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Pandemia aumentou percepção sobre importância da agenda ambiental, dizem especialistas

Rafael Rosas e Anaïs Fernandes
·5 minutos de leitura

Participantes do Fórum Valor Reconstrução Sustentável enxergam maior participação do setor econômico e destacam vantagens comparativas do Brasil na área Participantes do Fórum Valor Reconstrução Sustentável foram praticamente unânimes ao afirmar que a pandemia aumentou a percepção global sobre a importância da agenda ambiental. Da oportunidade para investimento em marcas e produtos com fabricação rastreável à possibilidade de uma nova agenda de desenvolvimento que contemple a redução do desmatamento, o discurso hegemônico é que a covid-19 deixou mais às claras os efeitos nocivos de se virar as costas às questões ambientais. “A pandemia deixou isso muito claro. A pandemia que traz crise econômica e humanitária em muitos lugares, ela é decorrente de uma crise ambiental. A pandemia está sendo um processo de aprendizagem muito intenso”, afirmou Carlo Pereira, diretor-executivo do Pacto Global. Ideia de ‘margem de segurança’ para Amazônia precisa ser assimilada, diz Arminio Carlos Nobre diz que nunca houve pandemia iniciada na Amazônia por ‘sorte’ Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), destacou que um um componente que alterou a percepção global sobre a situação ambiental foi o fato de o setor econômico ter entrado “maciçamente nesse jogo”. “Acho que esse foi o mote do setor financeiro, porque percebe a vantagem competitiva. E não é só para o futuro, está dando lucro agora”, frisou. “O setor financeiro gosta de números, de planilhar a coisa. E ele viu que legislação na Europa ligada a economia sustentável passou de 110 legislações para mais de 500 em dez anos. As sociedades foram amadurecendo e internalizando a ciência”, acrescentou Pereira. No mesmo painel de Ana e Pereira, o ator Marcos Palmeira, atualmente envolvido com o setor de produção de alimentos orgânicos, lembrou que houve um aumento de até 30% em alguns setores do mercado de orgânicos no mundo. “A pandemia mostra que é importante saber de onde vem os alimentos”, disse, pontuando que o crescimento no setor “não é à toa”. “Todos estão preocupados com a sua imunidade nesse momento.” O cientista Carlos Nobre, especializado em meio ambiente e em questões voltadas para o aquecimento global, foi além e afirmou que ainda não houve o surgimento na Amazônia de uma doença com possibilidade de se transformar em uma pandemia por uma questão de “sorte”. “Estamos perturbando o ambiente natural do planeta num grau tão gigantesco que esse equilíbrio ecológico começa a dar o troco”, disse Nobre, que participou do Forum Valor Reconstrução Sustentável. “Essa pandemia [de covid-19] é um vírus com baixa taxa de letalidade e altíssima taxa de transmissão e tem que nos chamar a atenção. Isso é um aviso para pararmos de perturbar o equilíbrio ecológico”, acrescentou Nobre, que trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de 1983 até se aposentar em 2017. O cientista Carlos Nobre diz que equilíbrio ecológico começa a dar o troco à perturbação do ambiente natural do planeta Leo Pinheiro/Valor Nobre ressaltou que a Amazônia possui inúmeros microorganismos que podem acabar entrando em contato com seres humanos a partir do aumento do desmatamento e queimadas. Ele lembrou que o novo coronavírus, causador da covid-19, se originou na Ásia, provavelmente a partir de morcegos e frisou que no ambiente amazônico há diversos tipos de coronavírus vivendo em morcegos. Ele detalhou também a iniciativa que engloba 160 cientistas e diversos representantes de outros setores da economia que preparam um estudo amplo sobre a Amazônia. Dividido em 3 partes, o estudo contará da formação do bioma até os anos 1960 na primeira parte; no período entre 1960 e a atualidade na segunda parte, quando aumentou o desmatamento na região; e vai propor soluções para a Amazônia na terceira parte. Ele explicou ainda que há outra iniciativa, a Amazônia 4.0 que propõe um processo moderno de bioindustrialização da Amazônia, com o uso de tecnologias modernas que tragam formas produtivas contemporâneas para a região, ajudando a preservar o bioma local. “País desenvolvido é país industrializado. O Brasil vem se desindustrializando há 25 anos”, afirmou. No último painel do dia, a diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, Ana Toni, afirmou que a pandemia aumentou “a necessidade de respeito à natureza”. “Já sabemos o que é lockdown. Imagina termos que fazer um lockdown climático”, ponderou, lembrando que grupos indígenas são exemplos de quem sempre se mobilizou sobre o tema. Mas, para ela, atualmente hoje os consumidores em geral estão “mais ativos” sobre o assunto. “A agenda ambiental é programa de Estado e não de um governo”, acrescentou. Oskar Metsavaht, presidente do Instituto-E, fundador da Osklen e embaixador da Unesco para sustentabilidade, concordou com Ana e ressaltou que a covid-19 mostrou “de forma clara que um pequenos vírus do outro lado do planeta pode sim criar uma crise planetária”. Para Joaquim Levy, diretor de estratégia econômica do Banco Safra, o Brasil tem condições de promover uma boa recuperação da sua economia após o choque da covid-19 e pode aproveitar esse movimento para construir uma sociedade mais robusta, inclusiva e equitativa. Na crise imediata da saúde, Levy diz que o país está se recuperando relativamente rápido, embora as taxas de óbito por covid-19 continuem altas. "Caiu um pouco, mas precisa cair muito mais para voltar à normalidade e haver confiança de que a economia vai poder pegar." Com os recursos injetados pelo auxílio emergencial, "temos condições, se nos organizamos e tivermos foco, para continuar a recuperação da economia", disse Levy, lembrando que diversos setores já estão produzindo acima do nível pré-covid. Ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BNDES, Levy também diz que o Brasil é um dos países no mundo que mais têm vantagens comparativas para uma economia de baixo carbono e limpa. O Brasil tem um vasto conhecimento, por exemplo, de fontes renováveis de energia, ele menciona. "As oportunidades estão aí, a gente precisa se organizar, focar. O Brasil vive com taxa de juros bastante amiga, o que facilita esses investimentos, mas isso é tudo investimento de longo prazo, então precisa ter uma orientação e confiança das pessoas", afirma. Para Metsavaht, o Brasil precisa trabalhar o “branding”, melhorando sua marca no mercado global. Segundo ele, ainda seguimos trocando riqueza “por espelhinhos”, mas há espaço para agregar valor a marcas de alimentos saudáveis, transformando commodities em produtos com maior valor agregado.