caminhos digitais na pandemia, mesmo que timidamente e longe da unanimidade.

Transmitir as cerimônias de seu terreiro de umbanda já era uma ideia cogitada por pai Denisson d'Angiles, 45, antes mesmo da pandemia. Quando o governo de São Paulo fechou os templos religiosos na quarentena, o sacerdote decidiu que era hora de ir à prática no terreiro CEU Estrela Guia, que atendia de 300 a 400 pessoas no bairro da Saúde, zona sul de São Paulo. Hoje, as giras ao vivo têm uma média de 15 mil visualizações por transmissão.

"Antes eu tinha certo medo porque, de alguma maneira, ia estar expondo a minha própria vida familiar", afirma Denisson, que conduz o terreiro ao lado de sua mulher, Kelly. "Mas em março de 2020 a gente instalou câmeras, reforçamos a rede wifi e levamos a ideia à frente, via Facebook. Tudo isso para levar um axé às pessoas, e a repercussão foi ótima."

Logo na primeira transmissão, porém, o religioso conheceu o lado virtual de um velho problema. Surgiram ofensas de pessoas que denunciavam algo "demoníaco", enquanto invocavam Jesus e Deus. Ao mesmo tempo, a live caiu por três vezes.

"Nós chegamos a entrar em contato com o Facebook, que recomendou fazer queixa à Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e de Intolerância). Mas a reação é muito morosa. Tudo isso que estamos fazendo é muito novo, e esse pioneirismo acaba pagando um certo preço. Hoje melhorou, mas ainda tem [intolerância]."

De qualquer forma, Denisson achou um jeito de se defender: durante as transmissões das giras, há filhos de santo que "patrulham" a transmissão, fazendo uma espécie de barreira digital, comentando e dissuadindo quem chega causando distúrbio.

Esse tipo de situação fez mãe Marilena Mattos, líder umbandista há 48 anos na Casa de Cláudia, em São João de Meriti (Baixada Fluminense), optar por postar apenas gravações em seu canal no Facebook.

"No dia de Ogum, a gente filma a alvorada e sobe, assim como filmamos a feijoada do Preto Velho. Mas prefiro não transmitir ao vivo porque muitas pessoas podem acabar vendo numa situação fora de contexto. A pessoa vai interpretar aquilo dentro do estado de espírito dela, dos preconceitos dela, e aí a gente pode se ver em situações desagradáveis. E tem uma questão da energia, do axé, que não vejo como chegar a quem assiste", afirma ela, que diz respeitar a opção feita por Denisson.

EBÓS VIRTUAIS

"Os cultos de matriz africana viveram duas pandemias nesses dois anos: a da Covid e a da perseguição religiosa", afirma o babalaô e doutor em história comparada pela UFRJ, Ivanir dos Santos, 67.

Ele recorda que, no caso do candomblé, a pandemia cancelou as festas públicas, mas nada impedia os rituais em matas e cachoeiras. Porém, o babalaô afirma não crer que seja possível a transmissão ao vivo dos rituais: "Trata-se de uma religião do segredo: não faz sentido expor rituais que têm um fundamento no mistério."

Ele admite, no entanto, que muitos babalorixás (pais) e ialorixás (mães de santo) passaram a oferecer a leitura de oráculos, como os búzios, de forma não presencial: alguns durante a videochamada, outros depois da consulta, entregando o resultado depois. Para o babalaô, uma rara atividade que o candomblé pôde adaptar.

"Abrir o oráculo sem a pessoa presente é algo que pode ser feito tranquilamente dentro da filosofia do axé. O sacerdote abre o jogo e entrega o resultado, com base na sua relação da pessoa com o orixá. Mas a gente sabe que há pessoas mais tradicionais que não abriram essa exceção."

Líder do terreiro Ilé Asé Oyábécy L'Aró, na zona oeste do Rio, mãe Ana Maria OmilL'aró, 50, é uma das que preferem não atender remotamente, embora não se considere tradicionalista.

"Nós não somos pessoas estáticas, a realidade muda. Antigamente, os candomblés eram liderados por mulheres que não tinham outra ocupação a não ser o trabalho doméstico. Hoje uma mulher lidera um culto e depois vai dar expediente no Fórum", conta, com entusiasmo e forte sotaque carioca.

Sobre a videochamada, ela usa uma lógica irresistível. "Se uma pessoa não precisa estar presente para que lhe façam um feitiço para o mal, ela tampouco precisa estar presente para que lhe façam o bem e lhe abram caminhos, você concorda?"

No entanto, afirma não se sentir "nesse patamar" digital. Diz que jamais se negaria a orar por uma pessoa que já frequentasse sua casa e que estivesse sem condições de ir até o ebé (terreiro). "Só não me sinto preparada para jogar os búzios, fazer uma oração, entrar numa egrégora [campo energético compartilhado] com pessoa que não conheço, ao mesmo tempo em que ligo o celular".

No extremo oposto, bem mais à vontade, está o pai Rodney Willliam, 47, que lidera o terreiro Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá, entre a zona norte da capital paulista e Mairiporã. Para ele, muitas coisas na pandemia vieram para ficar.

"Vou achar muito normal se as pessoas que moram em São Paulo, nas distâncias de São Paulo, com os riscos da cidade e a gasolina encarecendo, prefiram continuar com a videochamada. E eu vou confessar a você: eu também prefiro", conta o babalorixá, que é doutor em antropologia pela PUC-SP e diz ter cinco redes wifi em seu terreiro.

Para Rodney, a pandemia apenas massificou práticas que já tinham algum histórico. Ele se recorda que Pérsio de Xangô -seu mentor espiritual e influente líder do candomblé paulista, que morreu em 2010- se consultava nos búzios com a célebre mãe Menininha do Gantois (1894-1986), que morava em Salvador. Tudo se dava por meio de ligação interurbana, caríssima à época.

"A pessoa trazia as questões e recebia as respostas depois, porque era caro. Mas hoje a tecnologia superou esses limites", diz Rodney. "Eu, que tenho filhos em outros países e continentes, já utilizava a videochamada para o oráculo. O que aconteceu é que isso agora explodiu, porque as pessoas tiveram mais preocupações e incertezas. Costumo dizer que ninguém trabalhou mais nesse período que os psicanalistas e os pais e mães de santo."

Pai Rodney afirma que sofreu críticas de seus pares por começar a jogar búzios e fazer ebós (trabalhos) a distância -recebendo pagamentos e doações por Pix. Dessa forma, conta Rodney, gerou sustento para os trabalhadores do terreiro, mas também muito debate com líderes de cultos afro nos grupos de WhatsApp.

Para preservar o segredo ritual, Rodney opta por mostrar fotos nas transmissões, que explicam o que vai acontecer. Essa precaução se impõe a fim de não dar instrumentos para os inimigos virtuais da fé, que podem descontextualizar uma cena de sacrifício animal para fazer pregação contrária.

E segue os trabalhos digitais, citando a mesma lógica de mãe Ana sobre as bênçãos à distância, enquanto ecoa o sociólogo Reginaldo Prandi, que demarcou no livro "Os Candomblés de São Paulo" (publicado em 1991 e relançado pela Arché Editora) a tendência da cidade de trazer vanguarda para a fé.

"Uma vez que Ogum é o orixá da tecnologia e Exu, o da comunicação, não vejo limites para esse alcance. A tradição que não se adapta morre na sua pretensão de que as coisas hoje são exatamente como eram há cem, 200 anos. O candomblé muda porque as circunstâncias mudam."

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