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Reciclagem aumenta na pandemia, mas consumo de embalagens também

neighborhood Assistance during Coronavirus Pandemic - Illness

Por Nathan Fernandes

A corrida pelo papel higiênico foi um dos marcos do início da quarentena do novo coronavírus. Com medo de ficar sem abastecimento, as pessoas alçaram um simples item de banheiro ao pódio de mercadoria mais cobiçada da pandemia do novo coronavírus. Só em São Paulo, o consumo do produto teve um aumento de 211%, entre os dias 16 e 22 de março, segundo um levantamento da consultoria Kantar. Essa é apenas uma das muitas mudanças no hábito de consumo durante a pandemia.

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Segundo o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, na última semana de março, os brasileiros passaram a comprar 22% a mais, apesar da alta do preço dos alimentos estar quatro vezes acima da inflação média. O prolongamento do isolamento social deslocou a preocupação do banheiro para a cozinha. Com isso, a variação média dos preços de 20 itens presentes na cesta básica foi de 0,19%, no início de março, para 1,64% no dia 26 do mesmo mês. O feijão, que era vendido à uma média de R$ 4, chegou à R$ 11 em alguns estabelecimentos de São Paulo. 

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Não há tabelamento de preços durante a pandemia, mas o Procon considera o aumento sem justificativa um crime contra a economia popular e infração gravíssima contra o consumidor. 

“As pessoas começaram a fazer dentro de casa tudo aquilo que faziam fora, além, é claro, de fazer coisas que não faziam antes”, afirma Silvio Laban, coordenador do mestrado profissional em administração do Insper. “A casa está sendo ressignificada pelas pessoas, ela agora é restaurante, academia, barbeiro. E isso pode significar também o aumento da compra de produtos que elas tradicionalmente não comprariam, como bebidas alcoólicas, por exemplo”. 

Segundo a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Droga (Abead), as vendas de bebidas alcoólicas em distribuidoras cresceram 38% no mês de abril, em comparação com o mês anterior. Nos supermercados, o aumento foi de 27%. 

Um efeito colateral de todo esse consumo caseiro pode ser encontrado nas lixeiras dos domicílios. De acordo com um levantamento feito pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), a geração de lixo comum no país teve uma queda de 7,25%, em abril, em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O brasileiro está consumindo menos orgânicos e mais produtos industrializados. Essa mudança reflete no aumento do volume de lixo reciclável, que foi de 28%. 

Para a Abrelpe, essa mudança no perfil dos resíduos produzidos pelos consumidores em isolamento tem relação com o aumento das compras pela internet. 

Um levantamento feito pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), que entrevistou mil pessoas em todo o país, revelou que 61% dos brasileiros que fizeram compras online durante o período de quarentena aumentaram o volume de compras por conta do isolamento social. Em 46% dos casos, esse aumento foi de mais de 50%. A maior alta se deu justamente na compra de alimentos e bebidas para consumo imediato, com uma variação de 79%. 

Para Silvio Laban, do Insper, a pandemia acelerou a digitalização tanto das empresas quanto de consumidores que ainda não haviam aderido ao mercado online. “Provavelmente, isso vai continuar para além da quarentena, elevando a experiência desses canais digitais a outro patamar de utilização”, acredita. “É evidente que, neste momento, a princípio, o consumidor tem um grau maior de tolerância com problemas como demora na entrega, por exemplo, mas, passando essa etapa, as pessoas tendem a ficar mais exigentes e as empresas vão ter que se adequar.”

O coração e a mente dos consumidores

Laban cita o Magazine Luiza como rede de varejo que tem se destacado durante a crise. Não à toa a imagem da companhia é a mais bem avaliada por consumidores neste período, de acordo com uma pesquisa da ESPM Rio. “A maneira como a organização comunica seu propósito é a maneira que isso vai ressoar no cliente”, afirma ele, lembrando de iniciativas do Magalu como o botão de denúncia de violência doméstica dentro do aplicativo de compras da marca e o programa de incentivo a pequenos empreendedores. “Isso demonstra uma preocupação mais ampla, que não é só com o negócio, mas com o bem estar da sociedade. Acredito que essa sensibilidade faça com que a marca se sobressaia.”

Para o especialista em varejo e comportamento do consumidor Roberto Kanter, professor dos MBAs da FGV, além da marca de Luiza Trajano, outra rede que se destaca em meio à pandemia é o Mercado Livre. “O principal atributo destes players foi conseguir colocar o consumidor no centro das decisões, trazendo facilidades, algo que é fácil na teoria, mas muito difícil a prática”, acredita. 

A maneira como a organização comunica seu propósito é a maneira que isso vai ressoar no cliente

Na contramão das empresas que investem no comércio online, ainda segundo a pesquisa da ESPM Rio, a rede de hambúrgueres Madero foi a mais lembrada de forma negativa. “Empresas como a Madero e a Smart Fit, por exemplo, não vêm sendo julgadas pela experiência de consumo, mas pelo posicionamento social, ao defender o governo e agirem por interesses exclusivamente do mercado”, declara Kanter. 

Enquanto o país vê os casos de Covid-19 explodirem, cidades como Rio de Janeiro e São Paulo ensaiam seus planos de retomada da economia. “Desde o começo do segundo governo Dilma, vemos os fatores políticos se sobreporem às questões econômicas”, recorda Kanter, que compara a economia à vida dos cachorros, na qual cada ano equivale a seis “anos humanos”. “Sete anos andando para trás na economia significam quarenta anos perdidos na comparação com os outros países. A questão política precisa ser resolvida.” 

Como destaca Laban, “as empresas que não conseguirem, ou que forem incapazes, de se mostrar além das preocupações empresariais tendem a ocupar um espaço diferente, talvez menos próximo do coração e da mente dos consumidores”. 

Segundo ele, é importante lembrar que a sociedade percorre um território cujo mapa não existe. “Tanto o varejista quanto o consumidor precisam entender que essa realidade que chamam de ‘o novo normal’ não tem nada de normal, é outra coisa”.

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